É o fim do minimalismo? Entenda como fica a decoração da casa em 2026

A era do ‘branco sobre branco’ que dominou as redes sociais e as salas de estar brasileiras por mais de uma década está perdendo fôlego. O estilo minimalista teve seu auge nos anos de 2010 e tornou-se referência para a moda e a decoração em todo o mundo. Após o visual limpo e organizado perpetuado durante a pandemia, a tendência agora é abraçar a individualidade, o personalizável e o autêntico dentro de casa.

Em um momento de tensão global, marcado por guerras e reviravoltas políticas, a casa ganha áurea de refúgio: conforto, aconchego e contato são imprescindíveis. Em 2026, isso não muda: o lar, mais do que nunca, é entendido como um lugar de calma, mas também de identidade e memória.

A era do ‘branco sobre branco’ que dominou as redes sociais e as salas de estar brasileiras por mais de uma década está perdendo fôlego. O estilo minimalista teve seu auge nos anos de 2010 e tornou-se referência para a moda e a decoração em todo o mundo. Após o visual limpo e organizado perpetuado durante a pandemia, a tendência agora é abraçar a individualidade, o personalizável e o autêntico dentro de casa.

Em um momento de tensão global, marcado por guerras e reviravoltas políticas, a casa ganha áurea de refúgio: conforto, aconchego e contato são imprescindíveis. Em 2026, isso não muda: o lar, mais do que nunca, é entendido como um lugar de calma, mas também de identidade e memória

Na sala de TV, a estante é preenchida com cerâmicas colecionadas pelos moradores, adquiridas ao longo da vida e especialmente em viagens — Foto: Manuel Sá/Divulgação | Projeto do escritório BARRA Arquitetos
Na sala de TV, a estante é preenchida com cerâmicas colecionadas pelos moradores, adquiridas ao longo da vida e especialmente em viagens — Foto: Manuel Sá/Divulgação | Projeto do escritório BARRA Arquitetos

Mudança no minimalismo tradicional

A grande referência do estilo minimalista eram as casas escandinavas, facilmente replicáveis. A estética, considerada atemporal e um dos pilares do quiet luxury – conceito que prega a sofisticação através da sutileza e da ausência de excessos –, tem características simples: base neutra, com paleta de cores pautada em branco, bege e cinza, tons de madeiras e vasos de plantas pontuais.

Mas essa busca pela simplicidade importada começa a encontrar certa resistência em solo tropical. Apesar da mudança no consumo do estilo ser uma tendência mundial, ela acontece com mais intensidade no Brasil.

“Tem um momento em que a gente percebe que estava imitando algo que nunca foi nosso. Aquele minimalismo dos anos 2000 onde menos é mais, o espaço vazio é sinônimo de sofisticação, tudo isso foi importado e a gente abraçou sem questionar muito. Só que o Brasil sempre teve outra relação com os objetos, mais generosa, mais sensorial”, avalia Andrea Bisker, especialista em ciências do consumo e inteligência de mercado, fundadora da Spark:off, consultoria de inovação e análise de tendências.

O minimalismo deixou de ser uma escolha apenas visual para se tornar uma questão de consciência sobre a durabilidade e a origem do que colocamos dentro de casa. Cada vez mais, os consumidores buscam produtos funcionais e significativos, alinhados aos seus valores, produzidos localmente e com técnicas artesanais tradicionais.

Nova forma de consumo dos brasileiros

Com a valorização da identidade e da memória, o valor simbólico e a sustentabilidade tornam-se protagonistas e o interesse pelo artesanato continua a aumentar.

“O morar brasileiro é vivo, espontâneo, misturado. A gente usa a casa de forma flexível: mistura funções, aproxima interior e exterior, recebe amigos na cozinha, ocupa a varanda, transforma cantos em lugares de estar. Essa virada para ambientes mais afetivos e materiais mais naturais conversa com esse jeito de viver, menos engessado. É uma estética que aceita o tempo, o uso, as marcas da vida cotidiana, e isso tem tudo a ver com a nossa cultura”, reflete o arquiteto André Braz.

Atrás da poltrona Paraty, assinada por Sergio Rodrigues, na Dpot, está a coleção de obras de arte dos moradores que adicionam personalidade ao ambiente neutro, ao lado de fotos de Alair Gomes, Mauro Restiffe e Miguel Rio Branco — Foto: Maura Melo/Divulgação | Projeto do escritório Rodra Arquitetura
Atrás da poltrona Paraty, assinada por Sergio Rodrigues, na Dpot, está a coleção de obras de arte dos moradores que adicionam personalidade ao ambiente neutro, ao lado de fotos de Alair Gomes, Mauro Restiffe e Miguel Rio Branco — Foto: Maura Melo/Divulgação | Projeto do escritório Rodra Arquitetura

Como contraponto ao “luxo silencioso”, mencionado anteriormente, surge um movimento mais vibrante. No estudo de tendências da WGSN feito em parceria com a Dexco, Era da impermanência: O tempo e a relação com os ambientes, o loud luxury foi definido como uma macrotendência para os próximos anos.

A estética propõe um caminho inverso ao minimalismo escandinavo: deixar de lado o rigor visual e retornar ao design expressivo, alegre e altamente tátil. Segundo a pesquisa, este movimento marca o retorno do ousado, envolvente e emocionalmente impactante.

