Cristián Mohaded transforma descartes de madeira em móveis escultóricos e colecionáveis

O território, a memória e o trabalho manual são centrais na trajetória de Cristián Mohaded. Nascido em Recreo, na província de Catamarca, norte da Argentina, o designer, formado em desenho industrial pela Universidad Nacional de Córdoba, desenvolve há duas décadas peças escultóricas que tensionam os limites entre design e arte.

Esse repertório conceitual, pautado pela investigação constante sobre suas raízes e a materialidade latino-americana, o tornou uma voz importante no design contemporâneo global. Em 2021, com a exposição Território Híbrido, no Museo Nacional de Arte Decorativo, em Buenos Aires, revisitou a história do design argentino ao evocar criações de Jean-Michel Frank (18951941) e Ignacio Pirovano (19091980), propondo um diálogo com a produção atual.

O totem Axial, com mais de 2 m de altura, ganhou placas de madeira esculpidas à mão a partir de sobras de freijó e cedro da produção da Etel — Foto: Ruy Teixeira
O totem Axial, com mais de 2 m de altura, ganhou placas de madeira esculpidas à mão a partir de sobras de freijó e cedro da produção da Etel — Foto: Ruy Teixeira

Vivendo entre Milão e Buenos Aires, Cristián colabora hoje com diversas marcas europeias: já criou para a série Objets Nomades, da Louis Vuitton, e trabalhou com a francesa Roche Bobois e as italianas Loro Piana e CCTapis. Nesse trânsito internacional, aproximou-se da Etel, fundada pela designer Etel Carmona e hoje comandada por sua filha, Lissa Carmona.

Cristián Mohaded transforma descartes de madeira em móveis escultóricos

Ao ver o trabalho do argentino em Milão, Lissa identificou uma afinidade de valores – em especial pela maneira como ele articula o design contemporâneo com o fazer artesanal. “Tem algo que me encantou imediatamente: ele trabalha com suas origens, seu repertório nacional e os anseios do mundo contemporâneo”, revela. “Cristián é um artista, como todos os grandes designers.”

O aspecto escultórico dos móveis se revela no bufê, cujas placas de madeira robustas chegam a lembrar rochas — Foto: Ruy Teixeira
O aspecto escultórico dos móveis se revela no bufê, cujas placas de madeira robustas chegam a lembrar rochas — Foto: Ruy Teixeira

O encontro o levou à fábrica da Etel, em Valinhos, SP. Ao observar o trabalho dos artesãos, interessou-se pelos descartes da produção – pequenos pedaços de freijó e cedro, à primeira vista difíceis de reaproveitar. A partir dessas sobras, resgatou o conceito de entropia e propôs a ideia de olhar para dentro para organizar o que está disperso. “Essas madeiras fazem parte de um legado, de uma história e de um modo de produção”, diz Cristián.

O design latino-americano vem atravessando fronteiras faz tempo

— Cristián Mohaded

Na prática, porém, havia um desafio evidente: transformar fragmentos irregulares de madeira em esculturas robustas exigia horas de trabalho manual e um olhar atento aos detalhes – tarefa delegada à dedicada equipe da Etel.

Detalhe de uma das placas revela o cuidadoso entalhe das madeiras — Foto: Ruy Teixeira
Detalhe de uma das placas revela o cuidadoso entalhe das madeiras — Foto: Ruy Teixeira

O resultado é uma coleção composta por nove peças – dois totens, bufê, console, duas mesas, luminária e dois espelhos – que se aproximam de obras de arte. “Elas são extremamente sofisticadas. Nenhuma é replicável”, explica Lissa. Cristián acredita que esse trabalho reforça seus laços culturais com o Brasil. “Existe uma sinergia muito particular entre Brasil e Argentina. Há um DNA que nos une”, reflete. Entre suas referências, cita Fernando e Humberto Campana, decisivos em sua trajetória internacional ao selecioná-lo para o Salone Satellite, em Milão, em 2018.

Designer Cristián Mohaded transforma descartes de madeira em móveis artísticos — Foto: Ruy Teixeira
Designer Cristián Mohaded transforma descartes de madeira em móveis artísticos — Foto: Ruy Teixeira

Para ele, a força do design dessa região reside na capacidade de mobilizar tradições. “O design latino-americano vem atravessando fronteiras faz tempo. Isso tem a ver com a maneira como trabalhamos com os materiais, com nossas histórias e com nossos saberes”, finaliza. A nova coleção comprova com êxito essa visão.

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