Vai construir? Saiba como a orientação solar do terreno é crucial para sua casa

A orientação solar de uma casa é um dos pilares fundamentais ao iniciar um projeto arquitetônico. A forma como a insolação incide sobre a construção garante o conforto térmico, a eficiência energética da residência e a saúde de seus moradores.

“Ao planejar corretamente a entrada de luz e calor, conseguimos evitar que os ambientes fiquem excessivamente quentes nos intensos verões brasileiros, reduzindo drasticamente a necessidade de uso contínuo de aparelhos de ar-condicionado”, coloca Fernando Forte, sócio-diretor do escritório FGMF Arquitetos.

Além da redução na conta de luz, a incidência adequada da luz solar é vital para a salubridade da residência, de acordo com o profissional. “Combate a proliferação de fungos, mofo e bactérias, problemas comuns em várias regiões úmidas do Brasil, além de regular o relógio biológico humano e promover maior bem-estar diário”, explica.

Um erro na fase de implantação da casa gera impactos profundos e permanentes, difíceis de serem sanados. Ainda que invisíveis, esses problemas acabam sendo sentidos no dia a dia.

“Quartos voltados para oeste sem a devida proteção arquitetônica se transformam em verdadeiros fornos acumuladores de calor à tarde, tornando o sono bastante desconfortável nas noites tropicais”, destaca Fernando.

“Por outro lado, ambientes de descanso posicionados para o sul podem desenvolver sérios problemas estruturais de mofo e umidade excessiva devido à falta de assepsia solar, o que agrava quadros de alergias e doenças respiratórias crônicas”, continua o arquiteto.

O pergolado em balanço ajuda a sombrear a casa no período do excesso de sol da tarde. Construção feita pela Epson Engenharia — Foto: André Scarpa/Divulgação | Projeto do escritório Reinach Mendonça Arquitetos
O pergolado em balanço ajuda a sombrear a casa no período do excesso de sol da tarde. Construção feita pela Epson Engenharia — Foto: André Scarpa/Divulgação | Projeto do escritório Reinach Mendonça Arquitetos

Como definir a orientação solar da sua casa?

Como o Brasil é um país muito grande, com climas variados, as soluções variam conforme a região. Fernando explica que no Sul ou em áreas serranas do Sudeste, onde os invernos são mais rigorosos, o projeto deve buscar captar o máximo de radiação solar para aquecer os interiores, priorizando fachadas que recebam sol na maior parte do dia.

Já no restante do país, que enfrenta altas temperaturas e muita radiação em boa parte do ano, a estratégia se inverte: o foco passa a ser proteger a edificação da insolação direta. “Especialmente do agressivo sol da tarde, e maximizar a captação dos ventos locais para dissipar o calor acumulado e a umidade constante”, diz Fernando.

Estudos volumétricos e simulações do percurso solar nortearam o projeto da Casa Grau para garantir que a vista para a paisagem fosse mantida com a menor intervenção possível no terreno — Foto: Manuel Sá/Divulgação | Projeto do escritório HUM Arquitetos, com interiores do escritório Dias Estúdio
Estudos volumétricos e simulações do percurso solar nortearam o projeto da Casa Grau para garantir que a vista para a paisagem fosse mantida com a menor intervenção possível no terreno — Foto: Manuel Sá/Divulgação | Projeto do escritório HUM Arquitetos, com interiores do escritório Dias Estúdio

Segundo Gabriel Mendonça, coordenador geral de projetos e sócio do escritório Reinach Mendonça Arquitetos (RMAA), além do clima, as construções ao redor do terreno devem ser levadas em conta ao se projetar visando um melhor aproveitamento da luz natural.

“O tipo de impedimento que você tem influencia no desenho. Se há casas vizinhas altas, vizinhos de lado, de frente e de fundo, tudo isso tem que ser levado em consideração”, pontua.

A topografia também tem seu impacto, já que terrenos acidentados podem ter áreas naturalmente mais escondidas do sol. “Além disso, a direção dos ventos dominantes muitas vezes conflita com a melhor orientação para o sol, exigindo que pensemos as aberturas de forma inteligente para garantir a ventilação natural sem expor o interior ao calor direto”, fala Fernando.

