Arquitetura de São Luís: 14 construções que revelam a rica história da cidade
A arquitetura de São Luís é um testemunho vivo da história brasileira. Do traçado colonial às linhas contemporâneas da Península, a capital maranhense preserva marcas profundas de suas transformações econômicas, sociais e culturais.
“Esses marcos arquitetônicos estão atrelados ao desenvolvimento econômico do Maranhão e de sua capital como principal porto escoador de açúcar, arroz, algodão, tecidos, minérios e soja. A partir dessas produções a cidade se desenvolveu”, contextualiza José Marcelo do Espírito Santo, arquiteto, professor de História da Arte e da Arquitetura da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM).
Todo esse desenvolvimento urbano se desenha como uma nítida linha do tempo. “O século 17 é representado pela arquitetura colonial portuguesa. O século 19, por edifícios ecléticos e neoclássicos. O século 20 com edifícios art déco, modernos e brutalistas, e o século 21, com edifícios contemporâneos e novos bairros”, acrescenta Grete Pflueger, arquiteta, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioespacial e Regional (PPDSR) da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).
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Os detalhes que costuram a identidade visual de São Luís
As características da arquitetura residencial permaneceram as mesmas no Centro Histórico da cidade, desde o estilo pombalino do século 18 até a estética moderna. “O que mudou foram as fachadas. Elementos como mirantes, azulejaria e uso da pedra de Lioz (a cantaria portuguesa) se fazem presentes em maior ou menor quantidade, dependendo do estilo”, detalha José Marcelo.
Conheça, a seguir, obras emblemáticas que sintetizam a evolução, a história e a identidade da capital maranhense:
1. Palácio dos Leões
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Evoluindo de uma fortaleza de madeira no século 17 para uma imponente estrutura, o marco zero institucional de São Luís teve o traçado original desenhado pelo engenheiro Francisco de Frias Mesquita. A volumetria atual destaca-se pela simetria da fachada palaciana, marcada por uma monumental colunata que sustenta o frontão superior, além de pátios e jardins assinados por nomes como Burle Marx, Acácio Gil Borsoi e Janete Costa. Hoje, o grande destaque do prédio reside em seus salões nobres, decorados com espelhos de cristal e mobiliário francês.
Mais do que a beleza, o endereço carrega as marcas das primeiras disputas territoriais da região. “O verdadeiro marco arquitetônico, no contexto da história urbana de São Luís, é o núcleo fundacional da cidade na área equivalente ao Palácio dos Leões. Esse foi o local da disputa territorial entre franceses, holandeses e portugueses, lugar do efêmero projeto da França Equinocial e da construção do marco do poder colonial”, afirma Grete.
2. Conjunto de casarões e sobrados do Centro Histórico
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Embora o desenho ortogonal das vias comerciais da Praia Grande remonte ao alinhamento projetado pelo engenheiro militar Francisco de Frias Mesquita em 1615, as imponentes residências que dão vida ao local só foram erguidas no século seguinte. As fachadas revestidas com peças cerâmicas europeias surgiram como proteção contra as fortes chuvas equatoriais da região, gerando um cenário único que rendeu à capital o seu maior reconhecimento internacional.
A herança dessas construções revela um passado de riqueza comercial e contrastes sociais. “É o melhor da arquitetura pombalina vinda de Lisboa e que hoje se encontra preservado. É mais original do que a arquitetura da mesma época e estilo preservados em Lisboa, pois aqueles da capital lusitana foram alterados ao longo da história”, comenta José Marcelo. Toda essa imponência foi erguida “no período relativo ao apogeu da colônia e da exportação do algodão, construídos com a mão de obra do trabalho escravo de povos africanos”, conta Grete.
3. Convento das Mercês
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A fundação de um dos principais conjuntos de arquitetura colonial ibérica confunde-se com a organização religiosa na província, iniciada a partir do projeto executado pelos frades mercedários João Cerveira e Marcos da Natividade em 1654. O complexo destaca-se por sua solidez construtiva em alvenaria de pedra, cal e óleo de baleia, o que permitiu ao edifício resistir aos séculos alternando funções severas como mosteiro, hospital, quartel militar e prisão.
Atualmente, funciona como um dinâmico polo cultural que abriga bibliotecas, museus e a sede da Fundação da Memória Republicana Brasileira. Os imensos pátios internos e as galerias de arcos coloniais — inteiramente recuperados em uma restauração do final do século 20 — servem de palco para grandes eventos literários.
