10 construções que desafiam a água ao redor do mundo

Casas, estradas e edifícios compartilham uma característica em comum: estão assentados sobre a terra. Independentemente do material empregado, da escala ou do contexto em que se inserem, estamos acostumados a conviver, no dia a dia, com construções firmemente ancoradas no solo. No entanto, edificações flutuantes e submersas vêm ganhando espaço como alternativas concretas diante de desafios contemporâneos, como a elevação do nível do mar e a ocupação de regiões marcadas pela presença de rios, lagos e outros corpos d’água. Sob uma nova perspectiva de adaptabilidade e sustentabilidade, arquitetos ao redor do mundo têm explorado o potencial da água para criar projetos dinâmicos, funcionais e surpreendentes.

Segundo dados divulgados pela Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA), em 2023, o nível médio dos oceanos subiu cerca de nove centímetros nas últimas três décadas. Já o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) projeta que o nível do mar poderá ultrapassar um metro de elevação até 2100, dependendo do cenário de emissões. Em paralelo, um estudo da Climate Central, baseado em dados da NASA, aponta que diversas cidades brasileiras e de outros países poderão sofrer inundações permanentes até o fim do século. Diante desse cenário, além de reduzir os impactos ambientais, será que chegou o momento de repensar a forma como construímos?

De Frank Lloyd Wright a Tadao Ando, arquitetos que projetam sobre a água — ou em estreita relação com ela — sabem que parte da obra será inevitavelmente determinada por forças que escapam ao controle humano. Marés sobem e descem, rios transbordam, lagos congelam e degelam. Nesse contexto, a arquitetura deixa de resistir à natureza para dialogar com ela, incorporando a instabilidade como parte do projeto.

A seguir, reunimos 10 construções que desafiam os limites entre terra e água, seja flutuando sobre sua superfície, seja submersas. Confira:

Casa da Cascata (Fallingwater), de Frank Lloyd Wright

Casa da Cascata (Fallingwater), de Frank Lloyd Wright — Foto: Gerald Zaffuts/GettyImages
Casa da Cascata (Fallingwater), de Frank Lloyd Wright — Foto: Gerald Zaffuts/GettyImages

Conhecida como Fallingwater, a Casa Cascata, em Stewart, município da Pensilvânia, nos Estados Unidos, foi projetada pelo arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright para a família Kauffman, em 1935, e tornou-se uma das construções clássicas da arquitetura moderna. Desenvolvida como um retiro de final de semana, destaca-se não apenas pelo seu visual, mas por estar parcialmente construída sobre uma das cascatas do córrego de Bear Run. Em vez de ir pelo caminho mais fácil, que seria criar uma casa com vista para a cascata, Wright tornou a residência parte da cascata.

“Ali, em uma bela floresta, havia uma saliência rochosa sólida e elevada que se erguia ao lado de uma cachoeira; e a solução natural parecia ser projetar a casa em balanço a partir daquela formação rochosa, estendendo-a sobre a queda”, explicou certa vez Wright sobre seu projeto.

Os terraços de concreto projetam-se da rocha sobre a cachoeira, enquanto, na sala de estar, uma escada desce diretamente até a superfície da água. Atualmente, é considerada um marco histórico nacional, protegida pela legislação estadual dos EUA e designada como Marco Histórico Nacional em 1976 e Patrimônio Mundial da UNESCO em 2019.

Ópera de Oslo, do Snøhetta

Mats Anda — Foto: Mats Anda/GettyImages
Mats Anda — Foto: Mats Anda/GettyImages

Em Oslo, na Noruega, cultura e natureza unem-se na Ópera de Oslo, projetada pelo escritório nova-iorquino Snøhetta, cuja arquitetura de linhas angulares parece sair das águas do Fiorde de Oslo. A intenção do escritório era transformar o telhado em uma plataforma acessível a todos, criando um novo espaço público no centro de Oslo, emergindo do fiorde e simulando um bloco de gelo à deriva, revestido de granito branco e mármore de Carrara.

