Retrofit do Edifício Virgínia pretende ser célula regenerativa de seu entorno
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Em julho de 2024, o programa de revitalização do centro de São Paulo completa 3 anos e tem a ambição de dar destaque a endereços históricos da capital paulista, ressignificando os prédios por meio de retrofits e estimulando a vida na região central.
É o caso do antigo edifício da Telesp, que agora será um condomínio residencial com galeria de lojas e restaurantes. Outra iniciativa é a requalificação do Edifício Virgínia, localizado na República.
Finalizado em 1951, o prédio tem projeto assinado pelo arquiteto José Augusto Bellucci para Virginia Matarazzo Ippolito e contava originalmente com quatro apartamentos por andar, com metragens de 160 m² e 180 m².
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Agora, o retrofit propõe valorizar a história do edifício ao passo que também reflete o estilo de vida contemporâneo e garante uma simbiose com o ambiente circundante.
Por exemplo, enquanto a fachada modernista será restaurada a fim de manter as suas características originais, os interiores serão transformados. Haverá no novo projeto 121 unidades residenciais remodeladas, com tamanhos que variam entre 26 m² e 182 m².
Para entender melhor o projeto de retrofit do Virgínia, vamos primeiro dar um passeio na história deste edifício que é um marco da arquitetura paulistana.
Edifício Virgínia: primeiros anos, abandono e ressurgimento
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O projeto original do Virgínia foi desenvolvido a pedido de Virginia Matarazzo Ippolito pelo arquiteto José Augusto Bellucci – que já havia realizado outros trabalhos para a família, incluindo prédios, casas, móveis e reformas. A intenção era usar o prédio para gerar renda de aluguéis.
Mas a lista de ilustres não finda no arquiteto e cliente. O engenheiro responsável pela obra foi Luiz Maionara, criador do primeiro pavilhão da Bienal no terreno onde hoje se encontra o MASP. Seu estagiário, à época, era ninguém menos que Paulo Mendes da Rocha.
Em suas primeiras décadas de vida, o Virgínia de 11 pavimentos, dois blocos de apartamentos e quatro lojas no térreo foi um residencial de alto e médio padrão. A configuração original era a seguinte: um bloco tinha entrada pela rua Martins Fontes e abrigava os apartamentos maiores, de 180 m² e 160 m² com três quartos. Já o outro tinha entrada pela Álvaro de Carvalho e contava com unidades menores, de 60 m² e um quarto.
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Situado ainda no eixo da rua Augusta, o prédio é considerado uma verdadeira joia modernista da capital paulista, a começar por sua fachada. Reticulada, ela abriga uma sequência ininterrupta de varandas de diferentes dimensões, o que confere ritmo ao conjunto e o torna leve e agradável aos olhos.
Contudo, tornou-se mais uma vítima do declínio da região central de São Paulo a partir da década de 1970. O Virgínia passou então de residencial para comercial, abrigando escritórios dos mais variados tipos – inclusive o de Geraldo Vandré. Porém, mesmo essa mudança não “segurou as pontas”. Aos poucos, o prédio foi sendo abandonado e fechou as suas portas em 2019.
No ano seguinte, a Somauma, incorporadora especializada em retrofit, entrou em cena para mudar essa história. A proposta é devolver ao edifício a sua função residencial, conferir-lhe vida e dinamismo e estabelecer uma conexão entre o prédio e seu entorno.
O retrofit
O retrofit do Virgínia é um trabalho que integra um time de renome: o escritório Metrópole Arquitetura no projeto arquitetônico, o arquiteto Vitor Penha na criação e nos interiores, a paisagista e gestora ambiental Carla Oldemburg no projeto paisagístico e o escritório Nitsche Arquitetos na intervenção artística.
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Para Vitor Penha, sócio e diretor de criação da Somauma que assina também o apartamento conceito, o projeto do Virgínia é mais que um retrofit.
“No retrofit, poderíamos manter a fachada e esquecer toda a memória que há dentro ou, eventualmente, criar mais um muro na cidade. Mas fazemos células regenerativas, então essa é a função do Virgínia”, explica.
Com uma área permeável no térreo, o edifício tem mais de 1.000 m² de espaço multifuncional, que inclui academia, lavanderia, bicicletário e um bosque na cobertura, que conta também com um restaurante aberto ao público.
Além disso, o retrofit prevê uma configuração que receba lojas, livrarias e outros restaurantes e empreendimentos criativos a partir de uma cautelosa curadoria.
“Existe uma relação de ocupação com a região, de modo que o prédio seja uma célula regenerativa como um ponto de acupuntura onde, a partir do estímulo daquele ponto, você regenera todo o entorno. Esse é o princípio da Somauma”, diz Vitor.
