Piso de caquinhos: a curiosa história por trás do símbolo da arquitetura paulistana
Pequenos fragmentos de cerâmica quebrada marcaram as residências brasileiras entre as décadas de 1940 e 1950. Ao lado do cobogó e dos muxarabis, o piso de caquinhos se tornou um ícone da arquitetura brasileira e parte da paisagem doméstica paulistana. Caminhando por São Paulo, ou até mesmo pela casa da avó, é provável que você já tenha encontrado o mosaico de fragmentos coloridos cobrindo quintais, varandas e salas.
Com jeito de casa de vó, o revestimento surgiu em meio à efervescência industrial da capital paulista. Mas não foi concebido por um grande arquiteto nem nasceu como uma proposta capaz de transformar a arquitetura brasileira. Sua origem está, na verdade, em uma série de acasos e na necessidade de reaproveitar um material que seria descartado.
A história do piso de caquinhos
“O piso de caquinhos nasceu entre as décadas de 1940 e 1950, na região do ABC Paulista. À época, a cidade tinha duas grandes indústrias cerâmicas, sendo a mais importante a Cerâmica São Caetano, instalada desde 1913 e referência em telhas, tijolos e ladrilhos. As fábricas não criaram o piso de caquinhos de propósito: elas criaram, sem querer, a matéria-prima dele”, explica Silvia Aline Rodrigues, arquiteta e historiadora.
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Naquele período, a cerâmica era um dos materiais de destaque da indústria paulista. Na Cerâmica São Caetano, que encerrou as atividades em 1999, os pisos estavam entre os principais produtos da fábrica, favorecidos pelo baixo custo. A produção incluía placas quadradas de 20 x 20 cm, principalmente nas cores vermelho, preto e amarelo.
A cartela de cores também refletia uma hierarquia de preços. O vermelho era o mais popular e barato, enquanto preto e amarelo custavam mais e apareciam como detalhes. Daí a combinação tão característica dos quintais revestidos de caquinhos: uma base terracota pontuada por fragmentos escuros e amarelos.
O processo industrial, porém, gerava peças quebradas ou defeituosas. Durante a fabricação, queima e transporte das lajotas cerâmicas, uma parcela considerável da produção era perdida, transformando-se em material sem uso para as fábricas.
Foi nesse cenário que os fragmentos ganharam uma segunda vida. “Trabalhadores da fábrica passaram a reaproveitar esses fragmentos para pavimentar os quintais de suas casas. Depoimentos de trabalhadores preservados pela USP também registram essa prática, inclusive a história de uma trabalhadora que teria solicitado os cacos à fábrica para revestir sua própria casa”, conta Ana Paula Campos Gurgel, arquiteta, urbanista e professora adjunta do Departamento de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília.
Segundo o arquiteto William Bittar, pesquisador na área de arquitetura no Brasil e conservação e restauração do patrimônio cultural, uma das referências sobre o tema é o trabalho de Manoel Henrique Botelho, autor de Concreto armado eu te amo. O livro relaciona o uso dos caquinhos ao reaproveitamento das lajotas quadradas e baratas, sobretudo nas tonalidades avermelhadas e pretas.
Conforme o arquiteto William Bittar, pesquisador na área de “Arquitetura no Brasil e Conservação e Restauração do Patrimônio Cultural”, uma fonte recorrente é o trabalho de Manoel Henrique Botelho, autor do livro Concreto armado eu te amo, que atribui a utilização do piso de caquinhos ao reaproveitamento das lajotas quadradas e baratas, principalmente em tonalidades avermelhadas e pretas.
“Devido à sua baixa resistência à tração, o material se partia na própria manufatura, gerando refugos. Assim como sobras de mármores e granitos ainda são reutilizadas, os cacos eram cedidos ou vendidos a baixo custo”, acrescenta Bittar.
Os fragmentos passaram, então, a aparecer em pisos internos, varandas e muros de residências modestas. Na metade do século XX, os bairros operários de São Paulo eram marcados por lotes compridos, com quintais generosos na frente e nos fundos que precisavam ser pavimentados.
“A maior parte desses trabalhadores não tinha renda para revestir essas áreas externas com as lajotas cerâmicas nobres produzidas na época”, explica Suzane Miritz, docente do curso técnico em Design de Interiores do Senac EAD.
Ao organizar os cacos em desenhos geométricos ou mais orgânicos, os moradores criaram uma espécie de mosaico doméstico. Cada composição era diferente da outra, resultado tanto da variedade dos fragmentos quanto da liberdade de montagem. “Um caco quebrado nunca é igual ao outro, e isso, para quem constrói com as próprias mãos, é um convite. Não havia um manual, então cada morador virava autor da própria composição”, diz Silvia.Selecione suas newsletters
Além do baixo custo, o material apresentava vantagens práticas: era resistente à chuva e fácil de lavar. Os fragmentos descartados pelas fábricas acabaram oferecendo uma solução acessível para pavimentar os quintais e aproximaram indústria, trabalho, moradia e reaproveitamento de materiais.
