O Cerrado armazena até seis vezes mais carbono do que a Amazônia, diz estudo
O Cerrado guarda carbono milenar e pode armazenar até seis vezes mais do que a Floresta Amazônica. É o que indica um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicado pela revista New Phytologist. A descoberta joga luz sobre a importância da preservação desse bioma, que pode passar a emitir carbono se degradado.
A motivação da pesquisa veio justamente do interesse em reforçar a urgência de conservação do bioma:
“Já havia indícios de que áreas úmidas do Cerrado acumulam grandes quantidades de carbono. No entanto, ainda não sabíamos a magnitude desse acúmulo nem sua importância em escala nacional”, conta Larissa Verona, primeira autora do artigo.
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Para entender de que forma esse carbono estava presente, os pesquisadores coletaram amostras de solo na região da Chapada dos Veadeiros, em profundidades de até quatro metros em veredas e campos úmidos – formações presentes no Cerrado que contam com grande presença de água.
Em laboratório, foram calculadas a porcentagem e a idade do carbono presente nas amostras. “Também medimos quanto desse carbono é liberado ao longo do ano. Ao se decompor no solo, ele é convertido em dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄), dois importantes gases de efeito estufa. Por isso, monitoramos esses fluxos nas estações úmida e seca”, explica Larissa.
Para mapear a distribuição das áreas úmidas pelo Brasil, os pesquisadores utilizaram dados de satélite e machine learning.
O resultado surpreende: o carbono está distribuído por uma área de 160 mil km² de Cerrado, com uma concentração de 1,2 mil toneladas por hectare. “Isso equivale a aproximadamente seis vezes o carbono armazenado na vegetação da floresta amazônica na mesma área”, reforça Larissa.
Este carbono pode atingir idades de até 20 mil anos. “É um processo muito lento em que o Cerrado tem mantido condições favoráveis ao longo de dezenas de milhares de anos”, esclarece a pesquisadora.
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O armazenamento do carbono acontece por uma combinação de fatores das áreas de veredas e dos campos úmidos: muita água, solo exposto e pouco oxigênio. O cenário reduz a ação de microrganismos que fazem a decomposição da matéria orgânica, composta por carbono e demais elementos.
“Como resultado, folhas, raízes e madeira decompõem muito lentamente, acumulando-se no solo ao longo do tempo”, aponta Larissa. “Encontramos, por exemplo, um pedaço de madeira a cerca de 3 metros com uma idade estimada de 7,6 mil anos. Isso ilustra como a matéria orgânica pode permanecer preservada por milhares de anos”, complementa.
Apesar do volume, a presença do carbono é instável, já que pode se decompor rapidamente em momentos de seca.
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“Esses sistemas são altamente sensíveis a alterações no regime hídrico. Drenagem, rebaixamento do lençol freático, expansão agrícola e irrigação podem expor esses solos ao oxigênio, acelerando a decomposição da matéria orgânica e liberando grandes quantidades de CO₂ e metano para a atmosfera”, aponta o orientador Rafael Oliveira.
Assim, o carbono armazenado é sensível às ações humanas e às mudanças climáticas, que alteram a sazonalidade das chuvas. “Uma vez degradados, esses sistemas podem passar de sumidouros de carbono a fontes de emissões, além de perder sua capacidade de regular a água”, explica Rafael.
O principal caminho é fazer cumprir a legislação já existente. Embora protegidos pela lei brasileira como Áreas de Preservação Permanente (APPs), esses ambientes ainda carecem de reconhecimento e mapeamento adequados no território.
“O desafio não é criar novas regras, mas tornar visível o que hoje é invisível, reconhecer essas áreas como sistemas associados ao afloramento do lençol freático e incorporá-las de forma efetiva no planejamento ambiental, e territorial”, opina o orientador.
expresso.arq com informações de Bianca Camatta


