A planta aberta é a vilã da saúde mental? O que a neuroarquitetura revela sobre esse modelo de morar
Da cozinha integrada ao home office na sala, a planta aberta redefiniu a forma de morar nas últimas décadas. Hoje associada à praticidade, à amplitude e à convivência, essa configuração, no entanto, nasceu muito antes de se tornar tendência e, atualmente, também desperta discussões sobre privacidade, concentração e bem-estar.
O conceito começou a ganhar força no século 20, nos Estados Unidos, impulsionado pelo arquiteto Frank Lloyd Wright. Em oposição aos ambientes compartimentados, ele defendia espaços mais fluidos, capazes de favorecer a circulação, a convivência e a conexão visual entre os cômodos. Um dos primeiros exemplos dessa abordagem é a Willey House, projetada em 1934, em Minnesota. Construída em tijolos vermelhos e madeira de cipreste, a residência foi concebida para eliminar barreiras visuais entre os ambientes principais. Frank Lloyd Wright integrou a sala de estar e a sala de jantar em um único espaço e separou a cozinha apenas por uma pequena estante. A solução permitia que Nancy Willey, proprietária da casa ao lado do marido, Malcolm Willey, acompanhasse a rotina familiar enquanto preparava as refeições.
Algumas décadas depois, essa configuração ganharia uma nova interpretação em Nova York com o surgimento dos lofts. A partir das décadas de 1950 e 1960, a desindustrialização de bairros como SoHo e Tribeca deixou fábricas e galpões vazios, que passaram a ser ocupados por artistas em busca de espaços amplos, iluminados e acessíveis para morar e produzir. Não se tratava de um projeto arquitetônico sofisticado, mas de uma resposta às transformações econômicas da cidade. Com estruturas aparentes, pé-direito elevado e ambientes sem divisórias, esses antigos edifícios industriais acabaram definindo uma estética que se tornaria referência.
Hoje, o conceito vive uma nova fase. Impulsionado pela valorização dos centros urbanos e pela redução da metragem dos imóveis, tornou-se praticamente uma regra nos studios, apartamentos que raramente ultrapassam os 30 m². Neles, cozinhar, trabalhar, descansar e receber acontecem em um único ambiente, separado apenas pelo banheiro e, em alguns casos, pela varanda. Segundo dados do Secovi-SP, os apartamentos compactos, de até 45 m², responderam por mais de 80% das vendas e lançamentos imobiliários na capital paulista em 2025. Se antes a planta aberta representava um ideal de liberdade arquitetônica ou uma ocupação criativa de edifícios industriais, hoje ela também reflete as transformações do mercado imobiliário e a necessidade de fazer mais com menos espaço.
Mas, afinal, como esse modelo influencia o bem-estar e a saúde mental de quem vive nele? Se, por um lado, estudos da neuroarquitetura apontam benefícios como maior entrada de luz natural, ventilação cruzada e sensação de amplitude, por outro, a ausência de privacidade, de áreas de refúgio e de limites claros entre os ambientes pode favorecer o estresse, a sobrecarga mental e a dificuldade de desconexão. Para entender os impactos dessa configuração sobre o comportamento humano e descobrir como adaptá-la para promover mais conforto e qualidade de vida, a Casa Vogue conversou com o arquiteto Lorí Crízel, presidente da ANFA Brasil (Academy of Neuroscience for Architecture), e com a arquiteta Priscilla Bencke, especialista em Neurociência e fundadora da NEUROARQ Academy.
A planta aberta é a vilã?
Apesar das críticas, a planta aberta está longe de ser a grande vilã da história. Maior entrada de luz e ventilação naturais, sensação de amplitude e incentivo à convivência entre os moradores estão entre suas principais vantagens. “O problema é quando ela não oferece escolhas”, resume Lorí Crízel.
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A percepção do arquiteto encontra respaldo na ciência. O estudo Flexibility of the Home and Residents’ Psychological Wellbeing, publicado em 2024 no Journal of Environmental Psychology, concluiu que residências capazes de oferecer flexibilidade, adaptação e senso de controle tendem a promover maior felicidade, autonomia, satisfação e qualidade de vida.
“Talvez exista aqui um ponto-chave: a percepção de controle. Quando falamos dela, inevitavelmente falamos de flexibilidade. Uma planta aberta oferece inúmeras vantagens, mas também precisa disponibilizar mecanismos — por meio do layout ou de determinados elementos — para que eu consiga criar momentos de refúgio”, explica Crízel. Segundo ele, esses refúgios não dependem necessariamente de paredes. “A ideia é justamente permitir que, mesmo em um ambiente integrado, eu consiga estabelecer pequenas separações de acordo com a atividade e o momento.”