O escritório ajudou a escolher o terreno, fato que determinou o DNA do projeto, e assim a casa foi construída do zero em um platô, sem necessidade de transporte de terra, além de orientação norte voltada ao jardim e à piscina, com obra da Taguá Engenharia — Foto: André Scarpa/Divulgação | Produção: Deborah Apsan/Divulgação | Projeto do escritório Nitsche Arquitetos | Paisagismo de Catê Poli
O escritório ajudou a escolher o terreno, fato que determinou o DNA do projeto, e assim a casa foi construída do zero em um platô, sem necessidade de transporte de terra, além de orientação norte voltada ao jardim e à piscina, com obra da Taguá Engenharia — Foto: André Scarpa/Divulgação | Produção: Deborah Apsan/Divulgação | Projeto do escritório Nitsche Arquitetos | Paisagismo de Catê Poli

Para projetar, os arquitetos contam com uma combinação de métodos tradicionais — como a carta solar, um gráfico que detalha a trajetória do sol ao longo do ano — e modernas tecnologias.

“Há programas em que você pode inserir a localização do terreno, georreferenciada, e que te diz onde passa o sol exatamente naquele ponto do globo terrestre. Com isso, você consegue fazer um estudo de como o projeto fica em cada hora do dia e em cada mês do ano”, detalha Gabriel.

Fernando revela serem imprescindíveis as visitas de campo para entender as nuances ao local e o uso de softwares de modelagem e simulação 3D. “Esses programas permitem erguer o volume da casa virtualmente no terreno e prever com exatidão como as sombras se comportarão na fachada e nos ambientes internos durante os solstícios de verão e de inverno em qualquer cidade brasileira”, conta.

Para proteger a área social da casa do sol intenso, o projeto arquitetônico trouxe um brise que forma uma aba a partir da cobertura — Foto: André Scarpa/Divulgação | Projeto do escritório Reinach Mendonça Arquitetos
Para proteger a área social da casa do sol intenso, o projeto arquitetônico trouxe um brise que forma uma aba a partir da cobertura — Foto: André Scarpa/Divulgação | Projeto do escritório Reinach Mendonça Arquitetos

A melhor orientação solar para cada ambiente da casa

Dependendo de onde você está no mundo, a melhor posição dos cômodos de uma casa em relação ao conforto térmico muda. No Brasil, que está no Hemisfério Sul, a fachada leste é a que recebe o suave sol da manhã, sendo ideal para quartos e cozinhas.

“A fachada norte é a mais privilegiada no país por receber insolação contínua durante o inverno e um sol mais a pino no verão, fácil de sombrear com beirais, sendo a escolha de ouro para salas de estar e varandas principais”, comenta Fernando.

A fachada oeste recebe o escaldante sol da tarde e pode ser uma boa escolha para abrigar áreas de passagem ou de serviço, como corredores, lavanderias e garagens. “Já face sul recebe pouquíssima ou nenhuma luz solar direta, sendo mais fria e propícia para receber despensas e home office, que demandam luz sem reflexos em telas”, orienta o arquiteto do escritório FGMF.

Construída em um terreno em declive, a casa de 1,9 mil m² possui uma planta em “L” que organiza os fluxos e valoriza a vista do pôr do sol — Foto: Evelyn Müller/Divulgação | Projeto da arquiteta Deborah Roig | Paisagismo de Roberto Riscala
Construída em um terreno em declive, a casa de 1,9 mil m² possui uma planta em “L” que organiza os fluxos e valoriza a vista do pôr do sol — Foto: Evelyn Müller/Divulgação | Projeto da arquiteta Deborah Roig | Paisagismo de Roberto Riscala

Apesar das indicações, Gabriel lembra que é possível tirar vantagens de todas as faces e orientações, desde que elas sejam bem trabalhadas em projeto.

