Vinícola no Douro une arquitetura sustentável e vistas espetaculares em Portugal

Situada no Alto Douro Vinhateiro, a mais prestigiada região vinícola de Portugal e reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial desde 2001, a Quinta de Adorigo integra um empreendimento familiar dedicado ao enoturismo, que inclui uma vinícola e um hotel atualmente em construção. Mais do que um espaço de produção, o projeto arquitetônico nasce da relação com a paisagem, da ocupação humana milenar e da tradição secular da vitivinicultura, incorporando soluções que valorizam o território e a cultura local por meio de estratégias inovadoras de sustentabilidade.

O reconhecimento internacional não tardou a chegar. Em 2025, a vinícola venceu a categoria Best Mixed Hospitality Design of the Year (Melhor Design de Hospitalidade Mista do Ano) no Archisearch Awards. No ano seguinte, conquistou o prêmio do júri na categoria Bars & Wineries do Architizer A+ Awards.

Arquitetura como complemento da paisagem do Alto Douro Vinhateiro

Com materiais sustentáveis, vinícola une arquitetura e sustentabilidade à paisagem do Alto Douro Vinhateiro, em Portugal — Foto: Fernando Guerra/Divulgação
Com materiais sustentáveis, vinícola une arquitetura e sustentabilidade à paisagem do Alto Douro Vinhateiro, em Portugal — Foto: Fernando Guerra/Divulgação

Assinado pelo Atelier Sérgio Rebelo, escritório português fundado em 2018, o edifício ocupa uma área de 1.100 m² e se destaca pelas formas curvas e horizontais, além dos percursos que conectam seus diferentes setores. Em vez de reproduzir literalmente a paisagem, a arquitetura interpreta o desenho em zigue-zague dos vinhedos que recobrem as colinas do Douro, traduzindo-o em fluxos de circulação, comunicação e trabalho.

O edifício acompanha o movimento descendente dos terraços do terreno, refletindo sua dinâmica interna. A produção do vinho acontece por gravidade — método tradicional da região do Douro —, organizando os diferentes ambientes em uma sequência de naves interligadas que acompanham a topografia natural e reproduzem seus desníveis no interior da construção.

O movimento descendente da edificação ao longo dos terraços do terreno reflete a sua dinâmica interna, na qual o processo de produção do vinho ocorre por gravidade — Foto: Fernando Guerra/Divulgação
O movimento descendente da edificação ao longo dos terraços do terreno reflete a sua dinâmica interna, na qual o processo de produção do vinho ocorre por gravidade — Foto: Fernando Guerra/Divulgação

A estrutura é formada por pórticos de madeira laminada e painéis de CLT (Cross Laminated Timber), revestidos por painéis pré-fabricados de GRC (Glass Fiber Reinforced Concrete, ou concreto reforçado com fibra de vidro), produzidos no norte de Portugal, a menos de 150 quilômetros da vinícola. O emprego do CLT garantiu ao projeto o prêmio Best Use of Timber no World Architecture Festival, em 2025.

A estrutura das naves é composta por pórticos de madeira laminada e painéis de CLT — Foto: Fernando Guerra/Divulgação
A estrutura das naves é composta por pórticos de madeira laminada e painéis de CLT — Foto: Fernando Guerra/Divulgação

Além de fortalecer a cadeia produtiva regional, a escolha de materiais locais reduziu o transporte de insumos por longas distâncias. O uso de componentes pré-fabricados também diminuiu o tempo de obra e a circulação de veículos dentro da propriedade, contribuindo para reduzir o impacto ambiental da construção.

A cobertura reinterpreta o tradicional telhado de duas águas das construções vernaculares da região. Com sua estrutura de madeira mantida aparente, transforma-se em um elemento escultórico contínuo e sinuoso, que acompanha as curvas das encostas e reforça a identidade do edifício.

A escolha por materiais sustentáveis e moldáveis

Os materiais utilizados reproduzem a paleta natural da paisagem, com tons rosados, terrosos, verdes e cinzas — Foto: Fernando Guerra/Divulgação
Os materiais utilizados reproduzem a paleta natural da paisagem, com tons rosados, terrosos, verdes e cinzas — Foto: Fernando Guerra/Divulgação

A materialidade dialoga diretamente com a paisagem do Douro. Tons rosados, terrosos, verdes e acinzentados reproduzem a paleta natural da região, enquanto técnicas construtivas tradicionais são reinterpretadas por tecnologias contemporâneas. Nas áreas externas e nos muros internos de contenção em concreto, foram empregados revestimentos de xisto e granito, materiais característicos do território.

