A sujeira invisível: o que pode estar escondido no seu colchão (e adoecendo você)

Depois de um dia atarefado e cansativo, o primeiro instinto é deitar na cama. Da mesma forma que, para nós, o colchão é sinônimo de conforto, aconchego e descanso, ele também oferece condições favoráveis à presença de ácaros e outros microrganismos que podem fazer você reconsiderar o amor pela cama. Segundo uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o colchão é um dos locais com maior concentração de ácaros nas residências: foram encontrados 950 animais por grama de poeira na parte superior da cama e até 3.900 na região inferior, próxima ao estrado.

Se isso já é suficiente para fazer o colchão parecer mais uma placa de Petri do que um refúgio de descanso, há ainda outro detalhe: o estofado entra diariamente em contato com uma combinação de suor, saliva, caspa, fios de cabelo, pelos de animais, células mortas da pele e, eventualmente, partículas de alimentos. Esse conjunto de resíduos, associado ao calor e à umidade, cria condições favoráveis à permanência e, em alguns casos, à proliferação de ácaros, fungos e bactérias.

A seguir, a Casa Vogue conversou com profissionais das áreas de microbiologia e limpeza para entender o que realmente se esconde no colchão e como reduzir esse acúmulo. Confira:

O que se esconde no colchão?

Os principais habitantes desse ambiente são os ácaros, micro-artrópodes que se alimentam da descamação da pele humana — Foto: Liudmila Chernetska/GettyImages
Os principais habitantes desse ambiente são os ácaros, micro-artrópodes que se alimentam da descamação da pele humana — Foto: Liudmila Chernetska/GettyImages

Noite após noite, o colchão acumula uma variedade de resíduos. Alguns vêm diretamente do corpo; outros chegam com o ambiente e se acumulam com o passar do tempo. Mesmo com a troca regular dos lençóis e uma aparência impecável por fora, as camadas internas do estofado podem abrigar um verdadeiro ecossistema invisível.

“Os principais habitantes desse ambiente são os ácaros, microartrópodes que se alimentam da descamação da pele humana. Nós perdemos cerca de meio a um grama de pele por dia, e parte desse material acaba se acumulando nos tecidos. Além dos ácaros vivos, também se acumulam seus detritos e fezes, que são altamente alergênicos”, pontua a médica patologista clínica do DB Diagnósticos Maria Gabriela de Lucca, membro do Conselho Fiscal da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica.

Aos ácaros somam-se resíduos do próprio corpo, como suor, pequenas quantidades de sebo, fluidos corporais, células da pele e umidade. Segundo a médica, uma pessoa pode perder, em média, até 0,5 litro de suor durante uma noite, parte do qual fica retida na roupa de cama e no colchão. Além disso, um estudo publicado na revista Environmental Science & Technology estima que perdemos entre 0,03 e 0,09 g de pele por hora. Embora pareça pouco, o volume se acumula ao longo dos anos.

“Esse material orgânico penetra nas camadas internas do estofado e cria um ambiente favorável à presença de ácaros, fungos e bactérias. Como esse acúmulo é invisível, muitas pessoas só percebem o problema quando aparecem odores, manchas ou sintomas alérgicos. Ao longo dos anos, os colchões podem acumular uma grande quantidade de ácaros”, explica Fritz Paixão, CEO da CleanNews, rede de higienização e conservação de estofados.

Embora a maioria não vá causar uma infecção grave do nada, a convivência diária com essa carga microbiana e com os esporos dos fungos é o que costuma detonar as crises alérgicas — Foto: brizmaker/GettyImages
Embora a maioria não vá causar uma infecção grave do nada, a convivência diária com essa carga microbiana e com os esporos dos fungos é o que costuma detonar as crises alérgicas — Foto: brizmaker/GettyImages

Entre os fungos que podem ser encontrados em ambientes internos estão gêneros como Aspergillus e Penicillium. A presença de umidade elevada e ventilação insuficiente pode favorecer o crescimento de fungos em diferentes materiais, inclusive tecidos e espumas.

Já as bactérias podem ter origem tanto na própria pele quanto no ambiente. Bactérias comuns da microbiota cutânea, como espécies do gênero Staphylococcus, podem chegar ao colchão por meio do contato com o corpo.

A presença desses microrganismos, por si só, não significa que o colchão vá provocar uma infecção. Em pessoas suscetíveis, porém, a exposição a ácaros, seus resíduos e determinados fungos pode contribuir para sintomas alérgicos e respiratórios.

Por que o colchão acumula sujeira ‘invisível’?