4. Palácio de La Ravardière
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A atual sede do executivo municipal nasceu por volta de 1689 como o antigo edifício da Casa de Câmara e Cadeia, cuja estrutura inicial foi comandada pelo engenheiro português Simão Estácio da Silveira. O imponente imóvel de dois pavimentos, rebatizado em homenagem ao líder francês Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière — o líder da expedição francesa e fundador de São Luís — exibe um desenho de planta retangular simétrica integrada à malha viária da Praça Pedro II.
O refinamento estético da construção reflete a transição dos séculos na capital. A sobriedade das antigas celas cedeu espaço a uma fachada marcada pelo ritmo de janelas em arco no pavimento térreo, enquanto o andar superior ostenta sacadas e relevos ornamentais.
5. Catedral de São Luís (Igreja da Sé)
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Erguida sob o comando espiritual e o desenho original do padre jesuíta João Felipe Bettendorf, a histórica matriz religiosa de São Luís apresenta grossas paredes de cantaria de pedra. O espaço recebeu, em sua ornamentação interna, o trabalho do mestre entalhador português Manuel Mansos, enquanto o visual externo foi inteiramente remodelado no início do século 20 sob a assinatura do arquiteto italiano Gastão de Ornelas.
Essa mistura de interferências gerou uma interessante dualidade na construção. “É um marco do período Barroco, principalmente seu Altar-Mor, que possui um tombamento específico devido sua importância. A fachada foi alterada em 1922 e é mais um exemplo do ecletismo da cidade”, destaca José Marcelo.
6. Antigo Solar dos Lisboa (Atual Escola de Música Lilah Lisboa)
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Este palacete reflete o desenvolvimento das moradias aristocráticas da capital, com estrutura original de pedra e cal erguida na transição dos séculos 18 e 19 por autor desconhecido. No início do século 20, o comerciante português Emílio José Lisboa adquiriu o imóvel e financiou as reformas que adicionaram elementos ecléticos, ornamentos florais, sacadas em ferro forjado e um terraço lateral ajardinado voltado para a Rua da Estrela.
Em 1992, o Governo do Estado do Maranhão comprou o casarão e executou obras de restauro para a instalação de um polo educacional, inaugurado em maio de 2001. Atualmente, o local abriga a Escola de Música do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, instituição pública de ensino e aprendizado da música erudita e popular maranhense.
7. Teatro Arthur Azevedo
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A concepção do edifício começou por iniciativa dos comerciantes portugueses Eleutério Lopes da Silva Varela e Estevão Gonçalves Braga. Executado a partir de planos inspirados na arquitetura europeia, o principal destaque reside em sua sala de espetáculos disposta em formato de ferradura — adotado para otimizar a visibilidade do palco e garantir a propagação acústica ideal do som durante as apresentações.
“A pouca produção da arquitetura Neoclássica em São Luís é compensada pela presença do Teatro Arthur Azevedo, um dos mais antigos em funcionamento do Brasil. Sua fachada é uma aula das proporções neoclássicas utilizadas no período”, analisa José Marcelo. Posteriormente, o monumento recebeu a forte marca do ecletismo, como guirlandas, pináculos e florões.
8. Palacete Gentil Braga
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Edificado a partir de 1820 na antiga área do Canto da Viração, destaca-se como exemplar de transição eclética no Centro Histórico. A volumetria de porão alto alia as paredes coloniais espessas a uma fachada revestida por azulejos portugueses, cujo visual apresenta vãos com arcos em linha gótica e sacadas adornadas em ferro forjado. O coroamento da estrutura possui um mirante em torre, elemento arquitetônico residencial de prestígio social que oferece vista panorâmica da cidade.
O imóvel pertenceu ao vice-cônsul inglês John Heskett e, em meados do século 19, tornou-se residência do escritor maranhense Gentil Homem de Almeida Braga, servindo de palco para saraus intelectuais de relevância cultural. Internamente, é estruturada em torno de um amplo pátio central descoberto, que assegura o resfriamento passivo e a ventilação contínua dos cômodos. Atualmente, o monumento pertence à Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
9. Casa das Tulhas
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O local originou-se no início do século 19 como um terreiro público utilizado por lavradores para a venda de tulhas de grãos e farinha. O mercado ganhou a configuração estrutural em 1861, quando foi reconstruído em alvenaria de pedra pela Companhia Confiança Maranhense. O projeto espalhou portões de acesso por todas as faces do quarteirão, estratégia planejada para organizar o fluxo de mercadorias.
A edificação tem um pátio central descoberto com formato retangular circundado por corredores em arco e boxes de madeira. O mercado da Praia Grande abriga pontos de venda culinários, incluindo doces tradicionais, bebidas típicas e artesanato maranhense.
