Por que uma cidade pensada para as crianças é mais inclusiva para todos?
E se as cidades fossem das crianças? No mês em que celebramos o Dia das Crianças, a pergunta convida a uma reflexão que vai muito além da existência de parques e playgrounds. A forma como ruas, calçadas, praças, transportes e equipamentos públicos são desenhados interfere diretamente na autonomia, na segurança, na saúde e nas possibilidades de brincar, conviver e explorar o mundo durante a infância. E pensar uma cidade mais acolhedora para os pequenos pode significar, também, construir espaços urbanos melhores para todos.
Por que uma cidade pensada para as crianças é mais inclusiva para todos?
É a partir dessa perspectiva que a jornalista e mestre em Políticas Públicas Regina Cintra investiga a relação entre urbanismo e infância no livro Cidades Que Abraçam Infâncias (2026). A obra percorre estudos sobre planejamento urbano, políticas públicas e os direitos das crianças à cidade, discutindo desde a importância de ouvi-las nos processos de decisão até os impactos que o território onde crescem pode exercer sobre seu desenvolvimento e sua qualidade de vida.
Para mostrar que essa transformação é possível, Regina reúne experiências dentro e fora do Brasil. Em Jundiaí, iniciativas como o Comitê das Crianças e a Fábrica das Infâncias Japy incorporam a participação infantil à construção da cidade. No Recife, mais de 40 mil alunos da rede pública, entre 4 e 8 anos, foram ouvidos no processo de criação de espaços voltados à infância. Já Boa Vista, considerada a “capital brasileira da primeira infância”, investiu em ciclovias, calçadas interativas, praças, mobiliário urbano e áreas de brincar que aproximam crianças e famílias dos serviços e espaços públicos.Selecione suas newsletters
Fora do país, Medellín é considerada um caso de sucesso mundial por ter passado de “cidade mais violenta do mundo” a “cidade mais inovadora”. Parte dessa mudança passou pelo cuidado com o espaço público e pela aproximação entre infraestrutura, mobilidade, arquitetura e comunidades periféricas. Equipamentos públicos de alta qualidade arquitetônica, como as Bibliotecas-Parque, tornaram-se parte dessa transformação, combinando cultura, serviços e espaços de convivência.
As experiências reforçam uma ideia defendida pelo pedagogo e pesquisador italiano Francesco Tonucci e que atravessa o debate proposto por Regina: “Uma cidade boa para crianças é boa para todos.” Para entender melhor o tema, conversamos com Regina Cintra sobre o que nossas cidades revelam sobre o lugar que reservamos à infância e o que precisa mudar para que crianças possam não apenas estar no espaço urbano, mas vivê-lo com autonomia, segurança, liberdade e pertencimento.
Por que, segundo Francesco Tonucci, uma cidade boa para crianças é boa para todos?
Eu acredito e concordo completamente com Francesco Tonucci. Não por acaso, ele é uma grande referência para muita gente que estuda cidades e infâncias. Quando consideramos a criança, adotamos uma perspectiva muito mais inclusiva. Pelo tamanho, pelo desenvolvimento e pelo tempo de vivência no mundo, as crianças muitas vezes precisam de mais tempo para atravessar uma rua, por exemplo, e para perceber se alguma coisa é perigosa ou não. Então, se você tem um semáforo de pedestres com um tempo mais longo, também vai favorecer o idoso. Se você tem mais áreas de convivência perto de uma escola, também vai favorecer quem leva e busca a criança. Quando temos a criança como parâmetro, temos uma cidade muito mais gostosa, segura e protegida. É um parâmetro mais inclusivo.
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O seu livro mostra que existem leis e políticas públicas que garantem o direito das crianças à cidade. Mas, na prática, qual é a distância entre essas leis e a experiência cotidiana nos centros urbanos?
É um abismo. Temos uma legislação ampla, detalhada e qualificada de proteção à criança, que começa pelo ECA e passa pelos planos municipais pela primeira infância e por uma série de outros regramentos. Quando falamos de cidades, também temos bons documentos. O problema não é a falta de regras, mas a falta de aplicação.
Durante décadas, as cidades fizeram escolhas de planejamento urbano que colocaram o carro no centro: as calçadas diminuíram, as avenidas cresceram e os tempos dos semáforos passaram a seguir essa lógica. Isso criou não apenas uma infraestrutura carrocêntrica, mas também uma cultura em que o carro é entendido como prioridade.
