O LUXO QUE SUSSURRA
PORTRAIT
Por Roberto Alvim · Expresso.arq
Quando caminha pela Avenida Atlântica, Daniel Bauen não olha para os prédios. “Meus olhos veem o horizonte”, diz o arquiteto mineiro, 38 anos, quinze de profissão. E mesmo quando o olhar escapa para as torres, é o mar que ele enxerga: “Se eu olhar para a direita, vejo o mar e a areia. E se eu olhar para os edifícios, vejo o reflexo de toda esta natureza.” Para Bauen, isso não ocorre por acaso – é uma questão de projeto. As peles de vidro espelhadas da orla existem para devolver à cidade aquilo que ela tem de melhor: a vista que valoriza cada metro quadrado. A arquitetura de Balneário Camboriú, lida por ele, é um espelho apontado para a própria paisagem.
Seu olhar se formou longe do litoral. Bauen nasceu em Coromandel, interior de Minas Gerais, numa família conhecida na região, e cresceu numa casa de quintal grande – o suficiente para caber uma obra completa. Menino, construiu sozinho uma casa na árvore, numa mangueira. Não sabia o que era estrutura, então inventou calços e pilares. Não sabia fazer um piso, por isso pregou tábuas e chamou de assoalho. Não sabia o que era um elevador: resolveu com uma roda de bicicleta, cordas e um pneu. A casinha era completa, tinha até telefone e iluminação. Depois ela se multiplicou: “O quintal da minha casa virou uma cidade. Fiz prédios, pontes, lagos… Construí uma cidade inteira para brincar.”
A “cidade” virou um ponto de encontro das crianças – e o primeiro portfólio de um arquiteto que já demonstrava uma vocação irresistível. Aos dez anos, passou a acompanhar o trabalho de um engenheiro civil, de quem se tornou uma espécie de aprendiz. “Tudo que eu sei hoje, aprendi com ele. Ainda criança, tive uma formação incrível, que absorvi com naturalidade.” Quando entrou no curso de Arquitetura e Urbanismo, já sabia fazer projetos técnicos. “Meus amigos na universidade estavam aprendendo o bê-a-bá, e eu já dominava todos os fundamentos da arquitetura.”
Seu talento e habilidade desenvolvidos precocemente o tornaram um estudante nada discreto – enquanto os colegas desenhavam casas quadradas, Bauen entregava pontas, geometrias sinuosas e paredes inclinadas, sob a influência confessa de sua grande paixão da época, a arquiteta anglo-iraquiana Zaha Hadid. O resultado foi um apelido que ele carrega até hoje com evidente prazer: o “Zaha Hadid do Cerrado”.
O sucesso que custou caro
A carreira que se seguiu, com escritório próprio em Uberlândia, deu a Bauen tudo o que o mercado costuma prometer: projetos de alto padrão em condomínios fechados, fama, assinatura reconhecível. “As pessoas batiam o olho e sabiam que o projeto era meu. Construí uma assinatura criativa que se tornou uma grife.” Mas a frase que ele usa para resumir esse período não é de vitória: “O sucesso custa muito caro… E são poucas as pessoas dispostas a pagar o preço. Como eu era muito jovem, não estava preparado psicologicamente, e o sucesso que eu tive acabou roubando a minha vida.”
Balneário Camboriú entra nessa história duas vezes – e nas duas como recomeço. A primeira em 2015, quando ele morou na cidade para, nas palavras dele, se reencontrar. A segunda agora, em 2026. “Eu precisava me achar de novo, da mesma forma que tinha me encontrado antes. E foi aqui que isso aconteceu.” A escolha teve um componente espiritual: Bauen conta que não enviou seu portfólio para nenhuma outra empresa além da TKWS. “Foi um direcionamento de Deus. A TKWS surgiu como a resposta que eu busquei em oração.”