Essa necessidade se torna ainda mais evidente diante das mudanças nas configurações familiares. Com o crescimento dos lares multigeracionais, aumenta também a demanda por ambientes capazes de equilibrar convivência e privacidade. A chamada “geração sanduíche” — adultos de meia-idade que cuidam simultaneamente dos pais idosos e dos filhos, e, em alguns casos, dos netos — exemplifica esse cenário. Segundo o Censo Demográfico de 2022, do IBGE, 35% dos brasileiros entre 40 e 69 anos vivem essa realidade.
Para Crízel, esse é um dos principais desafios da arquitetura contemporânea. “Pela primeira vez na história da humanidade, conseguimos ter até cinco gerações convivendo simultaneamente dentro da mesma família. Traduzindo isso para o projeto, a planta aberta passa a reunir conflitos geracionais. Como um adolescente usa uma poltrona? Como uma avó usa essa mesma poltrona? Como diferentes pessoas convivem naquele espaço?”
A resposta, segundo os especialistas, não está em abandonar esse modelo, mas em projetá-lo de forma mais flexível, permitindo que cada morador encontre, dentro do mesmo ambiente, espaços tanto para a convivência quanto para o recolhimento. “Dentro de um layout aberto, podemos pensar na criação de refúgios. Quando falo em refúgio, estou me referindo a pequenos espaços onde a pessoa consiga se sentir mais acolhida, reservada e confortável”, afirma Priscilla Bencke.
Como criar espaços de refúgio
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Criar áreas de refúgio não significa, necessariamente, erguer paredes. Pequenas intervenções já são capazes de delimitar diferentes usos e ampliar a sensação de privacidade. Divisórias vazadas ou translúcidas, estantes, mudanças de piso, tapetes, variações de iluminação e até o próprio mobiliário ajudam a criar zonas distintas sem comprometer a continuidade visual do ambiente. “Mesmo sem construir paredes, existem diversas formas de criar ambientes mais reservados. E isso é fundamental, porque a privacidade também é uma necessidade humana”, afirma Priscilla.
Esses espaços também podem surgir a partir da própria disposição dos móveis. Um banco junto à janela voltado para a paisagem, uma poltrona orientada para a contemplação, uma pequena biblioteca ou um nicho criado em um recuo da parede são exemplos de soluções que favorecem o silêncio, a concentração e a recomposição emocional.
“Ter a possibilidade de sair dessa cena — não necessariamente sair do ambiente, mas deixar de estar em evidência — proporciona uma recomposição emocional importante”, explica Lorí Crizel. Para o arquiteto, oferecer ao morador a possibilidade de se recolher, mesmo permanecendo em um espaço integrado, é essencial para preservar a individualidade e garantir que a casa continue sendo um lugar de descanso, equilíbrio e bem-estar.
A pandemia e a chegada do home office
Segundo os dados mais recentes da Pnad Contínua, divulgados pelo IBGE, cerca de 6,6 milhões de brasileiros trabalham em regime de home office. A modalidade se consolidou durante a pandemia de Covid-19, quando o isolamento social transformou a casa também em escritório. Desde então, a residência passou a concentrar múltiplas funções, reunindo, muitas vezes no mesmo ambiente, trabalho, descanso, lazer e convivência.
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“Precisamos tomar cuidado quando diferentes atividades acontecem dentro do mesmo espaço. É importante que exista algum tipo de clareza sobre o que aquele ambiente representa, para que o cérebro não entre em confusão”, explica Priscilla Bencke. Para a arquiteta, essa sobreposição ajuda a explicar o cansaço relatado por muitas pessoas durante a pandemia. “O cérebro passou a ser constantemente estimulado a se adaptar a cenários que antes desempenhavam outras funções.”
Na neuroarquitetura, essa mudança é explicada pela diferença entre espaço e lugar. Enquanto o espaço é apenas físico, o lugar possui significado emocional e afetivo. A casa é considerada o first place — o primeiro lugar — por concentrar identidade, memórias e senso de pertencimento. Já o ambiente de trabalho ocupa o papel de second place. Com o home office, esses dois universos passaram a coexistir dentro da mesma residência, tornando essencial criar uma identidade própria para cada atividade.
Isso, no entanto, não significa reservar um cômodo exclusivo para o escritório. Mesmo em plantas abertas, uma bancada destinada apenas ao trabalho — onde permaneçam computador, documentos e demais materiais profissionais — já é suficiente para que o cérebro associe aquele local à atividade laboral. “Quando essa identidade existe, o sofá continua representando o descanso e a bancada representa o trabalho. O cérebro entende essa diferença”, explica Lorí Crizel.