As principais características que colaboram para o acúmulo de detritos são a baixa respirabilidade, pouca capacidade de transporte de umidade, estrutura muito fechada e dificuldade de limpeza — Foto: Dmitrii Marchenko/GettyImages
As principais características que colaboram para o acúmulo de detritos são a baixa respirabilidade, pouca capacidade de transporte de umidade, estrutura muito fechada e dificuldade de limpeza — Foto: Dmitrii Marchenko/GettyImages

Nem mesmo a pessoa mais cuidadosa consegue eliminar completamente a presença de microrganismos e resíduos no colchão. Mesmo com o uso de capas protetoras e a troca frequente da roupa de cama, partículas de pele, suor, cabelos e poeira entram em contato com os tecidos.

Isso acontece porque o próprio colchão reúne características que favorecem a retenção desses materiais. Entre elas estão a baixa respirabilidade, a capacidade de transporte de umidade, a estrutura interna e a dificuldade de limpeza.

Conforme Júlio Cesar Pereira, consultor técnico no laboratório de Microbiologia do SENAI CETIQT, diversos fatores relacionados ao tecido influenciam esse processo. “A gramatura, a construção do tecido, o tipo de fibra e o acabamento superficial também influenciam. Tecidos muito fechados ou com determinados revestimentos podem reduzir a troca de ar e dificultar a secagem”, diz o especialista.

Dessa forma, tecidos com baixa permeabilidade ao ar podem dificultar a evaporação do suor. Já superfícies que retêm oleosidade e partículas favorecem a permanência de células da pele, poeira e outros resíduos.Selecione suas newsletters

“Também é importante considerar a gramatura, a densidade, a textura e a construção da superfície. Tecidos mais felpudos, texturizados ou com maior volume superficial, por exemplo, tendem a oferecer mais espaços para retenção de partículas do que uma superfície mais lisa e compacta”, indica Hanna Kramolisck, coordenadora do curso de Graduação em Design de Moda do Senac EAD.

O tipo de colchão também tem impacto direto, visto que as fibras apresentam propriedades diferentes — Foto: Dmitrii Marchenko/GettyImages
O tipo de colchão também tem impacto direto, visto que as fibras apresentam propriedades diferentes — Foto: Dmitrii Marchenko/GettyImages

A umidade também desempenha papel importante. Quando fica retida nas fibras e nas camadas do colchão, aumenta a disponibilidade de água necessária para diversos processos biológicos e pode favorecer a permanência de determinados microrganismos.

“Quando você junta o calor do corpo com essa matéria orgânica e a umidade em um ambiente escuro e abafado, cria-se um cenário favorável. É como se o colchão virasse uma estufa caseira”, brinca a médica.

O tipo de fibra também interfere nesse comportamento. Colchões e revestimentos de algodão, por exemplo, apresentam boa capacidade de absorção de água, mas podem permanecer úmidos por mais tempo quando há pouca ventilação. Já a lã consegue absorver vapor de água e apresenta comportamento higroscópico.

“O poliéster absorve pouca água em comparação com fibras naturais, mas pode transportar a umidade pela estrutura do tecido, dependendo da construção e do acabamento”, aponta Júlio. A poliamida também apresenta baixa absorção de água, mas pode ter boa capacidade de gerenciamento da umidade quando utilizada em estruturas apropriadas.

Existem ainda tecidos com tratamentos antimicrobianos que podem ajudar a reduzir ou inibir o crescimento de determinados microrganismos na superfície. No entanto, a eficácia depende da tecnologia utilizada e da finalidade do produto. Esses acabamentos não tornam o colchão estéril e não substituem a limpeza, a ventilação e o controle da umidade.

Entre as limitações dos colchões e revestimentos antimicrobianos estão a ação específica contra determinados microrganismos, a possível redução do efeito ao longo do tempo e a necessidade de avaliar a concentração, a durabilidade e a distribuição do agente antimicrobiano. Em alguns casos, a ação também pode estar restrita à superfície do material.

Alguns hábitos podem aumentar a proliferação de microorganismos no seu colchão

Ademais, quartos mal ventilados ou com pouca entrada de luz solar também podem agravar o acúmulo de microorganismos — Foto: Olga Yastremska/GettyImages
Ademais, quartos mal ventilados ou com pouca entrada de luz solar também podem agravar o acúmulo de microorganismos — Foto: Olga Yastremska/GettyImages

A presença de ácaros, fungos, bactérias e resíduos da pele humana no colchão é comum e, em certa medida, inevitável. Ainda assim, alguns hábitos cotidianos podem contribuir para o aumento da umidade e do acúmulo de sujeira.

Um dos erros mais comuns é arrumar a cama imediatamente depois de acordar. Sim, todos crescemos ouvindo que é indispensável deixar tudo em ordem logo cedo, mas o colchão ainda está aquecido pelo corpo e pode conter umidade do suor. Ao cobri-lo imediatamente com edredons e cobertores, você dificulta a evaporação.

