Projeto de moradia social em Barcelona reforça o poder da arquitetura e da comunidade

A habitação social sempre foi alvo de vários preconceitos, desde a qualidade dos materiais até as condições de vida dos seus habitantes. Um mito que começa a ser derrubado graças a novos projetos desenvolvidos pelos escritórios Vivas Arquitectos e EXE Arquitectura, em Barcelona.

Trata-se de um complexo com 45 unidades de apartamentos sociais, cada uma com dois quartos, distribuídas em um edifício de oito andares, com área total de 4.465 m² e instalações no térreo. O projeto emprega um sistema modular 3D pré-fabricado cujo design evoca um ambiente industrial, permitindo uma distribuição flexível do espaço por meio de passarelas externas que incentivam a interação da comunidade e criam uma transição fluida entre espaços públicos e privados.

Uma declaração de intenções que aproxima design e honestidade de novas percepções sobre a habitação social.

Projeto de habitação social em Barcelona: ambiente industrial e adaptabilidade

O edifício de oito andares foi erguido por meio de um sistema modular 3D pré-fabricado — Foto: Jose Hevia Blach
O edifício de oito andares foi erguido por meio de um sistema modular 3D pré-fabricado — Foto: Jose Hevia Blach

“Um dos mitos mais persistentes é que habitação social é sinônimo de baixa qualidade arquitetônica e construtiva. Isso não só é falso, como os projetos mais inovadores em termos de sustentabilidade, industrialização e flexibilidade espacial frequentemente surgem da habitação social”, afirma César Vivas, do Vivas Arquitectos. “Outro mito é o de que todas as habitações sociais seguem um modelo único, padronizado e rígido; na realidade, existem projetos cada vez mais versáteis, adaptáveis a diferentes estilos de vida e necessidades. Além disso, a ideia de que as habitações sociais criam guetos se mostra falha quando os projetos seguem critérios de integração e diversidade urbana, promovendo edifícios com espaços comunitários de qualidade que favorecem a inclusão e a interação social”, acrescenta.

A proposta foi concebida como um edifício residencial com uma estrutura modular clara (construção pré-fabricada em 3D), permitindo um uso flexível, tanto agora quanto no futuro, com possíveis mudanças de funcionamento. O projeto também dialoga com a antiga fábrica têxtil existente, adotando uma linguagem arquitetônica industrial marcante que, longe de comprometer o estilo, ainda o reforça.

O projeto foi construído em uma antiga fábrica de tecidos — Foto: Jose Hevia Blach
O projeto foi construído em uma antiga fábrica de tecidos — Foto: Jose Hevia Blach

“A habitação social não só pode, como deve, estabelecer um padrão em termos de design, sustentabilidade e funcionalidade. Embora esses projetos frequentemente lidem com orçamentos mais apertados e recursos limitados, isso não significa que devam abrir mão da qualidade arquitetônica. Pelo contrário: as restrições econômicas impulsionam soluções inovadoras que otimizam o uso do espaço, dos materiais e dos processos construtivos”, comenta Cristian Vivas, sócio de César no Vivas Arquitectos.

Uma carta de amor à transição comunitária

Detalhe da varanda de um dos apartamentos do programa de moradia social de Barcelona  — Foto: Jose Hevia Blach
Detalhe da varanda de um dos apartamentos do programa de moradia social de Barcelona — Foto: Jose Hevia Blach

Ao compor o projeto, os arquitetos propuseram uma declividade a partir da via principal, do corredor, do pórtico de entrada e das passarelas de acesso às casas — compreendidas como “passagens externas” em altura — que resolvem a transição entre a comunidade e o lar. As passarelas cumprem a dupla função de filtrar o acesso às unidades e, ao mesmo tempo, fortalecer as relações entre vizinhos por meio da apropriação desses espaços intermediários.

“A arquitetura tem um impacto direto na qualidade de vida das pessoas, e projetar espaços que promovam a interação e o senso de comunidade é fundamental para fortalecer a coesão social. Incorporar espaços intermediários — como pátios, galerias, terraços ou passarelas — não só melhora a convivência, como também proporciona segurança, bem-estar e um sentimento de pertencimento à comunidade”, afirma César Vivas.

O projeto foi construído em uma área industrial da cidade — Foto: Jose Hevia Blach
O projeto foi construído em uma área industrial da cidade — Foto: Jose Hevia Blach

Além disso, em um contexto onde a solidão e o isolamento são desafios crescentes nas cidades, a criação de espaços que estimulem a socialização contribui para a saúde emocional dos moradores e para a resiliência das comunidades.

O projeto também prevê espaços comunitários complementares no térreo e na cobertura do edifício. Isso inclui áreas multiuso, um amplo terraço comum com áreas de jardim e varandas sombreadas para uso coletivo.

Dualidade construtiva e sustentabilidade

O projeto abrange um total de 104 módulos 3D pré-fabricados, transportados e montados no local em apenas 15 dias — a solução, inclusive, reduz significativamente o tempo de construção. Graças à pré-fabricação de todos os materiais, foi possível otimizar os prazos por meio de um planejamento preciso, execução simultânea com as obras no local e redução de deslocamentos.

A sala de uma das unidades do edifício — Foto: Jose Hevia Blach
A sala de uma das unidades do edifício — Foto: Jose Hevia Blach

Isso também ajudou a reduzir os custos de construção (estrutura leve e fundações reduzidas), garantir maior controle de qualidade (com visitas à fábrica), mitigar o impacto ambiental (por meio da redução de resíduos), assegurar o reaproveitamento dos materiais ao fim da vida útil do edifício e melhorar a segurança e o conforto nos canteiros.

Mais um ângulo do edifício de oito andares que deve abrigar 45 famílias — Foto: Jose Hevia Blach
Mais um ângulo do edifício de oito andares que deve abrigar 45 famílias — Foto: Jose Hevia Blach

A pré-fabricação garantiu a execução precisa e a durabilidade dos materiais. Além disso, permitiu que a obra fosse concluída em um tempo total de apenas 13 meses. As instalações foram planejadas para minimizar os custos de energia e manutenção. Seu bom funcionamento foi verificado ainda na fábrica, e os módulos foram impermeabilizados na parte superior para garantir a segurança do transporte e da montagem, com o uso de um guindaste móvel de alta resistência.

Detalhe da construção rápida com sistema modular 3D pré-fabricado — Foto: Jose Hevia Blach
Detalhe da construção rápida com sistema modular 3D pré-fabricado — Foto: Jose Hevia Blach

Com certificação energética A, o edifício combina estratégias passivas e ativas para reduzir o consumo. Seu design bioclimático otimiza a climatização e incorpora sistemas eficientes, como iluminação LED, energia aerotérmica e painéis fotovoltaicos, para alcançar um consumo de energia não renovável próximo de zero.

expresso.arq com informações de Alberto Piernas Medina

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