Edifício Esther: tudo sobre o icônico projeto modernista na capital paulista

Edifício Esther, localizado na praça da República, no centro de São Paulo, é um dos marcos da arquitetura moderna no Brasil. Projetado pela dupla de arquitetos cariocas Álvaro Vital Brazil (1909–1997) e Adhemar Marinho (1911–2000) em 1936, ele só foi concluído dois anos depois.

“Primeiro exemplo de verticalização na praça da República, o edifício Esther, erguido defronte à praça, na esquina com a rua 7 de Abril, foi pioneiro da arquitetura do movimento moderno em São Paulo e seu primeiro exemplar de impacto na escala urbana”, conta o arquiteto Roberto Novelli Fialho, em sua tese de doutorado Edifícios de Escritórios na Cidade de São Paulo.

O prédio foi fruto de um concurso patrocinado por Paulo de Almeida Nogueira, superintendente e sócio da Usina Açucareira Esther, de Cosmópolis, no interior paulista. A ideia do empresário era construir uma torre de uso misto, comercial e residencial, que pudesse abrigar a sede da sua companhia.

O edifício Esther possui vizinhos famosos, com o edifício São Thomaz e o edifício Itália, ambos à direita — Foto: Vincent Bevins/Wikimedia Commons
O edifício Esther possui vizinhos famosos, com o edifício São Thomaz e o edifício Itália, ambos à direita — Foto: Vincent Bevins/Wikimedia Commons

“Interessado em se equiparar aos proprietários dos nascentes conglomerados empresariais da São Paulo das primeiras décadas do século 20, que tinham suas sedes como marcos importantes do processo de consolidação da industrialização, Paulo de Almeida Nogueira esperava demarcar a posição de prestígio que vinha sendo perseguida por sua família, já há três décadas, na economia paulista”, relata o arquiteto Fernando Atique no artigo Ensinando a morar: o Edifício Esther e os embates pela habitação vertical em São Paulo (1930-1962).

Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, “os financiadores aspiram a uma construção que, além de abrigar os escritórios da Usina Esther, deveria contar com lojas comerciais, escritórios, consultórios e residências variadas, cujos aluguéis garantiriam a renda necessária à sustentabilidade do investimento”.

Arquitetura do edifício Esther

Devido às características do terreno, o empreendimento foi dividido em dois prédios: o Esther e o Arthur Nogueira. “O de uso múltiplo é inserido em uma cabeça de quadra modificada pela adição de uma rua, criando um microquarteirão de aproximadamente 45m x 30m, que contém o edifício isolado. O Arthur Nogueira, ou Estherzinha, erigido no mesmo lote primitivo e separado pela rua projetada, contém os serviços de apoio para esse edifício”, descreve a arquiteta Fernanda Jung Drebes, em sua tese de mestrado O Edifício de Apartamentos e a Arquitetura Moderna.

O edifício Esther à época de seu inauguração, no final da década de 1930 — Foto: Revista Acrópole/Leon Liberman/Divulgação
O edifício Esther à época de seu inauguração, no final da década de 1930 — Foto: Revista Acrópole/Leon Liberman/Divulgação

O lote foi dividido por uma rua interna (atual rua Gabus Mendes), unindo a rua 7 de Abril à rua Basílio da Gama, o que permitiu que os dois edifícios ganhassem mais iluminação e ventilação.

“Em primeiro lugar, procuramos ‘ordenar’, tornando um terreno irregularíssimo em quase perfeito retângulo. Em seguida, demo-lhes o máximo de luz e sol, cercando-o de ruas”, contam os arquitetos em matéria publicada na revista Acrópole, em maio de 1938.

O Esther foi idealizado com 10 andares, o máximo permitido na primeira fase de verticalização da praça da República, na década de 1930. Sua arquitetura segue os preceitos do racionalismo e do funcionalismo da escola alemã Bauhaus e do arquiteto francês Le Corbusier, como uso racional dos materiais, métodos econômicos de construção, linguagem formal sem ornamentos e o diálogo com as novas tecnologias industriais da época.

Isso fica bastante evidente na análise sobre o projeto feita por Vital Brazil e Adhemar Marinho na Acrópole. “Do estudo detalhado de cada plano e da estrutura resultante, aflorou naturalmente a elevação ou fachada. Portanto, não partimos de fora para dentro, como muitas vezes são concebidos os projetos, por motivos muito conhecidos, tais como os classicismos, ou pior, os neoclassicismos, mas sim de dentro para fora, pois é lei do bom senso que, de uma maneira geral, todo e qualquer objeto deve cumprir determinadas funções intrínsecas”, explicam. “Não tivemos tão pouco a preocupação de decorar ou enfeitar, e, se decoramos, foi o resultado do ‘construir'”, concluem.