Então, não basta ter legislação. É preciso execução, fiscalização e políticas públicas capazes de mudar essa lógica. Podemos aumentar o tempo dos semáforos para pedestres, fiscalizar o desrespeito às faixas e pensar os deslocamentos para além da lógica casa-trabalho-casa. Enquanto a régua continuar sendo o impacto sobre o trânsito de carros, será muito difícil construir cidades realmente voltadas para as pessoas.
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O carro ainda ocupa uma posição central no desenho de muitas cidades brasileiras. De que maneira esse modelo afeta a experiência das crianças no espaço urbano?
Vivemos um carrocentrismo muito forte há muitas décadas e temos uma série de efeitos decorrentes disso. Há a questão da poluição sonora, da poluição visual e da poluição propriamente dita. As crianças, por estarem em desenvolvimento, serem menores e ainda estarem crescendo, inspiram muito mais do que os adultos e, consequentemente, inalam mais material particulado. Isso é mais tóxico para elas.
Há também uma questão de segurança em razão de atropelamentos e colisões. E existe ainda uma discussão sobre o que é a cidade e sobre como ocupamos os espaços públicos. Quase todos são destinados a quem chega de carro. A lógica é a do carro. Temos poucas áreas de convivência, os carros utilizam as calçadas e as calçadas também viraram estacionamento. São muitas as consequências dessas decisões carrocêntricas, que colocaram o carro no centro de tudo.
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Além de parques e playgrounds, o que torna uma cidade amigável para as crianças?
É muito mais do que parquinhos e playgrounds. Nos pontos de ônibus, nos pontos de espera e nos terminais, por exemplo, precisamos de proteção contra chuva e vento, que é o mínimo do mínimo. Também precisamos de mobiliário urbano. Às vezes, quando falo em mobiliário urbano, isso gera certo estranhamento porque as pessoas não sabem muito bem o que é. Estamos falando de banco para as pessoas pararem e sentarem, de uma área sombreada, de lixeira, bebedouro e banheiro público.
As calçadas são outra questão muito séria. Aqui, elas são de responsabilidade do proprietário do imóvel, o que é uma grande maluquice. As calçadas deveriam ser de responsabilidade da gestão pública, que deveria cuidar, manter, estabelecer larguras mínimas e garantir que fossem limpas, regulares e sem buracos.
Também podemos pensar em pinturas. Uma pintura lúdica no muro ou no chão interfere naquele território, levando cor, beleza e ludicidade, que também são direitos das crianças. As crianças têm direito à beleza. Todos nós temos. Os muros não precisam ser cinza. Podemos olhar para a cidade de uma maneira muito mais afetuosa, e todo mundo vai gostar de um lugar mais colorido e bem cuidado.
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Principalmente nos primeiros anos de vida, o bairro tem um papel fundamental na relação da criança com a cidade. Como esse entorno impacta seu desenvolvimento e de que forma as desigualdades entre bairros se refletem nessa experiência?
O que vivemos na cidade todos os dias é o que mais impacta a nossa vida: o tempo de espera, o conforto, a qualidade do ar, o barulho, a infraestrutura e o acesso aos serviços. Nos primeiros meses, o bebê fica muito dentro de casa e, quando as famílias começam a sair, esse contato com a cidade acontece primeiro pelo bairro. Você vai para a calçada, para a esquina, começa a percorrer pequenas distâncias. É esse entorno próximo que se torna o primeiro território da criança.
E é justamente nesse início da vida que as desigualdades já ficam muito marcadas. Uma criança pode crescer em um bairro com boas calçadas, áreas verdes, pouco ruído e serviços próximos, enquanto outra vive em um lugar sem calçada, com lixo, escadas que impedem o uso de um carrinho de bebê ou ao lado de uma linha de trem, exposta constantemente ao barulho. São diferenças de acesso, infraestrutura e qualidade urbana que impactam a experiência desde os primeiros dias de vida.
Por isso, gosto muito de uma ideia adotada em Medellín: “o melhor para quem mais precisa”. E é o melhor mesmo. A cidade investiu em equipamentos de qualidade nas áreas mais vulneráveis, com bibliotecas-parque, transporte e espaços esportivos integrados. Quando falamos de desigualdade no Brasil, precisamos pensar dessa maneira, porque infraestruturas urbanas tão diferentes criam oportunidades também muito diferentes desde a primeira infância.
