Ibovespa cai 4% e dólar sobe 4,8% em julho: saiba o que derrubou o mercado e quais as perspectivas a partir de agora

O Ibovespa fechou em queda no último dia 30/7 e acumulou perdas de 3,94% no mês de julho, ao mesmo tempo em que o dólar subiu 4,77%.

Apesar de todas as altas e baixas do mês, o que realmente definiu o desempenho da Bolsa foi esta semana, na qual o benchmark da B3 recuou 2,6% e atingiu seu menor patamar desde maio.

Segundo Roberto Attuch, CEO da Ohmresearch, a predominância do noticiário fiscal no dia  30, pode já ter dado o tom de como serão as próximas semanas, aumentando as incertezas domésticas ao passo que o cenário externo se torna menos motivo de preocupação.

“Lá fora melhorou bastante. Vão aprovar o pacote de infraestrutura [do presidente americano, Joe] Biden na semana que vem e a variante delta do coronavírus não é tão preocupante porque as pessoas vacinadas estão protegidas”, afirma.

Attuch lembra que na Itália em torno de 99% das pessoas que morreram de Covid nas últimas semanas não tinha completado o ciclo de vacinação.

“As estatísticas de outros países são parecidas. A vacinação vai avançar, então acho que isso não é problema e a economia da Europa cresceu mais do que o esperado neste trimestre. As preocupações de crescimento global vão se dissipar.”

Do lado doméstico, por outro lado, Attuch entende que o cenário ficou mais complexo depois das declarações do presidente Jair Bolsonaro de que o Brasil deve se endividar para pagar o aumento do benefício do Bolsa Família.

Já Alex Silva, sócio da Aware Investments, entende que o cenário externo não está tão equacionado assim, pois é bastante contaminado pela onda regulatória da China e por alguma expectativa em torno da política monetária dos Estados Unidos.

“Há um cenário avesso a risco, algo que prejudica emergentes e renda variável global como um todo.”

Na avaliação de Alex Silva, tudo o que se fala de reforma fiscal ainda é muito nebuloso, mas no cenário externo as coisas são mais claras.

“A China vai continuar crescendo a patamares elevados e deve flexibilizar essas regulações, mas, por enquanto, o Brasil espelha o que aconteceu no resto do mundo. O mercado está um pouco esticado, de modo que um ajuste técnico é saudável e qualquer notícia mais negativa pode provocar isso”, analisa.

O sócio da Aware Investments, portanto, não enxerga mudança de tendência na Bolsa por conta desse dia negativo.

É só um ajuste, a tendência segue de alta em prazos mais alongados.”

Sobre o dólar, Felipe Nascimento, economista-chefe da InvestSmart, avalia que a valorização da moeda americana mesmo em um contexto de declarações mais “dovish” (favoráveis a manter a política monetária ultraestimulativa) do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, tem relação com a política de regulamentação chinesa e com o cenário doméstico.

 “Para o câmbio, a próxima reunião do [Comitê de Política Monetária] Copom pode ser decisiva. Observamos que, em média, 79,38% do mercado tem praticado suas projeções em um cenário de elevação de 1 ponto percentual. Caso o Banco Central surpreenda com uma alta ainda maior, o dólar tende a se desvalorizar. Caso a alta seja de 0,75 p.p., a dinâmica pode se inverter e levar a moeda a R$ 5,45”, defende Nascimento.

Queda

O Ibovespa caiu forte , tendo acelerado as perdas após duas fontes dizerem ao Estadão/Broadcast que integrantes da ala política do governo já estudam bancar o novo Bolsa Família com recursos fora da regra do teto de gastos.

A discussão teria entrado no radar da Casa Civil, agora comandada por Ciro Nogueira, membro influente do grupo conhecido como Centrão, apesar da resistência do ministro da Economia, Paulo Guedes, à ideia.

Mais tarde, o próprio presidente Jair Bolsonaro admitiu a possibilidade de o país “se endividar” para pagar o Bolsa Família.

“Essa questão do auxílio emergencial, do Bolsa Família, temos que pensar nisso e gastar dinheiro nisso ou se endividar, que é a palavra mais correta, para atender aos mais necessitados até que a economia volte à sua normalidade.”

