Desejo de envelhecer entre amigos inspira experimento de moradia em São Paulo

Por fora, você vê um edifício de arquitetura contemporânea, integrado à paisagem da Zona Oeste paulistana. Do lado de dentro, porém, o Jabuticaba é diferente de um condomínio convencional: os moradores compartilham múltiplas afinidades e compõem um grupo movido pelo desejo de conviver e colaborar.

A origem do empreendimento não está ligada a modismos do mercado imobiliário nem a decisões questionáveis do Plano Diretor da cidade. O prédio nasceu de um anseio legítimo por autonomia e vida social ativa, não importa em que idade, e reflete novas demandas trazidas por uma sociedade em transição demográfica. Segundo dados do IBGE, o número de brasileiros acima de 60 anos cresceu 58,7% num intervalo de 13 anos e chegou a 35,2 milhões de habitantes em 2025. Em todo o mundo, a Organização Mundial da Saúde estima que a soma de indivíduos acima de 60 anos atinja 1,4 bilhão em 2030, um aumento de 55% em relação a 2015, quando foi feita a projeção. Ao mesmo tempo, as taxas de natalidade estão em queda e o percentual de população jovem diminui.

Acima, a fachada sem grades para a rua do Jabuticaba — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini

Acima, a fachada sem grades para a rua do Jabuticaba — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini

Era inevitável que essa transformação – uma das principais questões globais em curso – começasse a influenciar a forma como planejamos as cidades e as casas. “Uns dez anos atrás, minhas amigas e eu iniciamos uma conversa sobre encontrar um lugar para passarmos a velhice juntas”, diz a consultora Denise Damiani, idealizadora do Jabuticaba. Acostumada a traçar planos estratégicos para grandes empresas, ela foi amadurecendo a ideia e percebeu que a solução estava dentro de casa. Na época, seus filhos, os gêmeos Stefano Fiocca, arquiteto, e Leonardo Fiocca, engenheiro civil, já haviam fundado a incorporadora Amici e lançado um edifício, o Amora, planejado fora dos ditames do mercado imobiliário. Para atender à encomenda da mãe, eles teriam de adotar uma abordagem ainda mais personalizada. Desse modo, o “prédio das amigas”, como era chamado antes de ganhar um nome oficial, logo virou um projeto em família.Selecione suas newsletters

Respeito à vizinhança

O paisagismo do edifício, de Ricardo Cardim, adota somente espécies nativas e surge enquadrado pelo lounge externo do térreo, composto por namoradeiras Fusion, mesas de centro Marina e Spool e mesa lateral Wave, tudo da Tidelli — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini
O paisagismo do edifício, de Ricardo Cardim, adota somente espécies nativas e surge enquadrado pelo lounge externo do térreo, composto por namoradeiras Fusion, mesas de centro Marina e Spool e mesa lateral Wave, tudo da Tidelli — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini

Num domingo à tarde, em 2019, Denise, Stefano e Leonardo saíram de carro por São Paulo à procura de um terreno onde pudessem construir. Com o mapa do zoneamento da cidade em mãos, descobriram a Rua Pepiguari, localizada não muito longe da casa onde os irmãos cresceram, no Alto da Lapa. Um lugar com vista perene, na mesma altitude do espigão da Avenida Paulista. “Gostamos da região, que é tranquila, arborizada e perto de tudo”, afirma a consultora. Depois de conferir na prefeitura se era permitido subir um prédio no local, eles enviaram cartas aos moradores perguntando se alguém estaria interessado em vender sua casa. Três proprietários disseram sim na ocasião, o que fez surgir espaço suficiente para erguer o Jabuticaba.

Stefano Fiocca, arquiteto e sócio do irmão, Leonardo Fiocca, na Amici, e a mãe, Denise Damiani, idealizadora do Jabuticaba — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini
Stefano Fiocca, arquiteto e sócio do irmão, Leonardo Fiocca, na Amici, e a mãe, Denise Damiani, idealizadora do Jabuticaba — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini

Em paralelo, mãe e filhos definiam as premissas do projeto. Como o plano era formar uma comunidade de amigos, os espaços de convívio foram tratados com o máximo de atenção. “Queríamos que as áreas comuns do condomínio fossem usadas de verdade, e nos inspiramos em referências da hotelaria para que isso acontecesse”, explica Stefano. O acesso aos ambientes é fluido, sem necessidade de reserva, e cada um deles foi minuciosamente equipado a fim de evocar um clima de casa. Há toalhas macias nos vestiários e louça bonita para quem quiser receber convidados na cozinha gourmet. Na cobertura, metade do andar é ocupada por apartamentos, e o restante, por home office, bar e spa – assim todos conseguem aproveitar a melhor vista. Ninguém precisa ter quartos extras para acomodar hóspedes, pois o prédio dispõe de suítes mobiliadas com essa finalidade, como num hotel. Piscina aquecida e academia de ginástica não poderiam faltar. “Temos ainda uma cozinha fechada no térreo que serve um almoço coletivo delicioso às terças e quintas”, descreve Denise. É um dos poucos serviços oferecidos pelo Jabuticaba que não está incluído no valor do condomínio e precisa ser pago à parte.

