Casa em formato de nave espacial dos anos 1960 ganha releitura em festival de design

Na última edição do festival de design de Helsinque, que ocorreu de 28 de agosto a 6 de setembro de 2026, a capital da Finlândia ganhou uma instalação que resgatou um curioso capítulo da arquitetura do país. A releitura da Futuro House, original do arquiteto Matti Suuronen (1933-2013), foi uma iniciativa do construtor americano Jan van Dijs, especialista em preservação arquitetônica. Ele restaurou o projeto, no último ano, após encontrar os moldes originais à venda no Facebook.

Com aparência semelhante à de um disco voador, a Futuro House, projetada pelo arquiteto finlandês Matti Suuronen (1933-2013), em 1968, nasceu durante a estética Space Age (Era Espacial), época em que a corrida espacial e os avanços tecnológicos alimentaram um imaginário coletivo futurista que, na arquitetura e no design, foi sinônimo de móveis arredondados e esculturais.

O projeto era praticamente uma casa pré-fabricada, marcada pelo seu formato elíptico, janelas ovais, além de estrutura elevada sobre pernas. A ideia principal do arquiteto era discutir a possibilidade de transportar a estrutura para diferentes lugares, como uma nave.

Suuronen pensou, portanto, a construção como uma espécie de casa portátil de lazer, originalmente destinada a locais como estações de esqui. Menos de 100 unidades foram produzidas entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, apesar de o projeto ter sido concebido para produção em massa. Estima-se que cerca de 60 exemplares ainda existam, hoje, espalhados pelo mundo e em diferentes estados de conservação.

Embora Suuronen acreditasse que o baixo custo de produção e adaptabilidade de seu projeto tornariam a Futuro House uma solução para o futuro do morar, o projeto não conquistou o público da época. Sua produção chegou ao fim em 1973, quando o custo elevado do plástico, devido à crise do petróleo, tornou, de repente, a casa muito cara para fabricar.

Semelhanças com a Casa Bola

No Brasil, há um projeto que se assemelha na estética. Entre 1974 e 1979, o arquiteto Eduardo Longo também explorou o formato de esfera para construir a Casa Bola, um ícone da arquitetura paulistana na avenida Faria Lima, em São Paulo.

Embora as duas construções tenham formas semelhantes, o método construtivo empregado em cada um dela foi bastante diferente. Enquanto Longo usou a argamassa armada e ergueu a Casa Bola quase de maneira artesanal, Suuronen, preferiu polímeros reforçados com fibra de vidro para construir a Futuro House.

Moldes originais resgatados na Finlândia

Foi justamente por conta do resgate do molde de produção desses polímeros que esta casa, perdida no tempo, ganhou uma releitura. Quase seis décadas após sua criação, o americano Jan van Dijs, especialista em preservação arquitetônica, conseguiu restaurar os moldes originais para dar vida à Futuro No. 21, com interiores assinados pela Marimekko.

Em 2024, porém, Jan van Dijs entrou em contato com o legado arquitetônico de Suuronen pelas redes sociais — Foto: Justus Hirvi
Em 2024, porém, Jan van Dijs entrou em contato com o legado arquitetônico de Suuronen pelas redes sociais — Foto: Justus Hirvi

Em 2024, Jan van Dijs entrou em contato com o legado arquitetônico de Suuronen pelas redes sociais. Especializado em reabilitação histórica, van Dijs atua na preservação de construções de importância arquitetônica, especialmente de meados do século 20. Seu interesse por projetos esquecidos ou pouco conhecidos foi justamente o que o levou ao trabalho de Suuronen.Selecione suas newsletters

Os moldes haviam permanecido em um terreno aberto por mais de 50 anos. Em maio de 2025,  estadunidense viajou para a Finlândia para ver os moldes — Foto: Justus Hirvi
Os moldes haviam permanecido em um terreno aberto por mais de 50 anos. Em maio de 2025, estadunidense viajou para a Finlândia para ver os moldes — Foto: Justus Hirvi

Tudo começou quando um de seus amigos se deparou com um anúncio estranho no Facebook. Jyrki Aho, um executivo de uma empresa sediada na Finlândia estava vendendo algo especial: modelos originais para os edifícios de plástico de Matti Suuronen, anteriormente pertencentes à empresa finlandesa Polykem Ltd, que faliu em 1992.

Os moldes haviam permanecido em um terreno aberto por mais de 50 anos. Em maio de 2025, estadunidense viajou para a Finlândia para vê-los. À época, Aho acabou entrando em contato inclusive com a família de Matti Suuronen para que pudessem começar as negociações sobre o licenciamento da reprodução da Futuro, pois Jan não poderia comprar os moldes sem a permissão deles.

Van Dijs trabalhou com a empresa finlandesa de fabricação de plásticos Ekin Muovi para restaurar os moldes e refazer os painéis — Foto: Justus Hirvi
Van Dijs trabalhou com a empresa finlandesa de fabricação de plásticos Ekin Muovi para restaurar os moldes e refazer os painéis — Foto: Justus Hirvi

“Tive cuidado para não prometer demais, já que, na verdade, não tínhamos como examinar os moldes. Não havia sequer como saber se conseguiríamos realizar esse projeto”, disse van Dijs em comunicado. Quando foram encontrados, os moldes estavam cobertos de grama, terra e mofo.

Ainda assim, decidiu prosseguir. Van Dijs trabalhou com a empresa finlandesa de fabricação de plásticos Ekin Muovi para restaurar os moldes e refazer os painéis, com o objetivo de produzir uma reconstrução fiel do projeto de Suuronen.

Foram utilizadas até mesmo as mesmas cores de tinta, reproduzidas a partir de resíduos que haviam permanecido nos moldes — Foto: Justus Hirvi
Foram utilizadas até mesmo as mesmas cores de tinta, reproduzidas a partir de resíduos que haviam permanecido nos moldes — Foto: Justus Hirvi

Foram utilizadas até mesmo as mesmas cores de tinta, reproduzidas a partir de resíduos que haviam permanecido nos moldes. Ademais, os moldes vendidos pela Exel incluíam designs de mobiliário de Suuronen, que também foram reproduzidos como parte do projeto, incluindo poltronas embutidas, uma mesa de jantar e a cadeira Orbit.

O processo de fabricação levou cinco meses. Considerando também a restauração destas peças, Van Dijs estima que o projeto tenha custado cerca de 450.000 euros, embora espere que futuras unidades da casa Futuro custem menos de 300.000 euros.

Considerando também a restauração dos moldes, Van Dijs estima que o projeto tenha custado cerca de 450.000 euros — Foto: Justus Hirvi
Considerando também a restauração dos moldes, Van Dijs estima que o projeto tenha custado cerca de 450.000 euros — Foto: Justus Hirvi

Para a instalação da Helsinki Design Week, nos Jardins Botânicos de Kaisaniemi, a Marimekko foi convidada a criar um projeto de interiores para a nova Futuro House. Na ocasião, a marca optou por dividir o espaço aberto em três áreas: uma para relaxar e dormir, outra para refeições e trabalho, e uma cozinha compacta.

A ambientação conseguiu dialogar com a construção e dar um panorama ao público sobre como deveria ser morar em uma (quase) nave espacial.

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