Estrangeiros compram cada vez mais imóveis no Brasil. Como as imobiliárias podem se beneficiar?

Reportagem da Deutsche Welle, replicada pelo G1 e por diversos outros veículos nesta semana, chama atenção para um movimento que já vinha sendo percebido no dia a dia do mercado, mas que agora ganha números e contexto mais claros: o crescimento da compra de imóveis brasileiros por estrangeiros. Vale entender como isso afeta o mercado imobiliário nacional.

O presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio), Claudio Hermolin, disse que “os avanços nas vendas são identificados principalmente nos imóveis compactos recém-lançados.” Afirmou também que “em Ipanema e no Leblon, pesquisas mostram que 30% dessas unidades foram comercializadas para estrangeiros”.

O crescimento é resultado de uma combinação de fatores. Primeiro, o preço. Regiões turísticas ou de turismo muito forte no Brasil ainda representam uma oportunidade competitiva quando comparadas a outros destinos internacionais, especialmente para quem recebe em dólar ou euro e converte para o real. Em áreas valorizadas do Rio de Janeiro e do litoral catarinense, por exemplo, o metro quadrado ainda é relativamente acessível frente a mercados equivalentes fora do país.

Depois, a facilidade operacional. A digitalização das transações, somada ao surgimento de empresas especializadas em administrar imóveis à distância, reduziu significativamente as barreiras para quem compra sem morar no Brasil.

Há também um componente comportamental interessante. Muitas vezes esses estrangeiros vêm ao Brasil para fazer negócios ou passar férias e, no processo, acabam percebendo a oportunidade. Compram um imóvel aqui, usam durante as próprias férias e, no restante do ano, contam com parceiros locais para administrá-lo (inclusive por meio de locações de curta duração, quando esse modelo faz sentido).

Essa flexibilidade aumenta o potencial de retorno do investimento e ajuda a explicar por que imóveis compactos, bem localizados em bairros turísticos, passaram a despertar tanto interesse.

Não é por acaso que uma parcela relevante das vendas de lançamentos está concentrada em bairros como Ipanema e Leblon, no Rio (regiões de vocação turística, com praia e paisagem diferenciadas, e que oferecem muitas opções de imóveis menores).

Esse movimento também reforça a importância de um mercado imobiliário profissional, capaz de oferecer segurança, transparência e uma jornada completa de entendimento para quem compra de fora do país.

Ao mesmo tempo, essa tendência traz desafios em algumas cidades. O crescimento das locações de curta duração pode reduzir a oferta de imóveis para locação tradicional, ou até pressionar os preços em regiões muito procuradas. É o mesmo movimento que já vimos acontecer na Europa, agora chegando ao Brasil.

O debate, portanto, não deve ser se esse movimento é bom ou ruim. Vale mesmo entender seus efeitos com clareza.

A boa notícia é que o Brasil começa a disputar espaço no mapa global de investimentos imobiliários. O desafio do setor agora é garantir que esse capital gere desenvolvimento sustentável, atraindo investidores e, ao mesmo tempo, equilibrando essa dinâmica com o acesso à moradia nas cidades.

Para imobiliárias e corretores, esse cenário abre caminhos concretos

  • Preparar-se para atender o comprador internacional. Isso significa ter processos digitais sólidos, capacidade de fechar negócio à distância e, idealmente, algum domínio de inglês ou espanhol na equipe.
  • Mapear o portfólio com potencial turístico. Imóveis compactos, bem localizados em regiões como orla, bairros históricos ou próximos a polos de negócios, tendem a atrair esse público com mais facilidade.
  • Construir parcerias de administração e locação por temporada. O estrangeiro que compra para uso ocasional busca alguém de confiança para cuidar do imóvel no restante do ano, inclusive operando aluguel de curta duração. Essa é uma frente de receita recorrente para quem se estruturar bem.
  • Conhecer as regras de residência por investimento. Entender os requisitos e valores mínimos para essa modalidade é hoje um diferencial competitivo na hora de atrair e orientar esse comprador.
  • Ficar atento à convenção de condomínio. Assim como já discutimos aqui em relação ao Airbnb, restrições à locação de curta temporada podem impactar diretamente a viabilidade desse tipo de operação, e é papel da imobiliária alertar o comprador estrangeiro sobre isso antes do fechamento.

O Brasil está entrando, com mais força, no radar de quem busca diversificação patrimonial fora de seu país de origem. Para o setor imobiliário, trata-se de uma oportunidade real de crescimento. Desde que o crescimento venha acompanhado de profissionalização e equilíbrio com a demanda local por moradia.

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