O turismo de luxo virou “cringe”(*)

As vezes não lidamos bem com o termo ‘luxo‘ porque achamos que ele sempre foi muito mal interpretado, principalmente no segmento do turismo.

Luxo é um termo subjetivo e sua definição no dicionário diz o seguinte: “maneira de viver caracterizada pelo gosto do desejo de ostentação, por despesas excessivas, pela procura de comodidades caras e supérfluas.”

Ostentação, excessividade e supérfluo são palavras que já não cabem nos dias atuais.

Tanto que alguns destinos e estabelecimentos que usavam este termo para defini-los já não o usam mais.

O “brega” do termo fica para hotéis como o Martinez em Cannes, que apregoa, por exemplo: acomodações com 1.000 m2, quatro suítes, duas saunas, duas salas de jantar, duas jacuzzis no terraço e essas bobeiras todas de maçaneta de ouro, que fazem o valor chegar ao equivalente à 80 mil reais a diária.

Pasmem… 

Sacada da Penthouse do Hotel Martinez em Cannes. Fotos Divulgação

A BLTA é uma associação de viagens de luxo no Brasil que reúne 46 membros, entre operadoras, hotéis e pousadas independentes.

No ano passado, seus associados espalhados por 34 destinos brasileiros movimentaram US$ 1,2 bilhão em hospedagem.

E eles já sacaram que o termo precisa ser ressignificado.

Tanto que seus membros começam a se alinhar ao “novo” perfil do turista que vê luxo em outros valores, no sentido e transformação em suas viagens pelo mundo.

As viagens de luxo, hoje, estão sendo definidas menos por quanto você gasta e quantas estrelas Michelin tem os locais que você frequenta, e estão mais voltadas ao acesso às pessoas, lugares e experiências que representam tudo o que é autêntico sobre um destino.

O turismo de luxo abre um novo campo onde o exclusivo e o único significará aquilo que é inexplorado, intocado, onde nem todos conseguem chegar, longe da massa e com capacidade de partilhar experiências únicas.

É claro que conforto e alto padrão nas acomodações e refeições sempre estão presentes na lista de desejo dos viajantes, mas a exigência é do essencial, afinal, ele não viaja para o hotel e sim para o destino, para a imersão na cultura local, de maneira a viver experiências únicas e especiais, que ficarão em suas memórias para sempre.

Um bom exemplo disso é a rede Explora (foto acima), disponível em destinos no Chile como Atacama, Patagônia, Ilha de Páscoa ou Valle Sagrado no Peru, que criaram explorações de imersão a destinos remotos, com uma bela suíte, restaurante excelente e estrutura espetacular, além de iniciativas sustentáveis que respeitam o meio ambiente e as populações locais.

Assim como no Brasil, o Refúgio Ecológico Caimam, Cristalino e Mirante do Gavião na Amazônia.

Mirante do Gavião localizado em Novo Airão, Amazônia.

O interessante é que isso não ocorre apenas na hotelaria.

Na gastronomia, as cozinhas francesa e italiana ainda estão lá, mas cada vez mais se vê restaurantes asiáticos e latino-americanos integrando roteiros de viagens dos gourmets.

O ato de comer passa a ser também uma manifestação de visões de mundo.

O viajante moderno e nada cringe (*) é aquele que não quer mais acumular coisas e, sim, memórias, sabe que os recursos naturais estão ameaçados.

Por essa razão, buscam a todo custo viagens sustentáveis, que respeitem o meio ambiente.

O ‘luxo’ também pode ser um acampamento no deserto sem eletricidade, ou uma embarcação fluvial na Amazônia.

Esse turista já não quer mais apenas ver, quer participar.

(*) capaz de causar constrangimento

expresso.arq sobre artigo de Flávia Vitorino

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