Não foi o mercado de luxo local que o deslumbrou. “Tenho quinze anos de profissão, sempre no alto padrão. Esse meio, para mim, é familiar.” O que o segura na cidade é outra coisa: qualidade de vida, a possibilidade de cuidar da mente e do corpo. E uma constatação profissional que ele admite sem rodeios: aqui, a profissão vale mais. Em Uberlândia, uma casa de 500 metros quadrados em condomínio fechado, com o melhor acabamento da região, valia de 2 a 3 milhões. “Em BC, um apartamento de três quartos e 200 metros quadrados custa 10 milhões. Eu sabia da minha capacidade, e percebi que, em Minas, eu estava plantado no terreno errado.”
A cidade do desejo
Sobre o clichê que persegue Balneário Camboriú Brasil afora – a vertical da ostentação, o luxo de novo-rico –, Bauen responde deslocando a responsabilidade para a sua própria categoria: “É o arquiteto que direciona. O alto-luxo em Balneário não precisa ter nenhuma relação com clichês ou cafonice: o arquiteto tem que saber conduzir o cliente a um projeto de qualidade cosmopolita. Arquitetura é técnica, sim, mas é sobretudo uma arte. Os arquitetos precisam ter o mesmo espírito inovador e sofisticado dos artistas.”
E os prédios mais altos do país, erguidos em tão pouco tempo? Conquista de engenharia ou experimento urbano sem veredito? Para Bauen, nem um nem outro: “É um fenômeno de mercado: o despertar do desejo. BC se tornou a cidade nacional do desejo – e aquilo que se torna desejo se torna único, e consequentemente, acessível a poucos.”
A exuberância não o impede de apontar a dívida que a cidade tem consigo mesma: o trânsito. “A cidade trava em horários de pico… Ela cresceu verticalmente de uma forma que as ruas não comportam.” Olhando vinte anos à frente, ele arrisca uma visão que soa como ficção científica – e que ecoa Dubai: “O mar vai ganhar prédios. Vão fazer ilhas, edificações sobre a água. Em alguns anos, a engenharia que foi empregada em Dubai vai ser utilizada aqui também.”
A esponja de soluções
Foi dentro da TKWS que Bauen conheceu o modelo que soluciona o trauma da carreira anterior – a do sucesso que rouba a vida. No turnkey, o cliente assina um único contrato, com preço e prazo fechados, e a empresa absorve tudo o que costuma transformar uma obra em tormento: fornecedores, mão de obra, imprevistos… A imagem que ele usa é precisa: “A TKWS se tornou uma esponja de soluções. Ela absorve todos os problemas de uma obra, e resolve com um sistema completo de execução.”
Para o arquiteto que um dia desenhou “projetos maravilhosos, mas não executáveis” — porque o cliente não tinha como pagar por eles —, o modelo tem também uma virtude moral: o realismo. “O cliente ganha previsibilidade. E o projeto se torna real com um budget definido previamente. O turnkey é isso: trazer o sonho da pessoa para a palma da mão dela, de forma prática e objetiva.”
E a liberdade criativa, num regime de 120 dias e orçamento fechado? Bauen devolve a pergunta com a segurança de quem já resolveu muitas vezes essa equação: “Desafios me motivam. O cliente pode ter o projeto dos sonhos, mas é o arquiteto que constrói esse projeto. E para construir, ele precisa ter repertório.” Repertório, aliás, é a palavra-chave do seu diagnóstico sobre a nova geração: “Hoje os arquitetos têm referência, mas não têm repertório… O verdadeiro arquiteto cria, não copia. Ele tem em sua mente um leque quase infinito de possibilidades autorais para executar a visão do cliente.”
O luxo que sussurra
Perguntado sobre o que o cliente de alto padrão de Balneário pede, Bauen descreve menos um pedido e mais uma mudança de era: “O cliente entendeu que o luxo é silencioso. O verdadeiro luxo está nos detalhes, nas escolhas precisas, nos materiais certos. O luxo não grita – sussurra.”