Nos trechos em que a construção não toca o solo, a estrutura de madeira substitui o concreto, reduzindo significativamente o consumo desse material. Como resultado, as emissões de CO₂ foram cerca de 40% menores em comparação às de uma edificação inteiramente executada em concreto.Selecione suas newsletters

Na construção da Quinta de Adorigo, estruturas de madeira foram utilizadas nos trechos em que o edifício não toca o solo — Foto: Fernando Guerra/Divulgação
Na construção da Quinta de Adorigo, estruturas de madeira foram utilizadas nos trechos em que o edifício não toca o solo — Foto: Fernando Guerra/Divulgação

Expostos às condições climáticas locais, os materiais adquirem, ao longo do tempo, tonalidades e texturas que integram a arquitetura à paisagem, permitindo que o edifício envelheça de forma natural — assim como um bom vinho do Porto.

O projeto estabelece uma relação permanente com o Alto Douro Vinhateiro, emoldurando vistas da paisagem a partir de diversos ambientes internos. No exterior, trilhas, pátios e espaços de permanência convidam à contemplação, à caminhada, à meditação e ao convívio.

Otimização energética é aliada da produção de vinhos

A construção combina soluções de conservação e produção de energia, priorizando sistemas de baixo consumo — Foto: Fernando Guerra/Divulgação
A construção combina soluções de conservação e produção de energia, priorizando sistemas de baixo consumo — Foto: Fernando Guerra/Divulgação

No desempenho ambiental, a vinícola combina estratégias passivas e sistemas ativos para reduzir o consumo energético e as emissões de gases de efeito estufa. O projeto explora o potencial da própria arquitetura para manter a área de envelhecimento dos vinhos entre 14 °C e 16 °C, mesmo diante de temperaturas externas que variam de -5 °C, no inverno, a 45 °C, no verão.

Para isso, a face sul do edifício foi implantada em contato direto com o solo, aproveitando sua inércia térmica, enquanto a fachada principal foi orientada para o norte, minimizando a incidência solar ao longo do ano.

Também foram implementadas soluções locais de geração de energia elétrica, gerenciadas por um sistema central capaz de controlar e monitorar todo o funcionamento energético do edifício. Parcialmente enterrada, a construção aproveita a estabilidade térmica do solo, enquanto um sistema geotérmico de baixa entalpia produz, recupera e armazena energia.

Também foram implementadas soluções locais de geração de energia elétrica — Foto: Fernando Guerra/Divulgação
Também foram implementadas soluções locais de geração de energia elétrica — Foto: Fernando Guerra/Divulgação

O empreendimento também conta com sistemas locais de geração de energia elétrica integrados a uma plataforma central de monitoramento e controle. Parcialmente enterrada, a construção utiliza a estabilidade térmica do terreno, complementada por um sistema geotérmico de baixa entalpia, capaz de produzir, recuperar e armazenar energia.

A combinação dessas soluções reduziu significativamente a demanda dos sistemas mecânicos de climatização e rendeu ao projeto o prêmio Production, Energy & Logistics no World Architecture Festival de 2025.

Sem acesso à rede pública de abastecimento, a vinícola também incorpora soluções para captação de água da chuva, obtenção de água potável por meio de poços artesianos e tratamento para reutilização em irrigação, limpeza e combate a incêndios. Nas áreas externas, pavimentos permeáveis permitem que a água retorne ao solo e seja reintegrada às atividades agrícolas.

Por dentro da Quinta de Adorigo

Na fachada principal da vinícola encontra-se o centro de visitantes, que abriga recepção e loja de vinhos — Foto: Fernando Guerra/Divulgação
Na fachada principal da vinícola encontra-se o centro de visitantes, que abriga recepção e loja de vinhos — Foto: Fernando Guerra/Divulgação

O paisagismo complementa essa estratégia ambiental ao recuperar espécies nativas, que acrescentam cor e perfume ao conjunto, favorecem a biodiversidade e criam habitats para animais benéficos aos vinhedos, fortalecendo o equilíbrio ecológico da propriedade.

Na fachada principal está localizado o centro de visitantes, que reúne recepção e loja de vinhos. A partir desse ponto, o percurso conduz à sala de reuniões, totalmente envidraçada, e à área de degustação, instalada em uma ampla galeria com varanda. Dali, é possível observar simultaneamente a nave central destinada ao envelhecimento dos vinhos, os vinhedos e o rio Douro.

Esses ambientes se conectam diretamente às áreas externas, aos vinhedos e à capela por meio de um amplo terraço voltado para o Douro. É nesse espaço que acontecem eventos dedicados à promoção da vinícola e da região, celebrando, em uma mesma experiência, a paisagem, a arquitetura e o enoturismo de excelência.

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