4 projetos residenciais com estratégias para acessibilidade na América Latina

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum tipo de deficiência, seja física ou intelectual, e 80% delas estão em países do Sul Global.

Embora tenha havido avanços na garantia dos direitos dessas pessoas, elas continuam enfrentando diversas barreiras e estão entre os grupos mais excluídos dos serviços essenciais da sociedade, como saúde, educação e emprego.

Nesse contexto, a arquitetura desempenha um papel crucial ao garantir a segurança e a autonomia espacial de todas as pessoas, assegurando sua participação plena e efetiva na sociedade.

Facilmente percebidas nas edificações públicas devido às inúmeras normativas e regras em vigor, as estratégias para acessibilidade raramente são aplicadas em projetos residenciais, mesmo com o aumento da população idosa e, consequentemente, o crescente número de edificações que deveriam considerar esse fator.

Na história da arquitetura contemporânea, um dos projetos residenciais mais famosos do gênero é a Maison Bordeaux, projetada por Rem Koolhaas em 1998.

O cliente, recém paralisado da cintura para baixo, encomendou uma casa espacialmente dinâmica afirmando que “ao contrário do que se esperaria, quero uma casa complexa porque ela definirá o meu mundo”.

Nela, embora não exista um sistema organizacional duplicado ou repetido, todos os três volumes são interligados por um elevador central que se move entre cada andar.

No entanto, não se trata apenas de um elevador para circulação entre níveis, mas sim, do escritório do cliente, que dá acesso a toda a casa.

AD Classics: Maison Bordeaux / OMA. © Hans Werlemann, courtesy OMA

Como exemplo de arquitetura residencial acessível, a Maison Bordeaux mostra ser possível aliar a acessibilidade a espaços inovadores e interessantes, trazendo alternativas projetuais para um campo pouco explorado na arquitetura que frequentemente considera a adição individual de elementos para acessibilidade apenas como um item a ser marcado e não como parte fundamental do projeto.

Diferentemente do contexto francês no qual a Maison Bordeaux está inserida, as casas selecionadas a seguir foram construídas sob o clima tropical, em localidades da América Latina que encaram diferentes dificuldades sociais e econômicas, sendo um dos exemplos especificamente construído com severas limitações orçamentárias.

No entanto, apesar das diferenças, elas compartilham a engenhosidade em abordar a acessibilidade como uma diretriz fundamental do projeto.

Por isso, independentemente das diferenças em relação às condicionantes de projeto, a ideia desse compilado é elucidar as inúmeras possibilidades arquitetônicas na criação de espaços acessíveis e, sobretudo, fomentar a discussão e inclusão desse campo também por meio de referências projetuais.

Continue lendo para conhecer mais sobre essas casas latino-americanas e suas estratégias de acessibilidade.

Casa Maria & José / Sergio Sampaio Archi + Tectônica

Casa Maria & José / Sergio Sampaio Archi + Tectônica. © André Scarpa

Situada na cidade de Itu, no Brasil, essa casa foi projetada para um casal de idosos com quatro filhos.

Sua principal demanda era criar uma moradia eminentemente térrea, devido a mobilidade reduzida de alguns membros da família, demandando a atenção para as normas de acessibilidade – rampa, elevador, barras de acessibilidade em banheiros, entre outros.

Com isso, o programa principal da casa – social, lazer, e áreas íntimas – foi distribuído em um único pavilhão que pousa sutilmente sob o terreno, sem tocar efetivamente o solo.

Casa Elache / Elmor Arquitetura

Residência Elache / Elmor Arquitetura. © Fernando Zequinão

A Casa Elache foi construída no sul do Brasil como uma adição acessível a uma edificação pré-existente.

Dessa forma, no programa solicitado pelos clientes, a acessibilidade sempre esteve no topo da lista de requisitos e todos os espaços, dimensionamentos, circulações e materiais foram pensados para atender todos os tipos de necessidades especiais, destacando-se os pavimentos livres de imperfeições e a organização espacial em ambientes amplos e sem desníveis.

Casa Martha / Naso

Casa Martha / Naso. © Maureen M. Evans

Essa casa está localizada no México, entre Malinalco, um sítio arqueológico e turístico, e Chalma, um dos centros de peregrinação mais importantes do país.

O projeto foi construído com auxílio de um programa governamental para reparação de danos causados pelo terremoto de 2017.

O núcleo familiar, formado pelos pais e seus dois filhos, conta com a mãe, uma senhora idosa que tem dificuldade em andar, enquanto o pai é cego.

Os dois filhos – na casa dos 40 – moram com eles.

A situação familiar e as condições dos seus membros foram o ponto de partida para o projeto, resultando em três ideias fundamentais: primeiro, gerar circulações acessíveis, eficientes e claras que permitam a independência dos idosos; segundo promover a interação e a convivência entre pais e filhos, respeitando a privacidade de cada um; e, finalmente, incluir espaços que abram possibilidades e promovam a economia compartilhada facilitando a geração de renda adicional para a família.

Casa Rampa / Coelho Neto Arquitetura

A última casa dessa seleção também está situada no Brasil e possui como eixo estrutural e compositivo uma generosa rampa a qual perpassa diferentes ambientes da residência.

A ideia inicial era criar uma casa térrea, resolvendo de forma mais simples a acessibilidade para todos os cômodos.

No entanto, com o estudo do terreno, percebeu-se a possibilidade de contemplar um imponente pôr do sol desde o alto.

A resposta projetual para aliar acessibilidade e o enquadramento da paisagem foi a criação da rampa que, além de permitir o deslocamento acessível, serve como elemento que interliga o setor íntimo e o social.

expresso.arq sobre artigo de Camilla Ghisleni

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