Hall de entrada do edifício Esther, em São Paulo, com suas colunas modernistas — Foto: Revista Acrópole/Leon Liberman/Divulgação
Hall de entrada do edifício Esther, em São Paulo, com suas colunas modernistas — Foto: Revista Acrópole/Leon Liberman/Divulgação

Os pontos centrais da arquitetura modernista aplicados foram: pilotis, planta livre, janela corrida, fachada livre e terraço-jardim.

“O Esther usou os princípios racionalistas, como o emprego da planta livre, da estrutura independente das paredes, das colunas de secção circular, escadas dispostas em volume cilíndrico envidraçado, teto-jardim, janelas horizontais de desenho preciso e execução difícil e o pavimento térreo sobre pilotis que, apesar de não estar liberado do solo, mantém uma extensa galeria, que permite acesso ao prédio por três ruas”, escreve Roberto.

Conforme indica a tese de Roberto, foi o primeiro edifício comercial no país com estrutura de concreto armado que permitia uma planta livre, sem paredes fixas, graças à “independência entre a estrutura e os planos de vedação”.

Grandes salões, que abrangiam o comprimento total do edifício – 40 metros –, podiam ser alugados em um ou mais módulos, permitindo a criação de diferentes tipos de espaço. Eles abrangiam o segundo e terceiro pavimentos e tinham apenas um núcleo de banheiros por andar.

Interior de um dos apartamentos do edifício Esther, que possuíam diversas tipologias — Foto: Revista Acrópole/Leon Liberman/Divulgação
Interior de um dos apartamentos do edifício Esther, que possuíam diversas tipologias — Foto: Revista Acrópole/Leon Liberman/Divulgação

A circulação no térreo segue o mesmo sentido dos andares, de acordo com Roberto. “O edifício apresenta estrutura com lajes, vigas e pilares em concreto armado, com os pilares em chapa de aço, preenchidos com concreto, solução adotada para evitar a necessidades de preenchimento dos mesmos”, aponta.

A partir do quarto andar estavam dispostos os apartamentos residenciais. O nono pavimento apresenta o acesso às quatro unidades dúplex e outras unidades menores.

“A cobertura do edifício, com dois apartamentos, apresenta terraços. O térreo é semi fechado com função comercial e saguão de grandes dimensões, que atende tanto às unidades residenciais como às comerciais. O subsolo – que desenvolve-se também sob a rua criada – contém espaço para garagem e uma ampla área com restaurante”, detalha Fernanda.

Entrada modernista do edifício Esther, na região central da capital paulista — Foto: Revista Acrópole/Leon Liberman/Divulgação
Entrada modernista do edifício Esther, na região central da capital paulista — Foto: Revista Acrópole/Leon Liberman/Divulgação

A fachada é marcada por frisos horizontais – originalmente em feitos de vitrolite preto, material escolhido, segundo os arquitetos do projeto, pelo “critério ‘economia’, tendo-se em vista a ‘durabilidade'”. As diferenças entre os andares podem ser percebidas pelas janelas de diferentes tipos e formatos, varandas e terraços que marcam o edifício.

“As janelas corridas (fenêtre en longueur) se apresentam constantes nos três primeiros pisos, onde foram previstos os salões flexíveis de escritórios; nos andares superiores, onde estão os apartamentos, as janelas são interrompidas, demarcando as sacadas e os espaços de quartos e salas com vedações em alvenaria e caixilhos diferenciados”, destaca Fernando.

Do auge ao abandono

Mais do que um marco arquitetônico, o Esther se transformou em ícone do modernismo e pólo cultural da época por conta de alguns de seus ilustres moradores e frequentadores. “O edifício refletiu, por vezes, um ideal de transformação e de modernidade, apregoado por personagens de destaque da sociedade que foram moradores ou inquilinos do prédio”, relata Fernando.

Segundo o pesquisador, o arquiteto Rino Levi foi morador do apartamento 901, entre os anos 1941 e 1944, e manteve seu escritório no primeiro pavimento. O casal de artistas Emiliano Di Cavalcanti e Noêmia Mourão viveram em um dos dúplex do Esther, modelo de imóvel que chegava pela primeira vez em São Paulo.

