Crianças criam peças de mobiliário a partir de madeira descartada em Petrópolis
E se o design começasse pelas mãos de uma criança? Essa pergunta está no centro da exposição Philia Lab: First Steps of the Philia School (Philia Lab: Primeiros Passos da Escola Philia) , idealizada pela Galerie Philia, com filiais na Suíça, Estados Unidos, México e Singapura, em parceria com a ArtRio. Até 20 de outubro, 13 peças de mobiliário concebidas por crianças e adolescentes de 11 a 13 anos podem ser vistas na área externa do Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, no Rio de Janeiro.
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Antes de chegar à cidade litorânea, a proposta filantrópica Philia & Kids, que já teve duas edições na França, ganhou seu primeiro capítulo brasileiro no primeiro semestre de 2025. Idealizado por Ygaël Attali, curador, escritor e cofundador e diretor criativo da galeria de design e arte contemporânea, e pela designer brasileira Gisela Simas, o programa fluminense deu origem ao Philia Lab, desenvolvido em Petrópolis, também no estado do Rio de Janeiro.
“O município não foi escolhido como um local neutro para o qual poderíamos levar um programa pronto. É um território de extraordinária riqueza natural e de conhecimentos locais, mas também marcado por fragilidades sociais e ambientais que tornam especialmente significativas as questões de atenção, cuidado e transmissão”, explica Ygaël. A cidade é o ponto de partida para a futura Philia School, uma escola permanente dedicada à arte, ao artesanato e ao desenho de produto, cuja abordagem educacional parte da ideia de que se aprende por meio da prática.
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Escola de ofícios
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Atualmente, o projeto reúne 11 crianças e jovens selecionados localmente com a colaboração de uma escola pública e da organização não governamental (ONG) SOS Serra. Os pequenos trabalharam com madeira de árvores urbanas caídas, que seria destinada ao centro de resíduos verdes da Companhia Municipal de Desenvolvimento de Petrópolis (COMDEP). Em visitas pelo entorno, observaram estruturas naturais, formas e relações na paisagem. Suas percepções deram origem a desenhos que, pelas mãos de mestres artesãos locais, foram transformados em peças de mobiliário funcionais e escultóricas.
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As criações foram apresentadas ao público em uma primeira exposição, realizada no Palácio de Cristal, em Petrópolis, em maio de 2026, após quase um ano do começo das vivências educativas. A mostra levantou uma nova questão: como proporcionar esses encontros às crianças de forma contínua e estruturada? Dessa reflexão nasceu o Philia Lab, concebido como um espaço de experimentação e aprendizado. “Foi um exercício de inverter a lógica. No produto, o objeto é o fim. No Lab, o objeto é o meio, e o que importa é o processo e o que ele desperta. Precisei desacelerar e abrir espaço para o imprevisto”, comenta Gisela Simas sobre a atividade piloto.
Senso coletivo
Com encontros aos sábados previstos até dezembro, o programa conta com 12 laboratórios criativos, quatro imersões culturais e territoriais e momentos públicos de exposição e partilha. Ao longo do percurso, os participantes aprendem a observar antes de agir, imaginar possibilidades, testar ideias, manusear ferramentas e materiais com responsabilidade e refletir sobre as transformações provocadas pelo fazer. “Os principais desafios são garantir a segurança no manuseio dos instrumentos reais e respeitar o tempo e o ritmo de cada um, considerando suas diferentes histórias e necessidades”, destaca a designer.Selecione suas newsletters
Entre a investigação individual e a responsabilidade coletiva, a oficina e o território, eles também descobrem os obstáculos de tornar uma intenção realidade. A cada LAB, conhecem um novo profissional e exploram diferentes materiais e possibilidades — da madeira e do papelão a pipas testadas em túnel de vento, máquinas desmontadas, espumas, tecidos e plástico-bolha. A proposta é estimular a passagem da expressão à construção e, desta, à colaboração.
De acordo com Ygaël Attali, os adultos envolvidos assumem três papéis: “São professores, por dominarem ferramentas, materiais e processos; facilitadores, por ajudarem a concretizar os planos das crianças sem substituir sua autoria; e aprendizes, ao se abrirem para perspectivas e possibilidades que surgem do olhar infantil”. Assim, o Philia Lab promove uma troca de conhecimentos, em vez de uma transmissão unilateral.
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“Tenho muito orgulho dos mestres que aceitaram esse convite e compartilham seu saber”, ressalta Gisela, citando Bryan Ochotorena, Guga Casari, Leonardo Lattavo, Marcelo Massaharu, Tomé Peregrino, Pedro Zohrer, Thomaz Brasil, Lígia Mefano, Heberth Sobral, Dani Lacerda e Ivan Rezande. O percurso será celebrado em uma exposição final com os objetos criados.
Ainda sem data de inauguração, a Philia School é descrita como um espaço permanente de aprendizagem, onde oficina, paisagem, comunidade e mundo material participam da educação. Até que a escola se concretize, os laboratórios funcionam como campo de testes para aprimorar as metodologias já aplicadas. “A próxima etapa dependerá da obtenção de financiamento de longo prazo, de um local adequado e de uma equipe estável de educadores e artesãos”, pontua o cofundador da Galerie Philia.
Para os idealizadores, no entanto, o ponto fundamental é cultivar atenção, paciência, autonomia, curiosidade e confiança para tomar decisões, mostrando que rever uma ideia faz parte do processo e que erros podem abrir novos caminhos. No trabalho em conjunto, as crianças aprendem a ouvir, negociar, cuidar e compartilhar. “São habilidades que ultrapassam o ambiente da oficina e dizem respeito à forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros”, conclui Ygaël.
Serviço
Philia Lab: First Steps of the Philia School
Local: Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC Niterói)
Endereço: Mirante da Boa Viagem, s/nº, Boa Viagem, Niterói, RJ
Data: 8 a 20 de outubro de 2026
Entrada: gratuita
Mais informações sobre o projeto estão disponíveis no site da Philia School.
expresso.arq com informações de Camila Santos


