Como a fiação subterrânea melhora a segurança elétrica e a arborização urbana

Em dias de vento e chuva, árvores e fiação elétrica parecem competir por espaço. A queda de galhos pode provocar interrupções no fornecimento de energia e até apagões que duram dias. Uma alternativa para reduzir a exposição da rede aos impactos das tempestades é o enterramento da fiação. Além de diminuir o risco de contato entre árvores e cabos, a solução contribui para uma paisagem urbana mais limpa e facilita a convivência entre a infraestrutura elétrica e a arborização.

A medida já é adotada por algumas cidades brasileiras, porém a porcentagem ainda é pequena. Apenas 0,4% da rede de distribuição de energia elétrica do Brasil é subterrânea. Em agosto de 2026, a diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) abriu uma consulta pública para discutir a adoção de redes subterrâneas em todo o país.

O debate ganhou força após eventos recentes de falta de energia em São Paulo. No apagão provocado pelos fortes ventos de dezembro de 2025, cerca de 4,4 milhões de clientes foram afetados, segundo dados posteriormente enviados pela Enel à ANEEL. O número considera o total acumulado de unidades consumidoras que tiveram o fornecimento interrompido ao longo do dia, e não apenas o pico de consumidores simultaneamente sem energia.

Segundo relatório de Análise de Impacto Regulatório (AIR) elaborado pela ANEEL, as redes subterrâneas apresentam vantagens como a redução da frequência e da duração das interrupções no fornecimento de energia.

“O subterrâneo fica protegido de chuvas, ventos e acidentes. Uma simples ventania já pode causar um curto na rede aérea”, pontua Edval Debolne, professor do curso de engenharia elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia.

Sem a presença de fiação aérea, o planejamento da arborização urbana ganha mais liberdade, permitindo a escolha de espécies de maior porte e o crescimento das copas sem interferência na rede elétrica — Foto: Pexels/FENG HE/Creative Commons
Sem a presença de fiação aérea, o planejamento da arborização urbana ganha mais liberdade, permitindo a escolha de espécies de maior porte e o crescimento das copas sem interferência na rede elétrica — Foto: Pexels/FENG HE/Creative Commons

Como funciona a rede subterrânea

Enquanto a rede aérea utiliza postes e cabos expostos, a rede subterrânea é formada por cabos elétricos instalados abaixo do solo, geralmente por meio de dutos ou galerias subterrâneas. A estrutura também precisa prever acesso para inspeções, reparos e manutenção.

A instalação é um dos desafios para a adoção dessa modalidade. “A obra demora, e o trânsito é afetado, mas esse impacto fica restrito ao período da obra. Ainda, é preciso ter cuidado com enchentes e instalar sistemas de drenagem. Quando a obra é bem executada e não há inundação, a manutenção fica mais fácil, porque é possível entrar na estrutura e fazer os reparos”, esclarece Edval.

Apesar da dificuldade inicial de instalação, o maior desafio, para os especialistas, é o financeiro. Segundo os profissionais consultados, a instalação de uma rede subterrânea pode custar entre quatro e dez vezes mais do que uma rede aérea convencional, dependendo das características do projeto.

A instalação da fiação subterrânea pode exigir a interdição temporária das ruas para a abertura de valas e a instalação de dutos e galerias que abrigam os cabos elétricos — Foto: Pexels/Sergei Starostin/Creative Commons
A instalação da fiação subterrânea pode exigir a interdição temporária das ruas para a abertura de valas e a instalação de dutos e galerias que abrigam os cabos elétricos — Foto: Pexels/Sergei Starostin/Creative Commons

A obra é realizada pela concessionária de energia, mas seu custo pode ser incorporado às tarifas pagas pelos consumidores.

Mesmo com os desafios, o enterramento dos fios pode contribuir para reduzir interrupções e acidentes relacionados à exposição da rede elétrica.

“Os benefícios do aterramento estão na prevenção de acidentes, resiliência da infraestrutura elétrica nos eventos climáticos cada vez mais extremos, manutenção da arborização urbana e limpeza visual do cenário urbano”, diz o arquiteto e urbanista Matheus Vasconcelos, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Além da falta de energia, Edval chama atenção para o risco de fios que caem após tempestades e podem provocar choques elétricos e acidentes graves.

