MIS Copacabana: o fim de uma espera de mais de 10 anos
Mais do que um museu, o MIS Copacabana entra na reta final de uma obra que atravessou mais de uma década até transformar um dos endereços mais emblemáticos do Rio de Janeiro em um novo marco cultural. Com abertura total prevista para o segundo semestre de 2026, o edifício já oferece ao público um primeiro vislumbre do que está por vir.
Embora a construção concentre as atenções, a Fundação MIS atua desde 1965 na preservação e difusão da cultura brasileira. O acervo permanece nas sedes da Praça XV e da Lapa, enquanto a unidade de Copacabana passa a abrigar exposições, salas de cinema, restaurante e experiências imersivas, ampliando as formas de narrar a produção cultural do país.
“O novo edifício não reinventa o MIS no sentido de apagar sua trajetória. Ele atualiza, expande e fortalece sua missão original: servir à cultura, preservar a memória e tornar esse patrimônio cada vez mais acessível à população”, afirma Cesar Miranda Ribeiro, presidente da instituição desde 2021.
A expectativa é receber cerca de 1,3 milhão de visitantes por ano, segundo o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Antes mesmo da conclusão das obras, o espaço inaugura sua primeira mostra. Arquitetura em Cena – O MIS Copa Antes da Imagem e do Som apresenta o percurso de 16 anos até a concretização do projeto.
“A exposição está localizada no primeiro pavimento do MIS Copacabana. Neste momento, está sendo acessada apenas por grupos previamente agendados. O público em geral poderá visitá-la a partir de 8 de maio, com agendamento via Sympla”, explica Danielle Barros, secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro.
Segundo Cesar, começar pela arquitetura não é casual. Antes de apresentar o acervo audiovisual, era necessário contar a história do edifício, sua concepção e os esforços institucionais que garantiram sua conclusão após anos de interrupções.
“Essa obra ficou parada por muito tempo, por diversos motivos, e sua retomada representou uma grande responsabilidade com a sociedade. Hoje, estamos próximos da entrega total desse equipamento cultural tão aguardado.”
A construção de um museu
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Para entender a dimensão do projeto, é preciso voltar a 2008, quando surge a ideia de uma nova sede para o MIS. Na época, a Fundação Roberto Marinho já havia desenvolvido projetos como o Museu da Língua Portuguesa e o Museu do Futebol, em São Paulo – experiências que ajudaram a redefinir o papel dos museus no Brasil. “Era necessário desenvolver algo tão imponente quanto no Rio de Janeiro”, explica Larissa Graça, gerente de Patrimônio e Cultura da Fundação Roberto Marinho.
Copacabana foi escolhida não apenas pela visibilidade, mas por sua natureza simbólica e democrática – um território que reúne moradores, turistas e diferentes camadas sociais. Para o MIS, esse contexto não representa um desafio, mas uma oportunidade de ampliar seu alcance.
Após a definição do terreno, foi realizado um concurso internacional de arquitetura organizado pela Fundação Roberto Marinho, reunindo escritórios nacionais e estrangeiros e uma banca multidisciplinar.
O vencedor foi o escritório nova-iorquino Diller Scofidio + Renfro. “Eles nunca tinham estado no Brasil, mas tiveram muita sensibilidade para entender, a partir dos materiais e pesquisas, o que era o MIS e a sua importância”, afirma Larissa.
A obra foi dividida em três etapas – demolição, estrutura e acabamento – e enfrentou uma longa paralisação de cerca de seis anos. Retomada em 2021 com recursos da venda da CEDAE, entra agora em sua fase final. “Nunca foi uma questão de falta de dinheiro. O problema foram questões administrativas, jurídicas e contratuais, além das crises institucionais e da pandemia”, esclarece Larissa.
Mesmo durante esse período, o MIS permaneceu ativo como instituição. “O museu não se resume a um prédio. Ele continuou cumprindo sua missão de preservar, pesquisar e difundir a cultura”, reforça Cesar.
A arquitetura que transforma a paisagem
Localizado em um dos cartões-postais mais conhecidos do mundo, o projeto precisava responder a uma equação complexa: integrar arquitetura, paisagem, conteúdo e experiência.
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A solução proposta pelo Diller Scofidio + Renfro parte de um gesto simples e poderoso: transformar o calçadão de Copacabana em arquitetura. “O edifício nasce da ideia de verticalizar o calçadão desenhado por Burle Marx. Um percurso horizontal se transforma em um vertical”, comenta Larissa.
Esse conceito, chamado “boulevard vertical”, organiza toda a experiência do museu. A escadaria que percorre a fachada não é apenas circulação – é o próprio edifício. “Criar um museu em diálogo com a paisagem icônica do Rio foi central para o projeto. O edifício não compete com seu entorno, ele se orienta inteiramente para a Avenida Atlântica e a praia. A vista panorâmica só é plenamente apreciada ao percorrer a fachada, na subida da calçada ao terraço. Essa ascensão é concebida como um encontro coreografado com o ambiente”, explica Elizabeth Diller, cofundadora do escritório ao lado de Ricardo Scofidio (1935–2024).
