A curiosa história das sacadas no Brasil: o elemento colonial que mudou as fachadas das cidades
Construções geminadas implantadas em lotes estreitos, fachadas alinhadas às ruas e o uso de materiais como madeira, pedra, adobe, taipa de mão, telhas cerâmicas e ladrilhos hidráulicos estão entre as marcas mais reconhecíveis das cidades coloniais brasileiras. Em lugares como Ouro Preto, em Minas Gerais, e Olinda, em Pernambuco, outro elemento chama a atenção: as sacadas com gradis de ferro.
Hoje vistas como detalhes ornamentais, elas carregam uma história que ajuda a compreender as transformações urbanas e sociais do Brasil entre os séculos XVIII e XIX. Antes de se tornarem símbolos de elegância e prestígio, as fachadas das casas coloniais eram marcadas por estruturas de madeira que protegiam a intimidade dos moradores e limitavam a visibilidade entre o interior da residência e a rua.
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Antes da chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, era comum que as janelas das residências fossem fechadas por treliças de madeira que permitiam observar o exterior sem se expor ao olhar público. Entre elas, destacavam-se as urupemas, estruturas trançadas feitas de madeira ou fibras vegetais instaladas nos vãos das janelas.
“O termo deriva do tupi urupema, que significa uma espécie de peneira ou trama. Sua principal função era permitir que os moradores vissem o movimento das ruas sem serem vistos por quem estava do lado de fora”, explica Ana Paula Campos Gurgel, arquiteta, urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB).
Além de garantir privacidade, as urupemas favoreciam a ventilação e a entrada de luz natural, características fundamentais em um clima tropical.
A solução reflete uma sociedade em que a separação entre os espaços público e privado era muito mais rígida do que hoje, especialmente para as mulheres das famílias mais abastadas. Nesse contexto, a casa era compreendida como espaço de recolhimento, e a urupema funcionava também como instrumento de controle da visibilidade.
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Ao lado delas existiam outros sistemas de fechamento bastante difundidos na arquitetura colonial.
As gelosias eram compostas por lâminas inclinadas de madeira que permitiam a circulação do ar e a entrada controlada da luz, preservando a privacidade dos moradores. O termo deriva do francês jalousie e do inglês jealous, ambos relacionados à ideia de ciúme e vigilância doméstica.
Já os muxarabis, de origem islâmica e difundidos na Península Ibérica durante a ocupação mourisca, chegaram ao Brasil pelas mãos dos portugueses. Formados por desenhos geométricos vazados, permitiam enxergar o exterior sem serem vistos, além de proteger os interiores da incidência direta do sol.
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“As janelas coloniais também podiam apresentar rótulas, painéis móveis de madeira com pequenas aberturas ou treliçados que se movimentavam por sistemas giratórios, funcionando como uma solução intermediária entre a janela aberta e o fechamento completo”, acrescenta Ana Paula.
Todos esses elementos revelam uma arquitetura voltada ao controle da luz, da ventilação e, sobretudo, da relação entre a vida doméstica e a cidade.
A transição das treliças para os gradis de ferro
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A transformação começou ainda no século XVIII. Em 1769, o vice-rei Marquês de Lavradio iniciou uma série de reformas urbanas no Rio de Janeiro com o objetivo de aproximar a cidade dos ideais iluministas europeus. Entre as medidas adotadas estava a proibição das urupemas nas fachadas.
Por permitirem que os moradores observassem a rua sem serem identificados, essas estruturas passaram a ser associadas a hábitos considerados ultrapassados e incompatíveis com a imagem de modernidade que a Coroa pretendia construir.Selecione suas newsletters
“As urupemas eram vistas pela administração colonial como um problema de ordem pública. Como quem estava na rua não conseguia ver quem estava atrás da treliça, elas eram consideradas esconderijos perfeitos para crimes, tramas políticas e encontros clandestinos. Ao proibir esses elementos, as autoridades impunham maior transparência às fachadas e facilitavam a vigilância sobre os cidadãos”, afirma Sílvia Aline Rodrigues, arquiteta e historiadora especializada em patrimônio cultural.
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A mudança não era apenas estética. Tratava-se também de uma estratégia de controle social.
“A eliminação desses elementos possuía um sentido de vigilância. Ao reduzir os recursos que ocultavam os habitantes atrás das fachadas, o poder colonial buscava tornar o espaço urbano mais visível, ordenado e sujeito ao controle”, complementa Ana Paula.
O processo foi intensificado com a chegada da Corte portuguesa ao Brasil, em 1808. A presença da família real e da nobreza acelerou os projetos de modernização das cidades, especialmente do Rio de Janeiro. No ano seguinte, um decreto determinou a retirada das gelosias e dos muxarabis remanescentes. Os proprietários tinham oito dias para iniciar a remoção dos elementos e até seis meses para substituí-los por balcões e gradis de ferro inspirados na arquitetura europeia.
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Quando a fachada virou símbolo de status
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A adoção do ferro não foi casual. Durante o século XIX, o material tornou-se um dos principais símbolos da modernidade industrial. Inicialmente importado da Europa, sobretudo da Inglaterra, passou a ser incorporado às construções urbanas como demonstração de refinamento técnico e prosperidade econômica.
“O ferro era o material do século XIX, o grande símbolo da Revolução Industrial. Além da resistência, permitia criar desenhos elaborados, curvas, ornamentos florais e composições geométricas que a madeira dificilmente alcançava. Ter ferro na fachada virou sinônimo de progresso”, explica Sílvia.
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Os gradis transformaram completamente a aparência das cidades coloniais. Mais do que elementos decorativos, criavam um espaço intermediário entre a casa e a rua. “Do ponto de vista funcional, as sacadas favoreciam a ventilação e a iluminação dos ambientes internos, além de estabelecer uma relação mais direta entre a residência e a vida urbana”, afirma Ana Paula.
Das sacadas, era possível acompanhar procissões, celebrações religiosas, cortejos e o cotidiano das cidades sem sair de casa. Mas seu significado mais importante era simbólico. Se as antigas treliças representavam uma sociedade voltada ao recolhimento e à discrição, as sacadas de ferro passaram a expressar visibilidade, distinção social e prestígio. A fachada deixou de esconder seus moradores para exibi-los.
Enquanto as residências mais modestas continuavam marcadas por janelas simples, os sobrados pertencentes às famílias mais ricas passaram a ostentar portas-janelas, balcões e gradis ornamentados. A arquitetura tornou-se uma forma de representação pública da posição social de seus proprietários.
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Mais de dois séculos depois, essas sacadas permanecem como uma das marcas mais emblemáticas das cidades históricas brasileiras. Por trás dos desenhos delicados em ferro fundido, elas contam uma história sobre vigilância, poder, modernização urbana e as transformações dos modos de habitar o Brasil.
epresso.arq com informações de Adriana Marruffo