Guedes, por sua vez, disse em evento que o Orçamento do próximo ano prevê recursos de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões para acomodar um pagamento de R$ 250 a até R$ 300 do Bolsa Família.

Ele afirmou, todavia, que existe “fumaça no ar” sobre possíveis despesas extraordinárias no Orçamento.

Segundo Lucas Monteiro, trader de multimercados da Quantitas, o debate em torno de driblar o teto de gastos é um importante gatilho para desconfiança dos investidores.

“Se você somar isso aos acontecimentos dos últimos dias, com recriação de ministério que havia sido incorporado pela economia parece que a ala mais política do governo começou a ganhar força frente à equipe econômica. E pensando que estamos a pouco mais de um ano das eleições, o mercado começa a ficar mais preocupado”, comenta.

Já Roberto Attuch destaca que a curva de juros estressou com a discussão de Bolsa Família e de desvinculação de algumas despesas do teto, de modo que houve uma mistura de piora no ambiente fiscal e saída de investidores estrangeiros para acelerar as perdas do principal benchmark acionário da B3.

Ainda no Brasil, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua mostrou que a taxa de desemprego se manteve em 14,6% no trimestre móvel entre março e maio.

A expectativa média dos economistas era de que o desemprego caísse a 14,5% no período, segundo dados da Refinitiv.

A população desocupada total do país é de 14,8 milhões de pessoas.

Por outro lado, a população ocupada cresceu 0,9% em relação ao trimestre anterior, a 86,7 milhões de pessoas.

O noticiário político, por sua vez, foi movimentado por live de Bolsonaro na qual ele admitiu não ter provas de que houve fraude eleitoral.

“Os que me acusam de não apresentar provas, eu devolvo a acusação. Apresente provas de que ele não é fraudável. Não temos provas, vou deixar bem claro, mas indícios que eleições para senadores e deputados podem ocorrer a mesma coisa”, disse.

Lá fora, continuaram os temores a respeito da ofensiva regulatória da China nos setores de educação, tecnologia e imóveis.

Depois de dois dias de recuperação, o índice Hang Seng, da Bolsa de Hong Kong, que afundou 8% no começo da semana, voltou a cair, encerrando a sessão com perdas de 1,35%.

Os Estados Unidos, por sua vez, repercutiram indicadores de inflação.

O Núcleo do PCE cresceu a 0,4% em junho nos EUA, abaixo da média das projeções dos economistas, que apontava para avanço de 0,6%. Na base anual o indicador aumentou em 3,5%.

Na maior economia do mundo ainda há atenção à temporada de resultados, que teve números decepcionantes da Amazon.

Os papéis da Amazon se desvalorizaram em 7,4% no after-market depois que a empresa divulgou que sua receita trimestral ficou abaixo da expectativa pela primeira vez em três anos, e apresentou diretrizes mais fracas.

Os papéis da varejista digital despencaram 7,56%.

Fora isso, no mercado de commodities, o minério de ferro negociado na Bolsa de Dalian registrou queda de cerca de 8%.

De acordo com informações da Reuters, a baixa ocorre pela queda de produção de aço na China, em meio a uma desaceleração da demanda doméstica por materiais de construção. As ações da Vale (VALE3) caíram 5,89%.

O Ibovespa teve queda de 3,08%, a 121.800 pontos com volume financeiro negociado de R$ 35,248 bilhões. Foi a maior queda diária do índice desde 8 de março, quando o Ibovespa desabou 3,98%.

Enquanto isso, o dólar comercial subiu 2,57% a R$ 5,209 na compra e a R$ 5,21 na venda. Na semana, a moeda dos EUA ficou estável ante o real, com leve variação negativa de 0,02%.

No mercado de juros futuros, o DI para janeiro de 2022 subiu 13 pontos-base a 6,32%, DI para janeiro de 2023 teve alta de 22 pontos-base a 7,82%, DI para janeiro de 2025 avançou 30 pontos-base a 8,68% e DI para janeiro de 2027 registrou variação positiva de 26 pontos-base a 9,00%.

