Confira os conceitos por trás dos 8 jardins da CASACOR São Paulo

Dos 70 ambientes da CASACOR São Paulo 2026, oito são jardins. Também sob o tema Mente e Coração, os espaços entendem a vegetação como uma forma de fortalecer vínculos, resgatar propósitos, inspirar formas mais conscientes de habitar e desacelerar a rotina. Em comum, todos os projetos valorizam a flora brasileira, com espécies tropicais que dialogam com a vegetação preexistente do Parque da Água Branca, onde a mostra está instalada.

Para preservar o patrimônio ambiental tombado, os paisagistas precisaram seguir diretrizes rígidas de não intervenção, como a proibição de interferências nas árvores existentes e a utilização exclusiva de plantas cultivadas em vasos apoiados sobre o solo, sem plantio direto nos canteiros, permitindo sua remoção ao fim do evento. As espécies selecionadas também não poderiam ser tóxicas para os animais nem apresentar espinhos.

Confira em detalhes os jardins da 39ª edição da CASACOR São Paulo:

1. Jardim Respiro — Ana Lui e Karen Marini

Com 300 m², o 'Jardim Respiro' possui uma curadoria botânica que privilegia espécies brasileiras pouco usuais, como orelha-de-onça e tataré — Foto: Camila Santos/Divulgação
Com 300 m², o ‘Jardim Respiro’ possui uma curadoria botânica que privilegia espécies brasileiras pouco usuais, como orelha-de-onça e tataré — Foto: Camila Santos/Divulgação

O segundo ambiente do percurso nasceu com o intuito de criar uma pausa, para que o público se entregue ao circuito física e sensorialmente com o som da água, os aromas inspirados na floresta, a diversidade das texturas vegetais e o jogo entre luz e sombra.

A curadoria vegetal reúne cerca de 30 espécies, das quais aproximadamente 95% são nativas. A escolha priorizou valorizar a flora e ampliar o repertório do paisagismo contemporâneo, apresentando plantas ainda pouco exploradas, mas com grande potencial ornamental e ecológico, como tataré, ipê-roxo, pau-mulato e justiça-cárnea.

“É um espaço que convida o visitante a diminuir o ritmo, guardar o celular, ouvir a água, observar os detalhes da vegetação e voltar a habitar o próprio tempo”, diz a paisagista Karen Marini.

2. Conhecer para preservar — Pam Faccin Arquitetura Paisagística

A principal inspiração para o espaço 'Conhecer para preservar' foi a paisagem da Mata Atlântica do sudeste brasileiro — Foto: Bia Nauiack/Divulgação
A principal inspiração para o espaço ‘Conhecer para preservar’ foi a paisagem da Mata Atlântica do sudeste brasileiro — Foto: Bia Nauiack/Divulgação

Com caráter educativo, o jardim reúne mais de 100 espécies da Mata Atlântica do sudeste e apresenta um painel de biodiversidade com imagens da fauna brasileira, com a proposta de aproximar o público do bioma e incentivar sua conservação. “A ideia do percurso no ambiente é: você entra com a mente e conhece; depois sai com o coração, e preserva”, conta a paisagista Pam Faccin.

Entre as espécies presentes no ambiente, destaque para as espécies begônia-luxuriante, aricuriroba e planta-veludo, e o caixetal, um conjunto de árvores Tabebuia cassinoides, espécie endêmica de São Paulo, conhecida popularmente como caixeta e ameaçada de extinção.

O piso drenante hexagonal foi instalado sobre uma camada de brita, criando um mosaico no caminho. A inspiração para as cores e o formato também foi a biodiversidade natural brasileira.

3. Da terra ao solo — Maria Fernanda Marques Paisagismo

O jardim 'Da terra ao solo' reúne mais de 3 mil plantas e trabalho de artesãos e artistas de diversas regiões do Brasil — Foto: Roberta Gewehr/Divulgação
O jardim ‘Da terra ao solo’ reúne mais de 3 mil plantas e trabalho de artesãos e artistas de diversas regiões do Brasil — Foto: Roberta Gewehr/Divulgação

Inspirada nos ciclos das paisagens naturais e na terra como matéria viva, a paisagista Maria Fernanda Marques assina jardim com um manifesto sobre arte brasileira e biodiversidade. Ao todo, são mais de 3 mil plantas de 70 espécies diferentes, sendo 99% nativas, incluindo palmeira-juçara, cereja-do-rio-grande, triális, norantea, marantas, lírio-do-brejo (Hedychium coronarium) e diferentes espécies de ruélia.

As plantas são apresentadas junto ao trabalho de artesãos e artistas de diversas regiões do Brasil. Entre os destaques estão o banco Cacau, de Jay Boggo, e as obras de Carol Ambrosio, que combinam esculturas de concreto a peças antigas garimpadas ao longo do tempo por meio da técnica de assemblage. O quadro da Casa Bast e os objetos de coração de O Designer Artesão completam a composição.

“O resultado é percebido por meio das sensações e dos sentidos que também elevam a vibração de quem está neste ambiente, promovendo o equilíbrio entre as frequências da mente e do coração, nos conectando a nós mesmos e ao todo onde estamos inseridos”, diz a paisagista.

