Por que os prédios tortos de Santos não caem? Entenda a história e a supervisão
Os prédios tortos de Santos tornaram-se um dos símbolos mais curiosos do litoral paulista, despertando o interesse de moradores e visitantes desde a década de 1970. Fruto de um processo de urbanização acelerado e sem o devido controle técnico, os edifícios de 10 a 19 andares apresentam inclinações em direções e ângulos variados, claramente perceptíveis a olho nu.
A explicação para o fenômeno está na fundação das estruturas. À época da construção, entre os anos de 1950 e 1960, a falta de estudos aprofundados de solo fez com que as bases não atingissem as camadas rochosas mais resistentes. Em vez de fincar estacas a pelo menos 50 metros de profundidade — como determina a engenharia atual —, os prédios foram erguidos sobre fundações rasas de, no máximo, 7 metros.
Sob o peso das torres, a camada superficial de areia comprime o subsolo de argila marinha, que é mole e instável, provocando a inclinação das torres. Atualmente, as fundações profundas das construções mais modernas atravessam esse bolsão e ancoram as estacas diretamente na camada rochosa. Resumindo, o que hoje seria considerado uma falha grave de projeto era uma prática comum e aceita antigamente.
Sob o peso das torres, a camada superficial de areia comprime o subsolo de argila marinha, que é mole e instável, provocando a inclinação das torres. Atualmente, as fundações profundas das construções mais modernas atravessam esse bolsão e ancoram as estacas diretamente na camada rochosa. Resumindo, o que hoje seria considerado uma falha grave de projeto era uma prática comum e aceita antigamente.
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Símbolos de uma cidade
O fenômeno tornou-se uma atração à parte na orla santista, levando visitantes a esticar o passeio da praia para observar as estruturas de perto. O impacto cultural inspirou até o emblemático Bar Torto, assim batizado por ter funcionado durante três décadas em um dos edifícios inclinados do Canal 4. Ponto de encontro de moradores e turistas fascinados pela arquitetura peculiar, o estabelecimento mudou de endereço, mas preservou a identidade e o nome icônico.
Os prédios tortos de Santos podem cair ?
Apesar da inclinação visível, as torres não apresentam risco iminente de colapso. Como o recalque ocorreu de forma lenta ao longo de décadas, as estruturas conseguiram se acomodar gradualmente às movimentações do solo, atingindo um patamar próximo da estabilização.
“Ainda assim, o monitoramento técnico constante é indispensável, já que cada edificação possui um histórico e um comportamento estrutural próprios”, ressalta Matheus Borges, professor de egenharia no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) e na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) .
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Atualmente, a Prefeitura de Santos monitora cerca de 65 edifícios em situação delicada, amparada por uma legislação municipal específica. A lei determina que, a cada dois anos, os condomínios apresentem um laudo de engenharia que comprove a estabilidade estrutural do imóvel.
Na prática, nenhuma das edificações mapeadas possui laudos indicando urgência que exija a intervenção da Defesa Civil. “Não há risco concreto de queda de nenhum prédio no radar, e o monitoramento é feito justamente de forma preventiva”, afirma o Secretário de Governo de Santos, Fábio Ferraz.
A solução definitiva para o problema consiste em reforçar a estrutura com estacas profundas e utilizar macacos hidráulicos para reaprumar o lado rebaixado. O processo de elevação é executado de forma lenta e minuciosamente controlada. “Após o nivelamento, a carga do edifício é totalmente transferida para a nova fundação”, explica o engenheiro.
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O que pode ser feito
Em 2000, o condomínio Nuncio Malzoni, de 17 andares, financiou o projeto de forma independente e corrigiu uma inclinação de aproximadamente 4% — a título de comparação, a Torre de Pisa, na Itália, apresenta cerca de 8%.
Na época, a intervenção custou pouco mais de R$ 1,5 milhão, o que equivaleria hoje a um valor entre R$ 8 e R$ 10 milhões. Pioneiro, o projeto tornou-se um marco na engenharia civil brasileira e serve de referência para os demais prédios da orla santista.
O principal obstáculo para a adoção do método em larga escala é o seu elevado custo. Por se tratar de uma intervenção de alta complexidade, a obra exige maquinário especializado, monitoramento técnico contínuo e o desafio de ser executada com o edifício habitado.
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Embora o cenário atual seja estável, a situação exige visão de longo prazo. Para viabilizar os projetos, a Prefeitura de Santos articula uma linha de crédito junto a instituições públicas, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco do Brasil.
A proposta prevê que os condomínios tomem o empréstimo diretamente com as instituições financeiras, enquanto o município atua como fiador. Em caso de inadimplência, a gestão municipal recuperaria os recursos mediante a cobrança de Contribuição de Melhoria sobre os imóveis beneficiados.
Além disso, os gestores de vários edifícios santistas se organizaram na Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI) para negociar soluções coletivas. No entanto, a aprovação das obras ainda enfrenta um desafio burocrático: a legislação exige um quórum qualificado em assembleia para autorizar intervenções estruturais desse porte.
Ainda assim, o potencial de retorno financeiro é elevado. “A expectativa é de uma valorização de até 40% nas unidades desses prédios”, aponta o Secretário de Governo. A projeção baseia-se na dinâmica do mercado imobiliário local: apartamentos de metragem e localização equivalentes na orla que não apresentam inclinação chegam a ser comercializados por valores substancialmente maiores.
expresso.arq com informações de Fernando Abreu com Nathalia Fabro