Ao todo, o levantamento contou com 1.125 entrevistados, entre homens e mulheres de 25 a 65 anos, pertencentes à classe AB e residentes em todas as regiões do Brasil: 60% dos entrevistados consideraram aumentar a sensação de conforto e bem-estar como a maior motivação para mudar a casa, e 61% valoriza móveis e decoração que demoraram tempo para serem feitos, artesanalmente, mesmo que custem mais.

A cozinha abriga a coleção de cuscuzeiras, muitas compradas à beira de estradas; a última (à esquerda) é da loja Kassuá. Acima do armário, a escultura Sereia, do artesão Mano de Baé, e a bananeira decorativa do Depósito Kariri. Na bancada, a escultura Rainha, comprada na Ilha do Ferro, AL, ao lado do filtro de barro do Mãos, movimento do Jequitinhonha. Prateleiras vermelhas da Selvvva. A porta verde, com tinta Grama Molhada, da Suvinil, foi pintada por Irina. Enfeite dourado da 4joias — Foto: Wesley Diego/Editora Globo | Decoração de Irina Cordeiro, com base arquitetônica assinada pelo escritório Iná Arquitetura
A cozinha abriga a coleção de cuscuzeiras, muitas compradas à beira de estradas; a última (à esquerda) é da loja Kassuá. Acima do armário, a escultura Sereia, do artesão Mano de Baé, e a bananeira decorativa do Depósito Kariri. Na bancada, a escultura Rainha, comprada na Ilha do Ferro, AL, ao lado do filtro de barro do Mãos, movimento do Jequitinhonha. Prateleiras vermelhas da Selvvva. A porta verde, com tinta Grama Molhada, da Suvinil, foi pintada por Irina. Enfeite dourado da 4joias — Foto: Wesley Diego/Editora Globo | Decoração de Irina Cordeiro, com base arquitetônica assinada pelo escritório Iná Arquitetura

O desejo pelo artesanal reflete uma reação ao excesso digital, onde o toque humano e a imperfeição se tornam diferenciais. Isso acontece porque a manualidade cria vínculos emocionais e reforça a percepção de qualidade e durabilidade.

Com esse movimento, o feito à mão nacional passa a explorar novos materiais e processos que carregam histórias e identidades estéticas que refletem tempo e região.

“O gatilho veio de fora e de dentro ao mesmo tempo. A Amazônia queimando, a seca chegando cada vez mais perto — ficou impossível tratar minimalismo só como estética. E, economicamente, a conta também não fechava mais: móvel de fastfurniture que dura dois anos sai mais caro no longo prazo do que uma peça bem feita que você passa para frente”, explica Andrea.

Na sala de jantar, a mesa tem cadeiras de diferentes formatos e estilos para compor um ambiente divertido e autoral — Foto: Evelyn Müller/Divulgação | Projeto do arquiteto André Braz
Na sala de jantar, a mesa tem cadeiras de diferentes formatos e estilos para compor um ambiente divertido e autoral — Foto: Evelyn Müller/Divulgação | Projeto do arquiteto André Braz

Na prática, isso significa que vamos encontrar mais sobreposições maximalistas, paletas de cores ricas e uma fusão de técnicas artesanais tradicionais com acabamentos modernos. É um desejo impulsionado pela necessidade de espaços que evoquem alegria, individualidade e uma sensação de conforto com toque humano, sem prescindir da sofisticação.

O espaço físico passa a ter um papel quase terapêutico. Se durante o dia estamos imersos em telas, estímulos rápidos e excesso de informação, a casa vira o oposto disso: o lugar do corpo, do toque, do silêncio e da presença. Texturas naturais, como madeira, pedra, tecidos mais encorpados, superfícies imperfeitas que envelhecem com o tempo, tudo isso ajuda a trazer a pessoa de volta para o sensorial. “A casa deixa de ser só cenário e passa a ser experiência”, conclui André.

Com base off-white, a suíte tem base neutra e aposta em texturas artesanais nos nichos e nas decorações, incluindo a rede e as cerâmicas — Foto: Manoel Sá/Divulgação | Produção: Deborah Apsan/Divulgação | Projeto de Vanessa Meyer
Com base off-white, a suíte tem base neutra e aposta em texturas artesanais nos nichos e nas decorações, incluindo a rede e as cerâmicas — Foto: Manoel Sá/Divulgação | Produção: Deborah Apsan/Divulgação | Projeto de Vanessa Meyer

Pinterest Predicts de 2026 também aponta uma tendência semelhante. Nele, o estilo Néo Deco é descrito como: “após anos de minimalismo, os millennials e a geração Z querem cores elegantes e metais menos óbvios, como o cobre. E aquele lustre vintage nada discreto? Não pode faltar!”.

Isso mostra que o consumidor procura contar uma história em sua casa, com peças mais sustentáveis, de longa duração e com identidade, que tenham motivo para compor aquele lar e, consequentemente, tragam personalidade e toques únicos aos ambientes.

No estilo Neo Déco, proposto pelo Pinterest, o art déco é repaginado com mármore, madeira e muito couro — Foto: Pinterest/Divulgação
No estilo Neo Déco, proposto pelo Pinterest, o art déco é repaginado com mármore, madeira e muito couro — Foto: Pinterest/Divulgação

O minimalismo não acabou, mas foi modificado. As bases neutras ainda são consideradas atemporais, mas já não são o suficiente para preencher o lar.

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