“Até a face sul tem grandes vantagens para um ambiente social como uma sala ou um home theater, porque você consegue ter uma boa iluminação durante o dia sem ter insolação direta e entrada de sol. Não vai ter problema do piso de taco esturricar e trincar, não vai ter reflexo em televisão, não vai ter um calor extremo”, enumera.

Ao lado da cozinha, a área gourmet tem cobertura metálica branca com fechamento em trama de bambu, permitindo a passagem da luz solar de forma mais filtrada — Foto: Luiza Schreier/Divulgação | Projeto da arquiteta Amanda Miranda
Ao lado da cozinha, a área gourmet tem cobertura metálica branca com fechamento em trama de bambu, permitindo a passagem da luz solar de forma mais filtrada — Foto: Luiza Schreier/Divulgação | Projeto da arquiteta Amanda Miranda

Fernando destaca, ainda, que a orientação solar, embora seja uma das principais variáveis do projeto, não atua sozinha. “A definição final da planta deve sempre ponderar um conjunto de variantes essenciais, como o enquadramento das melhores vistas do terreno, a lógica e a praticidade dos fluxos de circulação, e as dinâmicas particulares da família que ali viverá”, coloca.

“O bom projeto arquitetônico nasce justamente do equilíbrio inteligente entre as diretrizes bioclimáticas e as necessidades reais e contextuais de cada obra”, complementa o profissional.

Cada quarto possui acesso direto à área externa por meio de portas de correr no estilo celeiro, intermediado por uma pequena varanda com piso de pedrisco e paredes de pedra moledo, que garantem proteção solar e privacidade entre os dormitórios — Foto: Daniela Magario/Divulgação | Produção: Alay Riba/Divulgação | Projeto do escritório Sabugosa Arquitetura, do arquiteto Gabriel Sabugosa
Cada quarto possui acesso direto à área externa por meio de portas de correr no estilo celeiro, intermediado por uma pequena varanda com piso de pedrisco e paredes de pedra moledo, que garantem proteção solar e privacidade entre os dormitórios — Foto: Daniela Magario/Divulgação | Produção: Alay Riba/Divulgação | Projeto do escritório Sabugosa Arquitetura, do arquiteto Gabriel Sabugosa

Outras soluções para ter conforto térmico

Quando algum ponto impede o posicionamento ideal da propriedade em relação à orientação solar, a arquitetura brasileira dispõe de outros recursos para “blindar a residência”.

Entre eles se destacam elementos de sombreamento como brises-soleils e cobogós (que permitem a passagem da brisa enquanto quebram a luz agressiva), além de grandes varandas e beirais que protegem as janelas do sol alto.

Neste canto da sala, as grandes aberturas permitem a entrada do sol e a visão do lago existente no terreno, que passou a ter protagonismo na casa. As persianas de junco filtram a luz do sol quando necessário — Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Brito Velho e Pualani di Giorgio/Divulgação | Projeto do escritório Fato Estúdio
Neste canto da sala, as grandes aberturas permitem a entrada do sol e a visão do lago existente no terreno, que passou a ter protagonismo na casa. As persianas de junco filtram a luz do sol quando necessário — Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Brito Velho e Pualani di Giorgio/Divulgação | Projeto do escritório Fato Estúdio

“Para lidar com cada uma dessas orientações, há várias soluções. Para uma sala virada para o norte, você precisa de um grande beiral para barrar a entrada direta de sol. Se a sala é para o oeste, o sol do fim da tarde vem quase que na horizontal, ficando desconfortável. Então, o ideal é ter um brise ou muxarabi”, argumenta Gabriel.

“Adotar mantas de isolamento térmico nos telhados e criar paredes mais espessas nas fachadas poentes ajudam a atrasar a entrada do calor”, aponta Fernando.