O spa, na cobertura, exibe parede de cobogós On Fire e piso da linha Terralma, ambos da Portobello, mesas de apoio Atotô, do Studio Gallasso, na Boobam, e chaise Mesh, da Tidelli — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini
O spa, na cobertura, exibe parede de cobogós On Fire e piso da linha Terralma, ambos da Portobello, mesas de apoio Atotô, do Studio Gallasso, na Boobam, e chaise Mesh, da Tidelli — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini

Além da facilidade de uso, o projeto de interiores, desenvolvido pela arquiteta Anna Rossi, mulher de Stefano, também contribui para deixar as áreas comuns mais convidativas. Em vez do visual neutro que costuma dominar esse tipo de ambiente, ela apostou em estampas, cores e texturas. “Misturei maximalismo com brasilidade. O tecido que envelopa diversas paredes, meio psicodélico, mimetiza a casca da jabuticabeira, e o mobiliário é todo de design nacional. Esses elementos deram identidade forte ao edifício”, diz ela.

Desenhamos as áreas comuns pensando em tudo o que seria preciso para ter uma vida incrível ser sair do prédio

— Stefano Fiocca

Boca a boca

Com o projeto alinhavado, ficou mais fácil para Denise convencer as amigas a morar lá. Várias toparam, assim como os amigos e os conhecidos dos amigos. Os apartamentos do Jabuticaba foram todos vendidos por indicação – não houve estande, corretor ou decorado. “Criamos um modelo sob medida, diferente do que o mercado oferece. Quem compra precisa primeiro conversar com a gente para entender”, revela Denise. Os imóveis são entregues customizados, com as adaptações de planta e os acabamentos que o morador escolher. Um time de arquitetos da Amici, coordenado por Stefano, fica responsável pelos projetos individuais. “Isso, claro, tem um preço. Mas é muito melhor do que receber o imóvel na massa cinza ou com revestimentos de que você não gosta e ter que bancar uma reforma antes da mudança”, prossegue a consultora.

Da esq. para a dir., Anna Rossi, Bruna Arruda e Júlia Mugayar, da equipe de interiores, no bar da cobertura — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini
Da esq. para a dir., Anna Rossi, Bruna Arruda e Júlia Mugayar, da equipe de interiores, no bar da cobertura — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini

No edifício, as 33 unidades iniciais, entre 60 m² e 400 m², se transformaram em 29 porque alguns compradores pediram a junção de dois apartamentos. Entre eles, está a médica radiologista Luciana Dias, que se mudou há nove meses com o marido e o filho. “Personalizamos toda a planta. Integramos a sala principal com a cozinha e a varanda, fizemos um escritório incrível e meu filho ganhou um quarto mais amplo”, descreve ela. “Ficou exatamente como imaginávamos.” A diversidade de metragens e possibilidades de adequação atraíram um público de idades distintas e, desse modo, o Jabuticaba se tornou um ambiente multigeracional. “Miramos no perfil acima dos 50 anos e acabamos com uma composição mais equilibrada, com vários moradores na faixa dos 30 anos”, fala Denise.

O projeto de interiores foi guiado pela brasilidade e traz inspirações da natureza

— Anna Rossi

Relações saudáveis

Desde que a construção ficou pronta e os primeiros proprietários se instalaram, em abril de 2025, a fórmula de convívio do Jabuticaba mostra que deu certo. Denise relata que desconhecidos se tornaram amigos, os almoços no térreo viraram um evento concorrido e já houve ao menos uma grande festa: a celebração de 80 anos de uma senhora que ainda nem se mudou, mas quis receber seus 150 convidados, com música e dança, no salão do prédio. As comodidades do condomínio, de acordo com a moradora Luciana, facilitam a vida de verdade. “Hoje me divirto mais, me cuido melhor e estou mais presente para minha família”, declara ela. Nas interações entre os residentes, transparece uma atmosfera de respeito e cuidado. “Planejamos cada detalhe de modo a favorecer o ambiente de colaboração. Num mundo tão dividido como o atual, cultivar relações saudáveis é fundamental”, diz Denise.

Na cozinha gourmet, cadeiras Daphne II, da Artefacto, com tecido Jacquard Foliage, da Donatelli, mesa Miss, da Lider, e pendente da Quarto Crescente – ao fundo, armário da Florense, com portas revestidas pelo Wu Atelier — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini
Na cozinha gourmet, cadeiras Daphne II, da Artefacto, com tecido Jacquard Foliage, da Donatelli, mesa Miss, da Lider, e pendente da Quarto Crescente – ao fundo, armário da Florense, com portas revestidas pelo Wu Atelier — Foto: Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini

O bom é que a história não termina por aqui: a consultora e os dois filhos compraram outros terrenos na Pepiguari e pretendem desenvolver no local uma microrregião, composta por prédios baixos, numa escala mais humana, com áreas de respiro entre eles, calçadas largas, praças e muita vegetação – uma forma de estender o espírito comunitário para a rua. “Esse projeto para o bairro representa nossa visão de como é possível viver melhor em São Paulo”, acredita ela. Chamado Cacau, o próximo empreendimento está a caminho. E, embora o Jabuticaba tenha acolhido um público mais jovem do que o previsto inicialmente, a ideia de desenhar espaços para a longevidade, estimular a convivência e propiciar um ecossistema de apoio permanece. Com sorte, todos envelheceremos um dia.

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