O edifício Esther é um marco da arquitetura moderna no Brasil e é considerado um dos mais importantes prédios de São Paulo — Foto: Francisco Baraglia/Wikimedia Commons
O edifício Esther é um marco da arquitetura moderna no Brasil e é considerado um dos mais importantes prédios de São Paulo — Foto: Francisco Baraglia/Wikimedia Commons

“Aliás, o referido casal foi extremamente importante para a divulgação do edifício Esther no cenário social paulista, quiçá, nacional, ao promover recepções constantes em seu apartamento”, aponta o arquiteto em sua tese.

No local também viveu o jornalista Oswaldo Chateaubriand, diretor do Diário da Noite, propriedade do também jornalista Assis Chateaubriand. “Os irmãos Oswaldo e Assis foram frequentadores assíduos do edifício Esther, na década de 1940, como se lembra o antigo zelador Oliveira, exatamente porque a sede dos Diários Associados – grupo proprietário do Diário da Noite e do Diário de São Paulo – ficava na 7 de Abril, a uma quadra do Esther”, conta o pesquisador.

A partir de 1941, o endereço ganha ainda mais relevância ao sediar a seção paulista do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e o Clube dos Artistas e Amigos da Arte, conhecido como “Clubinho”. Em 1967, a TV Cultura de São Paulo teve suas primeiras reuniões nos escritórios da Usina Esther.

Apesar de sua importância na história para a arquitetura brasileira, e para a cidade de São Paulo no desenvolvimento do chamado “Centro Novo”, o projeto sofreu, ao longo dos anos, um grande processo de descaracterização e deterioração e encontra-se, de acordo com Fernando, “ausente de alguns conhecidos manuais de arquitetura nacionais”.

Detalhes da fachada do edifício Esther, que contempla lojas, escritórios e apartamentos de diversos tipos — Foto: Jcornelius/Creative Commons
Detalhes da fachada do edifício Esther, que contempla lojas, escritórios e apartamentos de diversos tipos — Foto: Jcornelius/Creative Commons

Esse abandono do Esther se, deve, em parte pelo progressivo processo de esvaziamento do Centro Velho e Novo da capital, a partir da década de 1960, como região de negócios da cidade. Ao mesmo tempo, a Usina Esther passa por dificuldades financeiras e começa a transferir seus escritórios para Cosmópolis.

“A fim de concentrar investimentos na expansão da indústria açucareira, a família Nogueira resolveu cortar todos os gastos com a manutenção do prédio, sobretudo com a manutenção de sua complexa estrutura de funcionamento”, declara Fernando.

Para gerar capital, a empresa iniciou a venda do edifício Esther, que aconteceu entre as décadas de 1960 e 1970, levando à extinção da Sociedade Predial Esther, gestora do prédio desde 1942. “Foi sua interessante atividade de gestora que, de certa forma, ensinou São Paulo a ‘morar em altura’. Paradoxalmente, foi seu desmonte que ajudou o aspecto e os espaços do Esther a se descaracterizarem”, analisa o arquiteto.

O edifício Esther se destaca na região ao redor da Praça da República, no centro de São Paulo — Foto: Flickr/Lu/Creative Commons
O edifício Esther se destaca na região ao redor da Praça da República, no centro de São Paulo — Foto: Flickr/Lu/Creative Commons

Os inquilinos tiveram, então, que assumir a gestão do prédio considerado de luxo à época, com cinco elevadores e altos custo de manutenção. “Assim, com a eliminação da Sociedade Predial Esther, os pesados encargos de gestão foram rateados entre todos os ocupantes da edificação e não mais concentrados nas mãos da família proprietária”, fala Fernando.

“Era o fim de um projeto de caráter modernizador iniciado em fins do século 19, que havia tido como corolário a construção do edifício Esther e do qual fazia parte a formação e atuação da Sociedade Predial Esther. Sua ação trouxe uma legião de prestigiados membros da elite social, econômica e cultural para dentro do prédio e contribuiu para a disseminação do programa de prédios de apartamentos pela cidade”, finaliza o arquiteto.

Após um período de decadência, o Esther foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT), em 1990, por sua relevância histórica e arquitetônica.

Desde 2016, o terraço abriga o restaurante Esther Rooftop, comandado pelo chef francês Benoit Mathurin. O espaço oferece almoço e jantar diariamente e conta ainda com salas reservadas para eventos, que revelam a paisagem paulistana e reforçam a importância arquitetônica e cultural do edifício.

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