Com a fiação subterrânea, as árvores podem crescer com copas plenas e frondosas, resultando em cidades mais sombreadas e com melhor conforto térmico — Foto: Magnific/Creative Commons
Com a fiação subterrânea, as árvores podem crescer com copas plenas e frondosas, resultando em cidades mais sombreadas e com melhor conforto térmico — Foto: Magnific/Creative Commons

Com a rede subterrânea, os cabos deixam de ficar expostos à queda de galhos e árvores e são retirados do espaço de circulação das pessoas, reduzindo determinados riscos de acidentes.

“É mais caro instalar uma rede subterrânea, mas, quando acontecem vários dias de apagão, o prejuízo é muito maior”, reflete Edval.

Mudança de modelo impacta na arborização

Outro benefício da fiação subterrânea é a melhora da urbanização da cidade. Com os fios aéreos, a escolha das espécies e o manejo das árvores precisam considerar a proximidade da rede elétrica. Em alguns casos, isso limita o porte das árvores ou exige

podas frequentes. Podas drásticas podem até mesmo prejudicar a saúde das árvores. “Quando se retira uma quantidade excessiva da copa, a árvore perde capacidade de realizar fotossíntese, pode ficar mais vulnerável a pragas e doenças e apresentar brotações desordenadas e estruturalmente mais frágeis”, explica o engenheiro agrônomo Eduardo Funari.

Para pedestres e ciclistas, a transição para a fiação subterrânea vai muito além da estética: ela redefine a usabilidade do espaço público, transformando a calçada e as vias em ambientes mais seguros, acessíveis e confortáveis — Foto: Magnific/Creative Commons
Para pedestres e ciclistas, a transição para a fiação subterrânea vai muito além da estética: ela redefine a usabilidade do espaço público, transformando a calçada e as vias em ambientes mais seguros, acessíveis e confortáveis — Foto: Magnific/Creative Commons

As podas de árvores em locais públicos devem ser realizadas pela prefeitura. Mas, quando estão em conflito com a rede elétrica, a concessionária pode participar da execução.

Com o enterramento dos fios, o tempo de poda pode ser reduzido e as copas das árvores ganham mais espaço para crescer. “Isso permite utilizar uma variedade maior de espécies, inclusive árvores de grande porte, que são importantes para proporcionar sombra, reduzir a temperatura, melhorar a qualidade do ar e contribuir para a biodiversidade urbana”, diz Eduardo.

Ainda assim, a arborização da cidade deve ser planejada, considerando o espaço para o crescimento das raízes, o tamanho das calçadas, a presença de outras redes subterrâneas e as características de cada espécie.

A fiação aérea ainda predomina no Brasil, enquanto a rede elétrica subterrânea representa apenas 0,4% da rede de distribuição de energia do país — Foto: Pexels/Sandro Tavares/Creative Commons
A fiação aérea ainda predomina no Brasil, enquanto a rede elétrica subterrânea representa apenas 0,4% da rede de distribuição de energia do país — Foto: Pexels/Sandro Tavares/Creative Commons

Casos de enterramento de fios no Brasil

Na área de concessão da Enel São Paulo, cerca de 6,9% da extensão da rede de distribuição é subterrânea. No Rio de Janeiro, o percentual é de cerca de 12,1% pela Light. Os dados são da Bases de Dados Geográficas da Distribuidora (BDGD).

Na capital paulista, algumas das regiões que possuem a modalidade são a Rua Oscar Freire, a Avenida Paulista e a Rua José Paulino. Já na capital fluminense, a rede subterrânea está presente principalmente em áreas centrais e bairros como Copacabana, Ipanema e Leblon.

Avenida Paulista, em São Paulo: um dos locais da cidade que conta com trechos de rede elétrica subterrânea — Foto: Pexels/Lucas Pezeta/Creative Commons
Avenida Paulista, em São Paulo: um dos locais da cidade que conta com trechos de rede elétrica subterrânea — Foto: Pexels/Lucas Pezeta/Creative Commons

Recentemente, mais uma capital divulgou um projeto para começar a instalar a fiação subterrânea: Curitiba, no Paraná. O investimento será entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão para aterrar inicialmente 120 quilômetros de fios. A mudança deve começar pelo Centro e áreas adjacentes.

Segundo a prefeitura, a previsão é de que o contrato seja assinado em novembro de 2026. A partir disso, ainda será realizada uma avaliação para então criar um cronograma de instalação.

