Imerso na Amazônia, hotel exalta tramas artesanais, luz cênica e design autoral
Como intervir na arquitetura de um hotel de selva sem descaracterizar sua essência? Esse foi o ponto de partida para o retrofit do Mirante do Gavião Amazon Lodge, em Novo Airão, AM. Erguido originalmente pelo Atelier O’Reilly, com acomodações que lembram barcos invertidos, o complexo integra-se à paisagem em uma reformulação interna focada na conexão com a floresta.
Localizado às margens do Rio Negro, em frente ao Parque Nacional de Anavilhanas, o refúgio ganha novos interiores assinados por Marilia Pellegrini (@mariliapelegrini). Concluída em 2025, a intervenção de 1.698 m² concentrou-se nos espaços internos, mantendo a estrutura externa intacta.
A relação da arquiteta com o hotel, no entanto, começou anos antes, em 2019, durante sua primeira viagem à Amazônia. Na época, a implantação dos blocos chamou sua atenção pela forma como as construções acompanham a topografia do terreno e respeitam a vegetação nativa.
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“Não olhamos para um conceito simples de sustentabilidade, mas para a complexidade de inserir o novo projeto no ecossistema da região. Estudamos pessoas, comportamentos, comunidades e arte local”, reflete a arquiteta.
Esse diálogo com a floresta estende-se ao paisagismo de Clariça Lima (@studioclaricalima), que abraça todo o hotel ao preservar as árvores nativas e permitir o crescimento livre da mata sob as estruturas. Assim, enquanto a vegetação alta camufla as áreas de apoio, as forrações mantêm o horizonte livre, direcionando o olhar para o Rio Negro.
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Sob essa moldura verde, a reformulação abrange desde o lobby e o restaurante até as 13 suítes de diferentes tipologias, além da área da piscina e do deque flutuante. O convite é ao descanso, envolto por novos revestimentos e uma curadoria renovada de mobiliário.
“Trabalhamos novos layouts, iluminação e todo o projeto de interiores. De arquitetura nova, projetamos e construímos a sala de jogos. O restante preservou o belo projeto”, diz Marilia.
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A paleta de cores buscou inspiração no tradicional tingimento de fibras de palmeiras e frutos locais da Amazônia. Essa técnica das comunidades ribeirinhas e indígenas deu o tom do projeto, trazendo a identidade da mata para a experiência do hóspede.
Assim, as cores inspiradas em espécies da região permeiam a decoração: o laranja vem da goiaba-de-anta, o vermelho, do urucum; o amarelo, do gengibre; e os tons de verde e azul-marinho, do jenipapo.
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Essa imersão guiou também a escolha dos materiais e da mão de obra. Todo o trabalho em madeira — incluindo fechamentos, estruturas, deques, retrofit dos telhados e as luminárias desenhadas pelo escritório em formato de traves ou bandejas para iluminação indireta — foi executado por carpinteiros locais com matéria-prima de manejo sustentável.
“No layout dos bangalôs, fizemos apenas adaptações simples na distribuição das camas, mas refizemos os banheiros e a decoração para criar uma atmosfera mais suave”, comenta Marilia.
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Como parte dessa nova identidade, a sabedoria artesanal da região ganha destaque no mobiliário dos quartos. As cabeceiras das camas e as escrivaninhas foram personalizadas com esteiras Tupé de Arumã — técnica característica da região —, que receberam padronagem gráfica desenvolvida pelo escritório e executada pela Associação dos Artesãos de Novo Airão (AANA).
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Os detalhes e adornos também acompanham a produção artesanal, a exemplo dos cestos e objetos desenvolvidos em parceria com a Associação dos Artesãos do Rio Jauaperi (AARJ) e a Fundação Almerinda Malaquias (FAM), localizadas na região do Rio Negro.
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A renovação das áreas comuns seguiu a mesma premissa de atualização sutil. “Mudamos um pouco a distribuição do mobiliário, incluímos novas luminárias e decoração nova. Adicionamos cores e demos uma nova vida”, conta Marilia.
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Acompanhando a nova paginação, o projeto luminotécnico tornou-se um desafio delicado. Desenhado para cumprir seu papel funcional, sem interferir na calmaria da mata nativa, o sistema aposta em uma iluminação quase inteiramente baixa e indireta.
“Criamos bandejas refletoras por todas as habitações e usamos pendentes nas áreas comuns. Conseguimos aconchego, mas com conforto visual por meio dessa iluminação indireta”, fala a arquiteta.
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A experiência de quem habita o espaço é guiada pela integração do design de interiores ao entorno, mantendo a floresta como protagonista.
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“O hóspede se sente confortável, enxerga os espaços, mas ainda se sente ‘menos importante’ do que tudo o que está a sua volta. A sensação de estar no meio da selva precisava prevalecer”, conclui Marília.
expresso.arq com informações de Marina Alencar