A construção também gerou outros benefícios. A ampla operação de recuperação ambiental do local, por exemplo, devolveu ao Fiorde de Oslo as condições de limpeza mais favoráveis ​​em quase 100 anos. Com qualidade suficiente para humanos e animais, as águas agora abrigam diversas áreas públicas de banho e mais de quarenta espécies de flora e fauna que retornaram à região

Piscina das Marés, de Álvaro Siza

Piscina das Marés, de Álvaro Siza — Foto: Matosinhos Sport/Reprodução
Piscina das Marés, de Álvaro Siza — Foto: Matosinhos Sport/Reprodução

Construída na década de 1960 e inaugurada em 1966, a Piscina das Marés, em Leça da Palmeira, Portugal, foi projetada pelo arquiteto Álvaro Siza e reconhecida como Monumento Nacional de Portugal desde 2011. Trata-se de um conjunto de piscinas com funcionamento apenas na época balnear, de junho a setembro, e destaca-se pela redução da arquitetura. Para a edificação, Siza pensou em um espaço que parecesse uma extensão da orla natural. Nesse sentido, somadas às formações rochosas naturais, paredes de concreto criam duas piscinas de água salgada, abastecidas pela maré, juntamente com vestiários, chuveiros e uma cafeteria.

Ademais, visando minimizar o impacto das construções, as superfícies de concreto recebem tratamento para mimetizar a textura e a cor do entorno.

Entre 2019 e 2021, porém, a Piscina das Marés foi alvo de uma grande intervenção em virtude da deterioração da estrutura do betão armado, o tanque principal da piscina e o sistema de filtração de água salgada. Com um investimento de 1,3 milhões de euros, a intervenção envolveu a instalação mecânica de bombas de captação e circulação, sistema de filtragem e tratamento da água.

Fondazione Querini Stampalia, de Carlo Scarpa

Fondazione Querini Stampalia — Foto: Riccardo De Cal/Cortesia da Fondazione Querini Stampalia
Fondazione Querini Stampalia — Foto: Riccardo De Cal/Cortesia da Fondazione Querini Stampalia

A Veneza, na Itália, por si só já desafia a água, construída sobre uma laguna pantanosa com milhões de estacas de madeira cravadas profundamente na lama. Mas, o arquiteto Carlo Scarpa desafiou a acqua alta do Mar Adriático com a Fondazione Querini Stampalia, construída entre 1961 e 1963. À época, o profissional foi encarregado de reconfigurar o pavimento térreo de um palácio do século XVIII, incluindo a sequência de entrada, a passarela interna e o jardim dos fundos. A intervenção, concebida tanto para mitigar inundações quanto para promover uma recalibração espacial, optou por acolher a água, de maneira que as inundações passam a fazer parte do projeto.

Scarpa projetou uma sequência de plataformas, canais e drenos de latão que permitem a entrada e o recuo da água sem danificar a estrutura. Além disso, o sistema de piso é composto por pedra branca da Ístria e concreto escuro, cortados e unidos em ritmos geométricos que orientam tanto a água quanto o movimento.

Já no interior, o arquiteto introduziu uma passarela em níveis desencontrados para conectar o palácio a um novo espaço de exposição, situado do outro lado do canal interno.

Under, do Snøhetta

Under, de Snøhetta — Foto: Ivar Kvaal
Under, de Snøhetta — Foto: Ivar Kvaal

O escritório Snøhetta investiu em mais uma edificação que desafia a água com Under, o primeiro restaurante submerso da Europa. Localizada em Lindesnes, na Noruega, onde as tempestades marítimas do norte e do sul se encontram, a construção ocupa uma localização de confluência única, onde prosperam espécies marinhas de água salgadas e salobras. O restaurante também funciona como um centro de pesquisa sobre a vida marinha, prestando uma homenagem à fauna selvagem do mar e à costa rochosa do extremo sul da Noruega.Selecione suas newsletters

Na arquitetura, um monólito de concreto inclinado desliza pela falésia e mergulha no Mar do Norte, ficando a cinco metros abaixo da superfície. No interior do restaurante, a parede dos fundos é uma janela de onze metros de largura com vista para o fundo do mar, onde a luz varia conforme o horário e as estações do ano. A estrutura também funciona como um recife artificial.

Under, de Snøhetta — Foto: Ivar Kvaal
Under, de Snøhetta — Foto: Ivar Kvaal

Ao focar na coexistência da vida em terra e no mar, o Under propõe uma nova maneira de compreender nossa relação com o entorno.