Marcado pelo concreto aparente, vidro e grandes balanços, o edifício se constrói a partir do movimento. A volumetria fragmentada surge de uma investigação sobre como a circulação poderia atravessar a fachada mantendo uma presença leve e contínua.
“Na fachada, o principal desafio estrutural foi viabilizar a escada de concreto em balanço e os elementos de fechamento, preservando sua aparência leve e fluida. A solução está oculta em pilares de grande profundidade. Com formato losangular, esses elementos estruturais fornecem a inércia necessária para resistir aos esforços de tombamento gerados pelos balanços. Transformar esse caminho de forças – do horizontal para o vertical – foi uma inovação técnica fundamental, que permite ao visitante vivenciar de forma dramática a ascensão pelo ‘boulevard vertical’”, declara a arquiteta.
Outro ponto central é o controle de luz – essencial para um museu de imagem – em contraste com a localização na orla. A resposta está no cobogó tridimensional, que funciona como filtro e mediador da paisagem.
Além de proteger os espaços expositivos, o cobogó transforma a paisagem em parte do acervo. “O elemento vazado protege as áreas programáticas do museu da incidência direta de luz natural, ao mesmo tempo em que orienta as vistas do visitante para a praia, o horizonte e o Pão de Açúcar, atuando tanto como filtro ambiental quanto como mediador visual. Sempre acreditamos que essa vista curada faria parte da coleção do MIS”, afirma Elizabeth.
Entre conceito e construção
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Para viabilizar um projeto dessa complexidade, foi essencial a atuação do escritório brasileiro Índio da Costa Arquitetura, responsável pela adaptação técnica e compatibilização com as normas locais. “Respeitando o conceito inicial, compatibilizamos os projetos complementares – estrutura, acústica, museografia, instalações – sempre em diálogo com o escritório americano”, explica o arquiteto.
Essa colaboração foi decisiva para traduzir o projeto à realidade brasileira sem comprometer sua força conceitual. “O projeto, como um todo, foi um desafio em todos os sentidos, com soluções profundamente estudadas e desenvolvidas em conjunto.”
Do ponto de vista técnico, construir à beira-mar impôs desafios importantes, especialmente nas fundações e nos grandes balanços da estrutura. “A solução foi transformar esforços horizontais em um sistema estrutural vertical, permitindo manter a leveza visual da fachada”, explica Elizabeth.
Um museu em movimento
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Mais do que um espaço expositivo, o MIS Copacabana nasce com a proposta de ser um museu ativo. O programa inclui exposições permanentes e temporárias, auditório, áreas educativas, restaurante, café, terraço com cinema ao ar livre e até uma boate integrada ao percurso expositivo. “A proposta é ser uma ‘fábrica de cultura’. Tudo o que acontece ali pode virar acervo”, resume Larissa.
Após quase duas décadas desde sua concepção, o projeto mantém sua relevância. “A arquitetura continua impactante, a museografia continua pertinente. Ele não perdeu o sentido”, afirma.
Para Elizabeth, isso se explica pelo fato do edifício responder a questões que ainda permanecem atuais. “As desigualdades persistem, e o projeto continua sendo uma resposta válida ao contexto social e urbano.”
Arquitetura em cena
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Antes da abertura completa, o público já pode acessar parte do edifício através da exposição “Arquitetura em Cena – O MIS Copa Antes da Imagem e do Som”. A mostra apresenta o processo de concepção, os desafios técnicos e as decisões que moldaram o projeto, divididos em núcleos como “A Concepção”, “O Projeto” e “Uma História Construída a Muitas Mãos”.
Neste primeiro momento, a visitação é controlada e realizada por grupos agendados. “Essa fase também é importante para escutar a sociedade e entender como diferentes públicos se relacionam com o espaço”, explica Cesar.
A abertura completa do museu está prevista para dezembro, já com toda a museografia instalada e programação cultural ativa. “Queremos que o visitante saia do MIS com a sensação de ter vivido uma experiência completa, que una memória, emoção e pertencimento”, conclui.
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De frente para a praia de Copacabana, um dos espaços públicos mais emblemáticos do mundo, o novo MIS se prepara para assumir um papel que vai além da arquitetura – o de transformar a relação entre cidade, cultura e acesso.
“Acho que a cidade ganhou mais um ícone arquitetônico e cultural de alta relevância. Valeu todo o esforço e a persistência conjunta. O Rio de Janeiro merece o MIS”, finaliza Indio da Costa.
expresso.arq com informações de Alex Alcantara


