Do campo à arquitetura: casa traduz o puro charme bucólico francês

Ao lado de uma igreja protestante em Vialas – pequeno povoado de Cévennes, no centro-sul da França, com menos de 300 habitantes –, uma das construções mais antigas da região, datada de 1645, carrega o peso de ter abrigado a Hostellerie Chantoiseau, hotel de 20 quartos fechado em 2004. “Parece algo saído de Titanic ou O Iluminado”, brinca o empresário e proprietário do local, Lucien Pagès, cuja assessoria de imprensa comemora o 20º aniversário este ano. O imóvel permanece intocado em sua estrutura, preservando a aura de refúgio feito de rochas, incrustado nas encostas do sul do Monte Lozère.

Na sala de jantar, o livro de visitas da casa com desenho e dedicatória de Hervé Di Rosa, castiçal e cúpula de prata Chantoiseau — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
Na sala de jantar, o livro de visitas da casa com desenho e dedicatória de Hervé Di Rosa, castiçal e cúpula de prata Chantoiseau — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont

De muitas formas, a edificação funciona como um manifesto de preservação. “Foi neste lugar, com suas grossas paredes de pedra, que morei até os 15 anos”, recorda Lucien. O layout original do hotel dita o ritmo dos ambientes, onde a história da arquitetura vernacular francesa encontra o design contemporâneo. Logo na entrada, as chaves com chaveiros em forma de cogumelo permanecem penduradas atrás do balcão da recepção, feito de madeira de castanheira maciça. Já a adega subterrânea foi ressignificada: em vez de vinhos finos, abriga agora milhares de revistas de moda colecionadas pelo morador, dispostas entre fotos de família, litografias de Pierre Combas e Hervé Di Rosa e uma enorme quantidade de quinquilharias.

Na mesa da sala de jantar, jarra e vasos da Astier de Villatte, e castiçais e sinos de prata Chantoiseau — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
Na mesa da sala de jantar, jarra e vasos da Astier de Villatte, e castiçais e sinos de prata Chantoiseau — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont

A circulação respeita a lógica interna do antigo estabelecimento, mas as adaptações sutis conferem o frescor de uma residência de veraneio. A imensa lareira de pedra da sala de estar – ornamentada por um cavalo de carrossel – serve como ponto focal de um espaço que equilibra proporções imponentes e acolhimento. Sob as vigas originais de madeira aparente, o living se estruturou como um pequeno museu-biblioteca, repleto de livros de culinária, pinturas e móveis esculpidos diretamente na rocha ou moldados nas paredes, respeitando a topografia acidentada do terreno.

Foi nesta casa, com suas grossas paredes de pedra, que morei até os 15 anos. Um lugar isolado, mas ao mesmo tempo dotado de um acesso incrível ao mundo

— Lucien Pagès

A recepção permaneceu inalterada, com os chaveiros originais em forma de cogumelo — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
A recepção permaneceu inalterada, com os chaveiros originais em forma de cogumelo — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont

O design de interiores celebra o diálogo entre o período Luís 13 e a contemporaneidade de India Mahdavi: cadeiras da época recebem, por exemplo, almofadas com tons vibrantes assinadas por Mahdavi para a Monoprix. Vasos Citrouille (em formato de abóbora), cerâmicas da Astier de Villatte e relíquias locais, como as tradicionais sopeiras da Sarreguemines, além das pinturas do pai de Lucien, o renomado chef e sommelier Patrick Pagès, que para ele lembram granito colorido, convivem em harmonia com elementos originais de marcenaria, como um aparador de castanheira, e a varanda de ferro forjado. “A casa tem uma alma linda”, afirma Christiane Pagès, mãe do morador.

Se gosto de voltar aqui, não é pela nostalgia, mas justamente para redescobrir a origem da minha história

— Lucien Pagès

Na escadaria, litografia de Hervé Di Rosa — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
Na escadaria, litografia de Hervé Di Rosa — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
No quarto, colcha de Jessica Ogden para a A.P.C. e cadeira e castiçais vintage — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
No quarto, colcha de Jessica Ogden para a A.P.C. e cadeira e castiçais vintage — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont

E um detalhe curioso revela a história política e religiosa da região: os chamados espelhos de Cévennes, peças com fundo duplo projetadas originalmente para ocultar Bíblias durante o período de perseguição aos huguenotes (cristãos que seguiam a doutrina de João Calvino), decoram alguns ambientes. Na área externa, a piscina azul-turquesa contrasta com o cinza do xisto das fachadas. O jardim, marcado por um imenso plátano podado em formato de guarda-sol, oferece sombra para saborear o sorvete de verbena feito com plantas colhidas ali mesmo.

Muitos dos que vivem aqui queriam fugir da cidade e da vida. As montanhas os protegem

— Lucien Pagès

A entrada da casa se dá pelo jardim, com vista para os Rochers de Trenze — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
A entrada da casa se dá pelo jardim, com vista para os Rochers de Trenze — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
Ao redor da piscina, espreguiçadeiras feitas em 2017 com desenhos de JW Anderson, Michel Gaubert, Astier de Villatte e Mira Mikati, amigos de Lucien Pagès — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
Ao redor da piscina, espreguiçadeiras feitas em 2017 com desenhos de JW Anderson, Michel Gaubert, Astier de Villatte e Mira Mikati, amigos de Lucien Pagès — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
Na biblioteca, cuja estante é feita com prateleiras da antiga adega, Lucien Pagès lê diante da coleção de revistas que guarda desde 1989 – sobre a mesa, figuram castiçal e bule Chat, de Setsuko Klossowska de Rola, ambos da Astier de Villatte, vaso da Casa Lopez e o livro Colette Intime, de Gérard Bonal e Michel Rémy-Bieth — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont
Na biblioteca, cuja estante é feita com prateleiras da antiga adega, Lucien Pagès lê diante da coleção de revistas que guarda desde 1989 – sobre a mesa, figuram castiçal e bule Chat, de Setsuko Klossowska de Rola, ambos da Astier de Villatte, vaso da Casa Lopez e o livro Colette Intime, de Gérard Bonal e Michel Rémy-Bieth — Foto: Jukka Ovaskainen | Estilo: Sarah de Beaumont

Chantoiseau é uma obra viva de arquitetura, um endereço isolado que mantém intacta sua essência de pousada histórica enquanto se lança no séc. 21 por meio de um olhar apurado. Da janela de seu quarto, Lucien contempla os Rochers de Trenze, fiel ao lema de seu pai: “Amigo, depois de cruzarmos este limiar, cada um de nós oferecerá uma parte de si mesmo, pois nada existe sem amor”.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.
Ops! Captcha inválido, por favor verifique se o captcha está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.