Ainda no radar, a produção industrial do Japão subiu 6,2% em junho, frente a queda de 6,5% em maio. As vendas no varejo subiram 0,1% em um ano, abaixo da expectativa de alta de 0,2%.

Na Europa, o IPC da Zona do Euro relativo a julho, que marcou alta de 2,2% na comparação anual, acima da expectativa de alta de 2%.

Já o PIB relativo ao segundo trimestre avançou 13,7% na comparação anual, acima da expectativa de alta de 13,2%. E 2% na comparação trimestral, acima da expectativa de alta de 1,5%. A taxa de desemprego na Zona do Euro relativa a junho, que marcou 7,7%, abaixo da expectativa de 7,9%.

Radar corporativo

O fim de julho também marcou a estreia das ações da ClearSale, com o ticker CLSA3.

O papel foi precificado no topo da faixa indicativa, a R$ 25 na oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) que movimentou R$ 1,3 bilhão.

A Petrorio informou que a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) concedeu a redução de royalties para o campo de Tubarão Martelo.

Segundo a empresa, a medida busca incentivar investimentos em revitalização e toda a produção incremental que virá de novos aportes no campo de Tubarão Martelo terá a alíquota reduzida para 5%.

A elétrica Neoenergia informou na quinta que iniciou a operação comercial do Complexo Eólico Chafariz, no Sertão da Paraíba, com 17 meses de antecedência em relação ao início da vigência do contrato no Mercado Regulado.

Segundo a empresa, os dez primeiros aerogeradores do empreendimento começaram a funcionar com plena execução e possuem capacidade de instalação correspondente à 34,65 megawatts (MW).

Os demais aerogeradores seguem em fase de teste em andamento.

A administradora de concessões de infraestrutura Ecorodovias informou lucro líquido de R$ 127,4 milhões no segundo trimestre, alta de 260,8% em relação ao de um ano antes. Já o lucro Ebitda pró-forma de abril a junho somou R$ 570,5 milhões, alta ano a ano de 32,6%.

Maiores altas

ATIVOVARIAÇÃO %VALOR (R$)
VIVT30.3897741.21
JBSS30.344432.05
CIEL30.296743.38

Maiores baixas

ATIVOVARIAÇÃO %VALOR (R$)
RENT3-7.3632462.15
BIDI11-5.9867570.98
VALE3-5.89253108.76
LCAM3-5.851827.19
BRAP4-5.6632773.96

O grupo de medicina diagnóstica Fleury teve lucro líquido de R$ 65,5 milhões no segundo trimestre, uma reversão do desempenho negativo impactado pelas medidas de isolamento social de um ano antes.

O lucro Ebitda foi de R$ 219,7 milhões, ante cerca de R$ 20 milhões no mesmo período de 2020. Em termos recorrentes, a Fleury teve lucro líquido de R$ 86,6 milhões, revertendo prejuízo de R$ 73 milhões no segundo trimestre do ano passado.

A Localiza divulgou na quinta lucro líquido de R$ 447,9 milhões no segundo trimestre, um salto de 398,2% ante mesma etapa de 2020. O desempenho veio acima da previsão média de analistas consultados pela Refinitiv, de R$ 409,2 milhões.

Já a companhia de transmissão de energia elétrica Isa Cteep, Transmissão Paulista, registrou um lucro líquido de R$ 248,1 milhões no segundo trimestre de 2021, o que representa uma contração de 73,01% em relação ao reportado no mesmo período do ano passado.

A Usiminas registrou lucro líquido de R$ 4,5 bilhões no segundo trimestre de 2021, um recorde trimestral, alta de 277% frente os R$ 1,2 bilhão no primeiro trimestre de 2021 e revertendo o prejuízo de R$ 395 milhões do mesmo período de 2020. A receita líquida saltou 296% frente o segundo trimestre de 2020, indo de R$ 2,425 bilhões para R$ 9,596 bilhões.

Ainda em destaque, o presidente-executivo da Enel, Francesco Starace, afirmou na quinta que uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) de unidade da empresa no Brasil pode ser uma “boa ideia”, porém ainda é necessário discutir o assunto com os acionistas.

A declaração foi dada em teleconferência para comentar resultados financeiros da empresa.

Expresso.arq sobre artigo de Ricardo Bonfim

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