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Ao ressignificar o edifício, o retrofit estimula novos usos tanto para o prédio quanto para os seus arredores, que ganham mais vida. “Se há mais gente morando no prédio, há também mais segurança, mais gente circulando na rua em direção à própria casa, há serviços e comércio e atividades voltadas para quem mora ali”, afirma Octavio Pontedura, sócio da Refúgios Urbanos, imobiliária que comercializa as unidades do empreendimento.
“Então o impacto do retrofit acaba sendo muito maior do que o edifício por si só, que também se torna belo ou, eventualmente, recupera a sua beleza”, completa.
Ele conta que a fachada ativa – ou “interativa”, como Vitor prefere chamar – é uma característica do Virgínia desde o princípio, e o projeto deve levá-la a outro patamar com a criação de uma galeria conectando as duas ruas.
Silvio Oksman, do Metrópole Arquitetura, comenta sobre o térreo, que permite um circuito urbano por dentro do edifício, resgatando a tradição dos edifícios modernos no centro de São Paulo, que tem inúmeras dessas passagens urbanas.
“Nesse sentido, nosso projeto busca ser o mais discreto possível, revelando as qualidades já existentes no prédio e disponibilizando apartamentos menores, que respondem às demandas da vida contemporânea de uma metrópole como São Paulo”, comenta.
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Ele diz também que não viu necessidade de deixar uma marca contundente de arquitetura contemporânea no edifício, mas que o objetivo principal era torná-lo habitável e aberto para a cidade da melhor maneira possível.
Ainda assim, há um diálogo constante entre o antigo e o novo. No décimo primeiro andar, as plantas dos apartamentos originais serão respeitadas e haverá apenas pequenas adaptações ao uso cotidiano da vida moderna.
“As unidades estão configuradas de uma maneira que atendem a várias demandas diferentes dentro do mesmo edifício, e eu acho isso genial. Ao invés de ser um prédio somente de estúdios, o que seria atualmente uma escolha muito mais natural de mercado, a Somauma escolhe outro caminho para poder abraçar mais perfis e responder a outras demandas”, afirma Octavio.
Além disso, a Somauma tem tentado viabilizar o resgate dos desenhos antigos de José Augusto Bellucci para projetar as luminárias como eram originalmente, mas com uma tecnologia mais atual. “No rooftop, terá um restaurante todo feito com madeira engenheirada, uma tecnologia nova de construção, e um bosque que resgata a Mata Atlântica”, diz Vitor.
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O projeto paisagístico se baseia em uma extensa lista de espécies com árvores, palmeiras, arbustos, forrações e trepadeiras. Mas o destaque, para Carla, fica para as árvores frutíferas, com flores e aromas que atraem animais a fim de estimular ali um pequeno bioma.
A ideia é que as pessoas, seja os moradores, seja os clientes do restaurante, deliciem-se com as frutas, colhendo-as direto do pé. Para isso, cada árvore é acompanhada de um QR code, que conta as características de cada espécie.
Na cobertura há também plantas de forração típicas da Mata Atlântica, além de diversos pontos verdes localizados no hall de entrada. Já na parte externa do edifício, o calçadão repleto de árvores e bancos se tornou uma praça que convida as pessoas à interação.
“Quando chegamos na natureza e sentimos conforto é porque na memória da nossa ancestralidade guardamos essa sensação. Foi isso que buscamos no Virgínia: trazer essa ligação entre o íntimo da nossa emoção e o verde que propomos”, conta Carla.
Economia circular, upcycling e sustentabilidade
É importante dizer que o projeto foi construído sobre três pilares: economia circular, upcycling e sustentabilidade. Exemplo disso é que todos os apartamentos serão entregues com piso de taco original restaurado e bancadas feitas com granilite oriundo de resíduos das demolições internas do prédio.
Além disso, cozinhas e banheiros terão cerâmica de primeira linha a fim de evitar o descarte de materiais e promover a durabilidade.
No apartamento decorado, a mesa de centro foi feita com pedaços do piso de madeira retirado do próprio Virgínia. Já os tapetes e tecidos provêm de materiais reciclados ou reaproveitados, como excedentes da indústria têxtil e garrafas PET. Na academia, por sua vez, a borracha do piso vem de excedentes da indústria farmacêutica.
“O prédio tem uma construção que traz soluções que resolvem, por exemplo, a questão térmica. As varandas profundas fazem uma proteção de incidência solar significativa e os apartamentos são frescos mesmo no verão”, acrescenta Silvio à lista de estratégias sustentáveis.
Os imóveis retrofitados do prédio já foram lançados pela Refúgios Urbanos e 60% das unidades já foram vendidas. A previsão de término da obra é para 2025.
expresso.arq com informações de Yara Guerra