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É impossível falar de uma cidade amigável para a criança sem considerar quem cuida dela. Qual é a importância de o planejamento urbano também facilitar a rotina das mães, dos pais e dos cuidadores em geral?
É fundamental. Quando você hostiliza, invisibiliza ou dificulta a vida da pessoa que está com a criança, isso inevitavelmente vai refletir na própria criança. Se esse adulto está com medo, nervoso, cansado ou inseguro, há um impacto direto sobre quem está sob seus cuidados.
Na maior parte do tempo, principalmente quando são pequenas, as crianças circulam acompanhadas. E, na enorme maioria das vezes, quem as acompanha é uma mulher, que já enfrenta uma série de outras barreiras ao longo do dia. Por isso, não basta pensar apenas no tempo dentro do ônibus, por exemplo. É preciso considerar todo o percurso: quanto tempo leva para chegar ao ponto, se existe uma calçada adequada, se o caminho é seguro e se aquela pessoa consegue circular com uma criança de maneira confortável.
A criança, por estar em desenvolvimento, é mais vulnerável e ainda não tem a mesma capacidade de calcular riscos, distâncias ou a velocidade de um carro. Ela precisa desse adulto, e esse adulto também precisa ser protegido pela cidade. Hoje, muitas vezes acontece justamente o contrário: cuidar de uma criança se torna mais uma camada de exaustão, desrespeito e exclusão.
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Você traz no livro experiências de Jundiaí, Recife, Boa Vista e Medellín. O que esses casos têm em comum e quais aprendizados poderiam ser replicados em outras cidades brasileiras?
Primeiro, a prefeitura precisa assumir esse papel, porque é responsabilidade da gestão pública pensar em uma infraestrutura urbana que acolha a todos. E ela tem uma capacidade importante de escala: pode começar com um projeto-piloto, entender se funciona e depois ampliar para outras áreas da cidade.
Outro ponto em comum é a intersetorialidade. Quando falamos de infância, pensamos imediatamente em Educação e Saúde, que são fundamentais, mas precisamos também envolver Transporte, Mobilidade, Assistência Social, Cultura e Esporte. É preciso que diferentes áreas entendam que a criança é prioridade e incorporem essa perspectiva às suas decisões. Isso passa também pela capacitação dos funcionários públicos que estão em contato direto com a população, como agentes de trânsito e motoristas de ônibus.
Também é fundamental ouvir quem vive naquele território. Não adianta a prefeitura chegar com uma intervenção pronta sem escutar a população, porque são os moradores que sabem onde está o problema, qual praça está abandonada ou qual calçada precisa de manutenção. E precisamos ouvir também as crianças.
Isso aconteceu de uma maneira muito interessante no Recife, com o programa Mais Vida nos Morros. As intervenções partiram da escuta das comunidades e das próprias crianças. Elas disseram que queriam corrimão, casas coloridas, determinados elementos nos espaços públicos e que uma quadra abandonada voltasse a funcionar. É preciso chegar ao território respeitosamente e ouvir o que as pessoas têm a dizer. Elas sabem do que precisam.
As parcerias com organizações, fundações e sociedade civil também são muito importantes, porque existem instituições e profissionais especializados em olhar para a cidade a partir da perspectiva da infância.
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Qual é a importância de escutar as próprias crianças e como fazer isso?
As crianças têm seus próprios desejos e precisamos ouvi-las. Primeiro, porque isso é uma lei. A Constituição já garante isso. Quando vamos criar um parquinho, por exemplo, não pode ser apenas o adulto dizendo: “Vou colocar aqui um gira-gira, um trepa-trepa e um escorregador. Pronto, é um parquinho”. Não pode ser um espaço definido exclusivamente por um adulto porque é o padrão, porque é de praxe ou porque sempre foi assim. Precisamos ouvir o que as crianças querem.
E como ouvi-las? Temos técnicas, metodologias e pessoas que sabem fazer isso. Temos líderes e professores. É preciso criar um ambiente de troca respeitosa e de escuta para realmente saber o que elas querem. Jundiaí, por exemplo, realiza uma série de encontros e tem um Comitê das Crianças, muito inspirado em Francesco Tonucci. Portanto, temos metodologia. O que ainda temos hoje, assim como o carrocentrismo, é um adultocentrismo: a cidade também está muito mais pensada e planejada para os adultos.
expresso.arq com informações de Laura Raffs