As esquadrias em alumínio e vidro, com painel deslizante em tela solar branca dão privacidade para o ambiente e filtra a luz. Sob o balanço do volume branco fica a garagem — Foto: Manuel Sá/Divulgação | Projeto do escritório HUM Arquitetos, com interiores do escritório Dias Estúdio
As esquadrias em alumínio e vidro, com painel deslizante em tela solar branca dão privacidade para o ambiente e filtra a luz. Sob o balanço do volume branco fica a garagem — Foto: Manuel Sá/Divulgação | Projeto do escritório HUM Arquitetos, com interiores do escritório Dias Estúdio

O paisagismo também atua como uma barreira verde, que ameniza o calor. “O plantio de árvores estrategicamente posicionadas para criar sombras de verão, assim como a instalação de telhados verdes e jardins verticais, ajudam a umidificar e resfriar ativamente o microclima ao redor do imóvel”, continua o arquiteto.

“Tudo o que gera uma certa separação entre o externo e o interno ajuda a não sofrer com a temperatura extrema”, relata Gabriel.

Por conta do sol intenso, o paisagismo da parte frontal, elaborado pelo paisagista Marcel Nauer, traz plantas xerófitas, que se adaptam a condições semiáridas, cercadas de uma forração de pedras e pedriscos — Foto: Joana França/Divulgação | Projeto de Gustavo Fontes, do Coletivo de Arquitetos
Por conta do sol intenso, o paisagismo da parte frontal, elaborado pelo paisagista Marcel Nauer, traz plantas xerófitas, que se adaptam a condições semiáridas, cercadas de uma forração de pedras e pedriscos — Foto: Joana França/Divulgação | Projeto de Gustavo Fontes, do Coletivo de Arquitetos

As cores e materiais das fachadas impactam, ainda, no conforto térmico interno. Para as regiões mais quentes e litorâneas, são sugeridas cores claras, como branco, bege e tons pastéis, que possuem alto poder de reflexão da radiação solar, evitando que a alvenaria absorva calor. “O uso de tintas térmicas e sistemas de fachadas ventiladas são excelentes escolhas para esses locais”, diz Fernando.

Outra forma é projetar a edificação visando o melhor aproveitamento da ventilação natural, com a instalação de portas e janelas em lugares estratégicos.

O spa tem uma jacuzzi para conferir o relaxamento e uma claraboia no teto para permitir maior incidência da luz solar — Foto: Mariana Orsi/Divulgação | Projeto da arquiteta Deborah Roig
O spa tem uma jacuzzi para conferir o relaxamento e uma claraboia no teto para permitir maior incidência da luz solar — Foto: Mariana Orsi/Divulgação | Projeto da arquiteta Deborah Roig

“Quando as aberturas são alinhadas considerando a trajetória do sol e a direção dos ventos favoráveis, é possível promover a ventilação cruzada, permitindo que a brisa entre por uma janela e saia por outra na parede oposta ou adjacente, renovando o ar viciado e resfriando a casa naturalmente sem custo energético”, comenta Fernando.

“Isso você trabalha desde o começo do projeto, pensando em circulação de ar cruzada. Você pode trabalhar com saídas de ar zenital pelo telhado. O ar quente já se junta próximo ao teto e fica mais fácil sair por ali, enquanto o ar fresco se renovar vindo por baixo”, aponta Gabriel.

O projeto pensou na disposição do sol da manhã e da tarde, além de prever ventilação cruzada, tudo para gerar conforto térmico — Foto: Guilherme Pucci/Divulgação | Projeto do arquiteto Pietro Terlizzi
O projeto pensou na disposição do sol da manhã e da tarde, além de prever ventilação cruzada, tudo para gerar conforto térmico — Foto: Guilherme Pucci/Divulgação | Projeto do arquiteto Pietro Terlizzi

Para o arquiteto do escritório RMAA, uma boa arquitetura já nasce sustentável, utilizando o mínimo possível de soluções de climatização artificial, com o ar-condicionado.

“Se você faz um bom projeto, trabalha o sombreamento, afastamento, materiais de fachada, boa orientação, boa implantação, ventilação cruzada, aberturas de saída de ar, entradas de luz na posição certa, com tudo isso, você consegue fazer um projeto que vai gastar menos energia e vai ser muito mais agradável para o morador”, finaliza.

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