A prática logo se espalhou pela vizinhança e ultrapassou as vilas operárias. “Grandes arquitetos modernistas passaram a enxergar valor estético e autenticidade técnica nesse mosaico, ajudando a disseminar o piso de caquinho nas residências de classe média urbana paulista e, posteriormente, em todo o Sudeste do Brasil”, afirma Suzane.
A trajetória, portanto, foi da fábrica para a casa operária, da casa operária para a vizinhança e, depois, para a classe média. “Antes de ser tendência, o caquinho foi necessidade”, resume a professora.
Com o aumento da procura, a relação das fábricas com os resíduos também mudou. Os cacos deixaram de ser simplesmente doados e passaram a ser acondicionados em caixas de madeira ou papelão e vendidos por cerca de 30% do valor do piso inteiro. Na década de 1950, a demanda chegou a um ponto curioso: a quantidade de sobras já não era suficiente para abastecer o mercado.
Decoração de cozinha:
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“Um fato curioso é que, para suprir os pedidos, as próprias indústrias passaram a quebrar propositalmente peças perfeitas e inteiras, vendendo as caixas de cacos”, conta Suzane.
O episódio ajuda a explicar uma das muitas contradições na história do revestimento: aquilo que nasceu como descarte chegou a ser tão procurado que, em determinado momento, o metro quadrado dos caquinhos custava mais do que o da lajota inteira.
Também há diferentes versões sobre a origem do piso, envolvendo operários, uma trabalhadora da fábrica e até o arquiteto Rino Levi. Não existem, porém, evidências suficientes para atribuir sua invenção ou difusão a uma única pessoa. A história parece ter sido construída de maneira coletiva, entre reaproveitamento, criatividade e experimentação.
Segundo pesquisa do arquiteto Lúcio Gomes Machado, professor doutor do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Rino Levi era amigo dos proprietários da Cerâmica São Caetano e teria conhecido os fragmentos durante uma visita à fábrica.
O arquiteto teria pedido para utilizar o material em uma de suas obras. “O ponto interessante da história é que o uso por um arquiteto reconhecido teria ajudado a legitimar esteticamente um material que até então era associado ao descarte e às casas operárias”, observa Ana Paula.
Embora seja uma história recorrente, não há documentação suficiente para confirmar que Rino Levi tenha sido responsável pela criação ou pela difusão dos pisos de caquinhos. Para Ana Paula, a própria origem do revestimento mostra que a arquitetura não precisa ser inventada ou legitimada por arquitetos para ganhar valor. Às vezes, ela nasce no chão, pelas mãos de quem habita.
O piso de caquinhos como legado da arquitetura brasileira e da década de 1950
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Com a popularização, o piso de caquinhos passou a ser associado à arquitetura paulistana e a uma determinada ideia de casa brasileira. Sua história, no entanto, faz parte de uma tradição muito mais ampla de reaproveitamento de fragmentos cerâmicos.
“Na Antiguidade, os romanos utilizavam o cocciopesto, feito com fragmentos de cerâmica, tijolos ou telhas, principalmente em pisos e estruturas resistentes à umidade. Mais tarde, no final do século XIX, o trencadís catalão, associado a Antoni Gaudí, transformou a cerâmica quebrada em elemento decorativo. Portanto, o uso de cacos não é uma invenção brasileira, embora o piso de caquinhos tenha adquirido uma expressão particular no Brasil”, explica Ana Paula.
A técnica também guarda relação com o piso de pedra portuguesa. Em Portugal, a tradição era feita com sobras de mármore; no Brasil, a lógica foi adaptada para outro material.
“A criatividade brasileira transforma a necessidade em invenção. A irregularidade dos fragmentos oferecia algo que as peças inteiras e padronizadas não ofereciam: variação. Diferentes formas, tamanhos, bordas e tonalidades permitiam combinações e composições diversas. Assim, o morador deixava de ser apenas consumidor de um produto industrializado e passava a participar da criação do próprio piso, escolhendo e organizando os fragmentos”, acredita Ana Paula.
O declínio veio algumas décadas depois. A partir dos anos 1970, a mudança nos hábitos de moradia da classe média, que passou a ocupar mais apartamentos e condomínios, reduziu a presença dos quintais onde o revestimento era mais utilizado.
Nos últimos anos, porém, os caquinhos voltaram a aparecer em projetos de arquitetura e interiores. O material deixou de ser visto apenas como uma solução econômica e passou a ser valorizado justamente pelas marcas de sua origem: irregularidade, cor, memória e possibilidade de composição. O que um dia foi considerado defeito agora pode ser um dos elementos que dão personalidade a uma casa.
“Eu diria que o princípio veio de fora, mas a linguagem, como cores terracota, preto e amarelo, escala doméstica e espírito de quintal, é genuinamente nossa”, conclui Silvia.
expresso.arq com informações de Adriana Marruffo