10. Fábrica Cânhamo (Atual Ceprama)
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O surgimento deste complexo remonta ao ano de 1891, quando o industrial maranhense Cândido Ribeiro fundou a Companhia de Fiação e Tecidos de Cânhamo. Rompendo com o partido do casario colonial residencial da capital, a estrutura fabril destaca-se pela ampla área coberta sustentada por colunas esguias de ferro, além de extensas fachadas rebocadas e simétricas com aberturas em arco para iluminação natural.
“A arquitetura industrial ludovicense, primeira atividade econômica a trazer o Ecletismo para o Maranhão ainda no século 19, tem na Fábrica Cânhamo um exemplo que permite conhecer os espaços dessas edificações, com seus amplos espaços internos livres, com estruturas em ferro produzidas na Inglaterra”, aponta José Marcelo. Após o encerramento das atividades na década de 1970, o local passou por restauro e, em 1989, foi transformado no Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão (Ceprama).
11. Antiga Estação Ferroviária de São Luís (Sede da RFFSA)
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Inaugurado em 1929 na Avenida Beira-Mar, este antigo terminal ligava a capital ao interior pela Estrada de Ferro São Luís–Teresina até sua desativação em 1986. Aprovada pelo engenheiro Teixeira Brandão, então diretor da ferrovia, a estrutura destaca-se pelas linhas art déco, janelas simétricas e pórtico com colunas duplas.
Restaurado em 2020, o imóvel abriga hoje o Complexo Cultural RFFSA sob gestão estadual. O prédio da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA) sedia o Museu Ferroviário e Portuário do Maranhão, preservando o acervo histórico de locomotivas, além de dispor de espaços para exposições e iniciativas de economia criativa.
12. Sede dos Correios (atual sede integrada do Ministério Público do Maranhão)
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O aparecimento de novas técnicas construtivas na tradicional Praça João Lisboa ganhou forma a partir do traçado assinado pelo arquiteto Raphael Galvão. Concluído em 1935, o imóvel foi um dos pioneiros erguidos em concreto armado na capital. A quebra com o padrão de telhados de barro e paredes de pedra gerou forte debate na época, o que resultou no embargo temporário de sua construção.
A quebra visual provocada pela obra marcou a paisagem urbana da capital. “No século 20, as modernidades chegam com edifícios institucionais dentro do centro, com influências do art déco”, resume Grete. O imóvel foi totalmente remodelado por dentro para receber a sede integrada do Ministério Público do Maranhão.
13. Edifício João Goulart (Antiga sede do INSS)
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O desejo de modernização que buscava fazer as capitais crescerem para o alto ganhou forma Praça Pedro II a partir de planos desenhados pelo engenheiro Mário Henrique Glicério Torres. Inaugurado em setembro de 1960, após três anos de obras coordenadas pela divisão técnica pública, o gigante de 13 tornou-se o primeiro arranha-céu construído bem no meio do núcleo antigo de São Luís.
Essa imponente estrutura de concreto adota uma fachada totalmente reta, marcada por longas fileiras horizontais de janelas de vidro que cobrem toda a sua extensão. Após passar décadas abandonada, foi inteiramente recuperada em um recente projeto de revitalização para servir como sede administrativa de órgãos do governo estadual.
14. Edifício Caiçara
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O início da moradia vertical na cidade ganhou forma a partir do ousado projeto executado pela Construtora Caiçara Ltda. Construído entre 1961 e 1967 na Rua Oswaldo Cruz (eixo da popular Rua Grande), o grande bloco residencial destaca-se por sua estrutura erguida sobre pilotis, que permitiu deixar a base do edifício totalmente aberta e livre de paredes externas.
O térreo aberto recebeu a primeira galeria comercial integrada a um edifício de apartamentos da cidade, desenho que protege os pedestres do sol e da chuva em um corredor coberto de lojas.
Desafios da preservação dos marcos arquitetônicos
Manter de pé esse acervo tornou-se uma tarefa complexa. “O crescimento de São Luís apresenta uma característica desde seu primeiro Plano Diretor na década de 1970: os diferentes bairros têm centros próprios, com serviços e ofertas que não mais exigem a ida dos moradores ao Centro Histórico. O mercado imobiliário e o empresariado local ainda não descobriram fórmulas sustentáveis para ocupar os muitos edifícios”, diz José Marcelo.
A reversão desse cenário exige uma articulação institucional e social. “A preservação depende de um esforço coletivo, inluindo a comunidade, a iniciativa privada e até a educação patrimonial do pertencimento”, defende Grete.
A chancela internacional concedida ao município coroa o valor desse desenho urbano. “A Unesco reconheceu e inscreveu o Centro Histórico de São Luís como patrimônio mundial. É um exemplo notável de uma vila colonial que preservou o seu tecido urbano, harmoniosamente integrado com o seu ambiente natural”, conclui Grete.
expresso.arq com informações de Marina Alencar