Por isso, vale deixar a cama aberta por algum tempo antes de arrumá-la, permitindo que a umidade evapore e que o colchão seja ventilado.

“Outro ponto é dormir com o cabelo molhado ou úmido. Essa água acaba indo para o travesseiro e para a parte superior do colchão, criando um foco pontual de umidade que pode levar horas para secar”, acrescenta Maria.

Quartos mal ventilados e ambientes com umidade elevada também podem favorecer o acúmulo de umidade nos tecidos. A ausência de uma capa protetora, por sua vez, deixa suor, oleosidade e descamação da pele em contato mais direto com o colchão.

É possível diminuir a presença de microorganismos no colchão?

Ao higienizar o colchão em casa, é necessário se atentar aos erros comuns, como o uso de água em excesso — Foto: Olga Yastremska/GettyImages
Ao higienizar o colchão em casa, é necessário se atentar aos erros comuns, como o uso de água em excesso — Foto: Olga Yastremska/GettyImages

É impossível eliminar completamente esses microrganismos e resíduos, mas é possível controlar o acúmulo. A frequência da higienização profunda depende das condições de uso, do material e das orientações do fabricante. Em geral, especialistas do setor recomendam uma limpeza periódica, muitas vezes a cada seis meses, com intervalos menores em situações específicas, como casas com crianças pequenas, animais de estimação ou ambientes muito quentes e úmidos.

Ao higienizar o colchão em casa, é necessário evitar erros comuns, como o uso excessivo de água, a secagem incompleta, a aplicação de produtos químicos incompatíveis com o material e a colocação da roupa de cama antes de o colchão estar completamente seco.

“No caso específico dos colchões, existe uma questão adicional. Nem todo colchão foi projetado para ser lavado ou receber grande quantidade de água. Por isso, o procedimento de higienização deve respeitar as orientações do fabricante. O excesso de água pode ser mais prejudicial do que a própria sujeira quando não há possibilidade de uma secagem completa e rápida”, pontua Hanna.

Vale lembrar, porém, que processos de limpeza inadequados ou muito agressivos também podem provocar desgaste mecânico, perda de resistência, alteração dimensional, formação de pilling, mudança de cor e perda de determinados acabamentos.

Outra boa tática é a aspiração periódica, que ajuda a remover poeira — Foto: Witthaya Prasongsin/GettyImages
Outra boa tática é a aspiração periódica, que ajuda a remover poeira — Foto: Witthaya Prasongsin/GettyImages

Outra boa estratégia é a aspiração periódica. Ela ajuda a remover poeira, cabelos, células mortas da pele e parte dos resíduos que servem de alimento para os ácaros. “O ideal é utilizar um aspirador com filtro HEPA, quando disponível, passando lentamente por toda a superfície, laterais e costuras do colchão, sempre com o colchão completamente seco. Embora não elimine os ácaros por completo, essa estratégia ajuda a reduzir o acúmulo de resíduos e a manter o colchão”, explica Fritz.

A capa protetora também é uma aliada. Ela funciona como uma barreira física, reduzindo o contato do suor, da oleosidade e da descamação da pele com as camadas internas do colchão. É importante, porém, prestar atenção ao material escolhido. Modelos excessivamente plastificados podem reduzir a respirabilidade e favorecer o acúmulo de suor na superfície. Segundo os especialistas, o ideal é optar por capas que ofereçam proteção contra líquidos sem comprometer excessivamente a ventilação.

A substituição do colchão, por sua vez, deve seguir principalmente as orientações do fabricante e o estado de conservação do produto. Em muitos casos, a vida útil fica na faixa de cinco a oito anos, mas pode variar de acordo com o material, a qualidade, o uso e a manutenção. “Alguns sinais de desgaste são afinamento, formação excessiva de bolinhas, fios puxados, perda de elasticidade, manchas persistentes, superfícies ásperas ou endurecidas, deformações e perda do acabamento superficial. Entretanto, aparência e toque não são suficientes para determinar a condição microbiológica do tecido. Um tecido pode parecer limpo e apresentar microrganismos”, comenta Júlio.

O colchão, portanto, não deve ser tratado como um objeto que só precisa de atenção quando apresenta uma mancha. Ele é utilizado diariamente, permanece em contato prolongado com o corpo e exige cuidados contínuos para preservar suas condições de uso. “A prevenção, sobretudo o controle da umidade e a utilização de uma barreira lavável, é mais eficiente do que tentar recuperar um colchão depois que anos de acúmulo já ocorreram”, finaliza Hanna.

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