A orla e as grandes vias de Copacabana, no Rio de Janeiro, já contam com rede elétrica majoritariamente subterrânea há décadas, implantada pela concessionária Light — Foto: Mario Roberto Duran Ortiz/Wikimedia Commons
A orla e as grandes vias de Copacabana, no Rio de Janeiro, já contam com rede elétrica majoritariamente subterrânea há décadas, implantada pela concessionária Light — Foto: Mario Roberto Duran Ortiz/Wikimedia Commons

“Curitiba será a primeira cidade do país a contratar estudos de viabilidade para estruturação de uma Parceria Público-Privada (PPP) nesta área. O projeto será um laboratório para a criação de um marco regulatório para o enterramento de fios no país”, analisa Vitor Puppi, secretário de Planejamento, Finanças e Orçamento de Curitiba. Segundo ele, o objetivo é reduzir riscos de acidentes, incêndios e furtos, proteger essas estruturas contra eventos climáticos, requalificar a paisagem e a acessibilidade urbana.

Curitiba, no Paraná, prevê o enterramento de 120 quilômetros de fiação elétrica como parte de um projeto de requalificação urbana — Foto: Pexels/Cláudio Emanuel/Creative Commons
Curitiba, no Paraná, prevê o enterramento de 120 quilômetros de fiação elétrica como parte de um projeto de requalificação urbana — Foto: Pexels/Cláudio Emanuel/Creative Commons

Uma das vias que deve receber a fiação subterrânea é a Avenida Visconde de Guarapuava. Para o local também é prevista a adoção de Soluções Baseadas na Natureza (SbN), que utilizam elementos e processos naturais para enfrentar desafios urbanos, como drenagem, calor e perda de biodiversidade. A medida é facilitada pela retirada dos fios aéreos.

“Com a ampliação da cobertura vegetal e das áreas permeáveis, além da adoção de estratégias para melhorar o conforto térmico, reduzir as ilhas de calor e favorecer a drenagem urbana, a cidade se torna mais resiliente diante de eventos climáticos extremos”, diz o secretário.

A transição da rede aérea para a fiação subterrânea na Avenida Visconde de Guarapuava é um dos grandes projetos de revitalização e modernização urbana da capital paranaense — Foto: Needpix.com/Creative Commons
A transição da rede aérea para a fiação subterrânea na Avenida Visconde de Guarapuava é um dos grandes projetos de revitalização e modernização urbana da capital paranaense — Foto: Needpix.com/Creative Commons

Planejamento a longo prazo

Mesmo com os benefícios, o enterramento ainda é um desafio no Brasil devido à necessidade de investimentos altos inicialmente.

Os especialistas acreditam que uma opção é fazer um planejamento a longo prazo de locais onde a fiação subterrânea deve ser instalada com prioridade. “É preciso expandir para lugares com bastante densidade de restaurantes, escolas, faculdades, hospitais e comércio”, aponta Edval.

A sugestão do especialista é identificar as áreas prioritárias e fazer um planejamento de longo prazo, em que, a cada ano, parte da fiação seja enterrada. Enquanto a fiação subterrânea não se torna majoritária, é importante pensar em um plano de arborização que considere a proximidade entre árvores e fiação, escolhendo espécies e formatos de poda que garantam sombra sem interferir na rede elétrica.

A eliminação da poluição visual limpa os horizontes urbanos, destacando a arquitetura local, o patrimônio histórico, a natureza e valorizando os imóveis da região — Foto: Magnific/Creative Commons
A eliminação da poluição visual limpa os horizontes urbanos, destacando a arquitetura local, o patrimônio histórico, a natureza e valorizando os imóveis da região — Foto: Magnific/Creative Commons

Outra adoção a curto prazo é o uso de redes compactas. Nelas, os condutores ficam reunidos em uma única estrutura, separados por espaçadores, em vez de permanecerem distribuídos horizontalmente nos postes. Os condutores possuem cobertura protetora, o que reduz a probabilidade de curtos-circuitos provocados pelo contato eventual com galhos, embora não elimine o risco elétrico nem dispense o manejo da vegetação.

Religadores e outros equipamentos de automação podem interromper o circuito, isolar trechos defeituosos e restabelecer mais rapidamente o fornecimento em falhas temporárias. Se uma árvore cair sobre a rede, no entanto, ainda pode haver danos e interrupções que necessitem de manutenções mais demoradas.

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