As casas brancas e azuis da Grécia não são apenas uma escolha estética
Ao pensar na Grécia contemporânea, a primeira imagem que vem à mente são as famosas casas azuis e brancas presentes em diversas ilhas do país. Elas dominam a paisagem dos principais destinos, como Santorini, Mykonos e Milos, e se tornaram um dos principais cartões-postais da Europa.
Embora muitos acreditem que as cores foram definidas a partir da bandeira do país, não foi exatamente assim. Um conjunto de decisões urbanísticas, políticas e até de saúde levaram à escolha das clássicas cores para as paredes e telhados das ilhas Cíclades.
Originalmente, as casas gregas eram construídas com materiais vulcânicos que, apesar de abundantes na região, contribuíam para deixar as casam mais quentes. Isso se justifica pelas rochas serem escuras e pela intensa exposição solar da região, além da construção em morros fazer com que o calor entre sem obstáculos nas residências.
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Com isso, os moradores passaram a utilizar uma mistura simples de cal, água e sal para “caiar” as casas de branco. A opção rapidamente se popularizou por ser acessível e ajudar a refletir a luz do sol, ajudando a manter os interiores mais frescos. “Além disso, a cobertura dissipa rapidamente o calor absorvido, evitando que as paredes acumulem temperatura ao longo do dia”, conta a arquiteta Claudia Birolini.
Outro motivo para a popularização do material no revestimento das casas foi uma epidemia de cólera que aconteceu por volta de 1938. Isso porque a pintura à base de cal funciona como um desinfetante graças ao pH alcalino, geralmente acima de 12. Na época, os gregos acreditavam que isso seria mais uma maneira de lutar contra o avanço da bactéria, o que levou a campanhas de conscientização por parte do governo para a pintura das fachadas.
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Ainda hoje, a cal é utilizada no país pois ajuda a proteger naturalmente as paredes contra fungos, bactérias e mofo. “Diferente de muitas tintas sintéticas, que utilizam componentes químicos mais agressivos, a cal faz isso de maneira mais natural e sustentável, sem liberar substâncias tóxicas no ambiente”, destaca a arquiteta Rafaela Simonato Citron.
Outra vantagem da cal está no controle da umidade do imóvel, permitindo que as paredes “respirem” e evitando problemas como bolor, fungos, descascamento e deterioração dos materiais. Isso favorece principalmente edificações antigas, construídas sem os sistemas modernos de impermeabilização. A introdução de materiais impermeáveis, como cimento e tintas acrílicas, impede a evaporação natural da umidade presente nas paredes, gerando diversos problemas.
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Já o azul presente nos telhados e nos detalhes das casas também possui uma origem prática, não somente estética. O tom usado nas ilhas gregas é resultado de uma mistura de calcário e um produto de limpeza chamado loulaki, um pó azul que a maioria dos ilhéus tinha prontamente disponível em casa.
Por conta do baixo custo e fácil acesso, a tinta que já era utilizada em barcos de pesca passou a colorir cúpulas de igrejas, esquadrias e os tetos das casas. “Com o tempo, a cor passou a ser associada ao mar, ao céu e às crenças gregas de proteção contra o mau-olhado, tornando-se parte da identidade visual das ilhas”, explica Claudia.
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Outro evento histórico responsável pelo aumento do uso dessas cores nas construções foi a ditadura militar na Grécia, também conhecida como Regime dos Coronéis. Entre 1967 e 1974, o governo incentivou e regulamentou o uso das cores azul e branco em várias ilhas do país. A medida estética visava fortalecer uma identidade nacional, enquanto o turismo já se fazia presente.
Atualmente, a manutenção das cores é garantida por leis de proteção arquitetônica e pelo forte apelo turístico. As belas paisagens e cenários que se misturam às casas azuis e brancas atraem milhares de turistas todos os anos.
expresso.arq com informações de Fernando Abreu