Igreja sobre a Água, de Tadao Ando

Igreja sobre a Água, de Tadao Ando — Foto: Yoshio Shiratori
Igreja sobre a Água, de Tadao Ando — Foto: Yoshio Shiratori

Explorando a relação entre arquitetura e natureza, a Igreja sobre Água, projetada por Tadao Ando em 1988, em Hokkaido, no Japão, foi originalmente concebida para a costa de Kobe como uma capela flutuando sobre o mar. Contudo, a igreja encontrou a sua forma em Tomamu, um resort de montanha, onde, em vez do oceano, um espelho d’água artificial transforma o conceito de flutuação em reflexão.

Ando construiu a capela com vista para o espelho d’água, alimentado por um riacho, e projetou a parede atrás do altar como uma enorme janela de correr. Assim, a cruz não fica dentro da edificação, mas isolada sobre a água, em frente aos bancos. Provando as improbabilidades do elemento, no inverno, a água ao redor congela.

Floating University (Universidade Flutuante), do raumlaborberlin

Floating University (Universidade Flutuante), de raumlaborberlin — Foto: Victoria Tomaschko
Floating University (Universidade Flutuante), de raumlaborberlin — Foto: Victoria Tomaschko

Em Berlim, na Alemanha, esta universidade, desenhada pelo Raumlabor em 218, levou o ensino à água, com uma construção que flutua sobre um tanque de retenção de águas pluviais do antigo aeroporto de Tempelhof, que ficou fechado ao público durante 80 anos.

O campus foi construído de forma colaborativa utilizando andaimes e madeira, inspirado em plataformas de petróleo. O espaço conta com áreas de aprendizado, um auditório, uma torre de laboratório, cozinha, bar e um sistema experimental de filtragem de água.

Little Island, do Heatherwick Studio

Little Island, do Heatherwick Studio — Foto: francois-roux/GettyImages
Little Island, do Heatherwick Studio — Foto: francois-roux/GettyImages

Inaugurado em 2021, o Little Island, projetado pelo Heatherwick Studio, é parque público construído sobre o Rio Hudson, com 280 estacas de concreto e área total de 2,4 acres que sustentam o parque e o local de apresentações. Ícone da cidade de Nova York, nos Estados Unidos, o escritório reutilizou as estacas de madeira remanescentes do antigo Pier 54, que se situava no local e foi destruído pelo furacão Sandy, como uma forma de preservar a vida marinha e abrigar as 132 tulipas de concreto que compõem a estrutura.

O mais interessante é que cada estrutura de concreto tem uma capacidade de carga de peso diferente para segurar o solo, gramados, mirantes e árvores.

Sluishuis, do BIG and Barcode Architects

Sluishuis, do BIG and Barcode Architects — Foto: Ossip van Duivenbode
Sluishuis, do BIG and Barcode Architects — Foto: Ossip van Duivenbode

Em Amsterdam, nos Países Baixos, um complexo residencial, inaugurado em 2022, marca a paisagem: o Sluishuis. Projetado pelo escritório BIG and Barcode Architects, o edifício reinventa a quadra urbana tradicional e responde à sua localização singular sobre a água. O volume é elevado de um lado para permitir a entrada da água no pátio interno e apresenta um escalonamento descendente do outro. Dessa forma, a percepção do volume do Sluishuis muda conforme o ângulo de observação.

A construção conta com 44 apartamentos, além de uma passarela pública na cobertura, uma marina central e jardins flutuantes.

Museu Zaishui, de Junya Ishigami

Museu Zaishui, de Junya Ishigami — Foto: Arch-Exist
Museu Zaishui, de Junya Ishigami — Foto: Arch-Exist

Em Rizhao, na China, este museu transforma sua própria arquitetura em arte. Desenhado pelo arquiteto Junya Ishigami, o edifício ergue-se sobre um lago artificial com aberturas que permitem a entrada de água, inundando o piso. A construção de 20.000 metros quadrados apresenta uma dinâmica de larguras e alturas variadas, com o objetivo de maximizar a integração da obra arquitetônica com o entorno natural.

As colunas, repetidas em intervalos regulares, definem a nova superfície do lago, erguendo-se da parte posterior para sustentar uma cobertura de concreto.

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