Para reforçar essa separação, Priscilla Bencke recomenda recorrer a pequenas estratégias que ajudam o cérebro a reconhecer o início e o fim de cada atividade. Sempre que possível, a estação de trabalho deve ser posicionada próxima à luz natural e voltada para uma janela ou para uma parede livre de distrações, evitando o campo de visão da cozinha, da cama ou de áreas de circulação. Além disso, pequenos rituais — como utilizar um aroma específico, acender uma vela ou ouvir sempre a mesma música antes de começar a trabalhar — funcionam como “âncoras” sensoriais, favorecendo a concentração e tornando mais fácil a transição entre trabalho e descanso.
O problema surge quando esse espaço de referência não existe. Durante a pandemia, muitas pessoas passaram a alternar o trabalho entre a mesa de jantar, o sofá, o quarto e a varanda, sem estabelecer uma identidade para nenhum desses locais. Para os especialistas, essa perda de vínculo pode aumentar a sobrecarga mental e dificultar a desconexão, já que o cérebro deixa de reconhecer quando é hora de produzir e quando é hora de descansar.
Sobrecarga sensorial
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Outro desafio das plantas abertas é a sobrecarga sensorial. Sem barreiras físicas entre os ambientes, diferentes estímulos passam a competir pela atenção dos moradores, tornando essencial planejar o espaço para evitar excessos — principalmente os relacionados à visão, à audição e ao olfato.
“Quando temos um ambiente totalmente integrado, com várias atividades acontecendo ao mesmo tempo, precisamos tomar cuidado para evitar o excesso de informações visuais, muitas vezes provocado simplesmente pela bagunça”, explica Priscilla Bencke. Além da desordem, sons e cheiros também interferem na forma como o cérebro processa o ambiente. Um home office integrado à sala pode ter a concentração prejudicada pela televisão ligada, enquanto o aroma de uma refeição desperta respostas fisiológicas, como a fome. “Todos os sentidos entram em ação”, resume.
Para minimizar esses impactos, o segredo volta a ser o controle dos estímulos. Tapetes, cortinas, estofados, painéis e divisórias acústicas ajudam a reduzir a propagação dos ruídos, enquanto acordos simples entre os moradores — como utilizar fones de ouvido durante reuniões ou videochamadas — também fazem diferença.
Como lidar com apartamentos cada vez menores?
Em apartamentos cada vez menores, a planta aberta deixa de ser uma escolha estética e passa a ser uma necessidade. Nesses espaços compactos, o desafio é criar diferentes usos sem comprometer a sensação de amplitude.
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Para isso, a arquitetura vem incorporando soluções inspiradas nos setores náutico e aeronáutico, onde cada centímetro é cuidadosamente planejado. Móveis retráteis e multifuncionais, marcenaria sob medida, elementos transformáveis e materiais que contribuem para o conforto acústico ajudam um mesmo ambiente a assumir diferentes funções ao longo do dia. Sempre que possível, também vale organizar o layout para criar direcionamentos visuais e pequenas zonas de uso, preservando a funcionalidade mesmo em metragens reduzidas.
Segundo Lorí Crizel, a flexibilidade é a palavra-chave. “Tudo precisa se encaixar perfeitamente. Os móveis precisam ser fáceis de limpar, extremamente funcionais e, de preferência, transformáveis. No fim das contas, a proposta é que estejamos integrados, mas também possamos nos individualizar quando isso for necessário.”
Priscilla Bencke lembra, porém, que o bem-estar em apartamentos muito pequenos não depende apenas da arquitetura: também é preciso repensar a forma de ocupar a cidade. Criar uma rotina que inclua momentos fora de casa, contato com áreas externas e convivência com outras pessoas ajuda a compensar as limitações do espaço doméstico. “Em tempos marcados por uma crescente sensação de solidão, essa conexão com o entorno torna-se parte fundamental da qualidade de vida”, pontua.
Mais do que decidir onde termina a cozinha e começa a sala, projetar uma planta aberta significa equilibrar convivência e individualidade. Em uma época marcada por apartamentos cada vez menores, jornadas híbridas e casas multifuncionais, a arquitetura deixa de responder apenas a questões estéticas e passa a considerar também a forma como o cérebro percebe e vivencia os espaços.
“Não se trata de demonizar as plantas abertas. Pelo contrário. É entender que estamos diante de uma nova realidade e que precisamos aprender a projetar esses ambientes de forma mais humana. Hoje, trabalhamos com um briefing muito mais profundo do que aquele tradicional da arquitetura. Não basta saber apenas as preferências estéticas da pessoa ou pedir referências do Pinterest. Se realmente queremos gerar um impacto positivo na vida de alguém, precisamos entender esse indivíduo com mais profundidade. É aí que entram a psicologia e a neurociência, ajudando a compreender quem vai habitar aquele espaço”, completa a arquiteta.
expresso.arq com informações de Laura Raffs