O sinal mais visível dessa virada, para ele, está nos próprios lançamentos da cidade: o abandono do barroco, das colunas e dos ornamentos que um dia significaram riqueza, em favor da linha reta e da pegada contemporânea de torres como o Senna Tower, o One Tower e o Yachthouse, por exemplo. “Tem prédio em Balneário que você entra e é estátua, quadro, ornamento… Isso ficou para trás. Os arquitetos entenderam a mudança – porque a arquitetura se reinventa continuamente, traduzindo o espírito do nosso tempo.”
Dentro de casa, a revolução tem endereço certo: o living. “A cozinha perdeu as paredes. A mesa de jantar transformou-se em balcão, ganhou mais cadeiras. O living virou o coração da casa – o espaço para receber, para dividir, para trazer os amigos.” Ele enxerga nisso algo maior que decoração: uma reação da vida presencial contra a era digital. “As pessoas perceberam que estar juntas se tornou importante numa época em que se dá valor demais ao digital. A arquitetura acompanhou esse sentimento.” E a área íntima fez o movimento inverso: fechou-se atrás de portas e painéis, para assegurar a privacidade e bloquear os ruídos e distrações do mundo exterior. A casa contemporânea, no desenho de Bauen, é uma praça pública com um cofre ao fundo.
Sobre automação – a casa inteligente que responde ao morador –, ele não hesita: “É um caminho sem volta e em constante aperfeiçoamento.” Já projetou uma cozinha em que os armários abriam por comando de voz. “A inteligência residencial vai estar cada vez mais presente, através de invenções cada vez mais poderosas tecnologicamente, porque praticidade economiza tempo, e tempo é qualidade de vida, a coisa mais preciosa que nós temos.”
O prédio verde
As referências de Bauen atravessam gerações e escalas. Da formação, ficou a reverência a Oscar Niemeyer: “Admiro a forma como ele fazia projetos com os recursos que tinha na época. Ele é um ícone – e sempre será.” Do desenho contemporâneo brasileiro, a admiração por Arthur Casas. Da juventude, a paixão declarada por Zaha Hadid. E do presente, um nome que ele pronuncia sem cerimônia de ranking: Filipo Madeira, arquiteto do Norte do país. “Eu não coloco nenhum arquiteto em pedestal, porque todo mundo tem o seu valor. Mas se hoje eu fosse contratar um arquiteto para fazer a minha casa, seria ele.”
A obra que o desmontou ao vivo – “a foto não me preparou para o que vi” – foi o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro: “O espelho d’água não é enfeite: a brisa do mar bate na água e refresca o edifício. Uma arquitetura ao mesmo tempo arrojada esteticamente e pensada funcionalmente. É fascinante.” E há uma referência que poucos percebem nos seus projetos: a moda. “A moda tornou-se uma arte na contemporaneidade. O que me atrai na alta costura, eu trago para dentro dos meus projetos. Os grandes estilistas e maisons dialogam diretamente com meu estilo criativo.”
No fim da conversa, diante da pergunta que todo arquiteto gostaria de ouvir – o que você projetaria em Balneário Camboriú sem cliente, sem orçamento e sem prefeitura no caminho? –, Bauen não pede uma torre mais alta, mas o contrário do que a cidade oferece atualmente. “Eu faria um prédio verde. Um parque vertical, com andares arborizados; moradia, comércio, as pessoas circulando por uma espécie de floresta integrada à estrutura arquitetônica. BC se tornou uma cidade de pedra, de paredes, de vidro… Um prédio verde no meio dela teria um destaque impressionante.”
Vindo de quem começou construindo uma cidade no quintal, o sonho tem uma coerência orgânica: Daniel Bauen, no auge de sua maturidade profissional e potência criativa, prossegue projetando lugares para as pessoas viverem e ficarem juntas em meio à natureza. Seu talento sensível apenas se deslocou – a árvore da infância finca agora suas raízes no horizonte de Santa Catarina, configurando uma estética singular: o encontro afetuoso entre o Brasil profundo e o mar verde-esmeralda.