4. Jardim Ikigai — Kawai Paisagismo

No 'Jardim Ikigai', os totens têm 3 metros de altura e cada um carrega um material e um significado diferente, segundo o ikebana — Foto: Roberta Gewehr/Divulgação
No ‘Jardim Ikigai’, os totens têm 3 metros de altura e cada um carrega um material e um significado diferente, segundo o ikebana — Foto: Roberta Gewehr/Divulgação

Na filosofia japonesa, ikigai significa “razão de viver”. O conceito orientou a criação do jardim de Vitor Kodama, do Kawai Paisagismo. “O jardim foi pensado para fazer a pessoa parar. A gente vive num ritmo muito acelerado, e o ikigai fala exatamente sobre isso: encontrar o propósito, o que faz sentido pra você”, explica.

Os totens representam reflexões: o espelho convida a olhar para dentro; a pedra representa aquilo que o sustenta, os valores que não mudam; enquanto o jardim vertical, com plantas vivas, diz sobre transformação e movimento.

Entre as espécies utilizadas estão araçá, sete-copas-africana, algodão-da-praia, jasmim-manga, helicônia, alpínia e estrelícia; nos totens, hera, samambaia-paulista, jiboia, trapoeraba, dinheiro-em-penca e aspargo-alfinete.

5. Jardim onde a mente pousa — Bia Abreu Paisagismo

O conceito do 'Jardim Ikigai' parte da desaceleração para alcançar um equilíbrio entre mente, corpo e coração — Foto: Bia Nauiack/Divulgação
O conceito do ‘Jardim Ikigai’ parte da desaceleração para alcançar um equilíbrio entre mente, corpo e coração — Foto: Bia Nauiack/Divulgação

O espaço de 200 m² da arquiteta-paisagista Bia Abreu propõe o despertar dos sentidos em diferentes momentos. O perfume do jasmim dá boas-vindas no pórtico, trazendo à vista um banco que convida a desfrutar do momento em confortáveis futons. Plantas aromáticas, como manjericão, alecrim e hortelã, complementam a cartela de aromas e atraem pássaros e borboletas.

O espaço, voltado ao cuidado da mente, do coração e do corpo, explora o paisagismo como ferramenta para promover qualidade de vida. “A ideia é incentivar uma conexão mais próxima com a natureza, despertando o desejo de permanecer, tocar, observar e desfrutar desses espaços”, diz Bia.

O projeto também valoriza as árvores preexistentes do parque, aproveitando sua sombra e características naturais para criar áreas acolhedoras de permanência. Entre os elementos inseridos estão equipamentos de ginástica produzidos manualmente por um artista do Piauí, duchas, uma pequena piscina que também funciona como spa para banhos de imersão, além de espaços destinados à meditação, à ioga e à contemplação.

6. Refúgio Fleury — Estúdio Musgo

O 'Refúgio Fleury' trabalha elementos que despertam os sentidos de forma sutil, como o som da água, os aromas das ervas, as diferentes texturas da vegetação e o calor do fogo — Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação
O ‘Refúgio Fleury’ trabalha elementos que despertam os sentidos de forma sutil, como o som da água, os aromas das ervas, as diferentes texturas da vegetação e o calor do fogo — Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação

Localizado no centro da mostra, o jardim do paisagista Denis Bessa partiu de duas premissas fundamentais: valorizar a flora brasileira e estimular os sentidos. Aproximadamente 60% do jardim é composto por espécies nativas, reforçando o compromisso com a biodiversidade e a sustentabilidade. Entre os destaques estão os paus-ferro, árvores de grande porte que formam uma cobertura vegetal generosa e reforçam a sensação de imersão, em diálogo com a arquitetura existente.

Desde a entrada, o visitante é envolvido pela altura das árvores, pelos aromas da vegetação, pelo som da água e pelos reflexos criados pelos espelhos. A lareira, elemento que simboliza acolhimento e permanência, funciona como o coração do espaço.

“Ao longo da mostra, somos constantemente estimulados pela arquitetura, pelo design e pelas inúmeras referências visuais. O Refúgio Fleury convida as pessoas a sentirem mais do que apenas observarem. É um espaço que valoriza o silêncio, a contemplação e a conexão com a natureza”, diz o paisagista.

7. Entre folhas — Pedro Rabelais Paisagismo

O jardim 'Entre folhas' cria um caminho imersivo na flora brasileira, fazendo uma referência a entrar na mata — Foto: Carolina Mossin/Divulgação
O jardim ‘Entre folhas’ cria um caminho imersivo na flora brasileira, fazendo uma referência a entrar na mata — Foto: Carolina Mossin/Divulgação

Inspirado na floresta tropical brasileira, o paisagista Pedro Rabelais criou um jardim organizado em três planos vegetais: palmeiras no dossel para verticalidade e filtragem da luz; palmeiras-leque no sub-bosque, com folhas circulares de apelo escultórico; e samambaias na forração, replicando o tapete denso do chão de mata. Todas as espécies são nativas ou tropicais brasileiras, escolhidas pela textura e pelo volume.

O projeto parte da geometria de esquina do espaço e transforma esse vértice no ponto central do jardim. “Dali, dois braços vegetais se abrem para abraçar os ambientes vizinhos, criando uma continuidade entre o íntimo e o encontro”, explica Pedro. A imersão progressiva no verde é a interpretação do profissional sobre o tema da mostra, Mente e Coração, como um convite a desacelerar e habitar o presente.

O jardim existe sem nenhuma intervenção física: não há deque, escavação, alteração no piso, ou na vegetação existente do parque: toda a composição é estruturada em vasos e cachepôs apoiados no chão.

8. Clareira na mata — Alexandre Galhego Paisagismo

Concebido como um refúgio de reconexão com o essencial, 'Clareira na mata' convida o visitante a desacelerar, observar e respirar, promovendo uma conexão mais profunda consigo mesmo, com a natureza e com o tempo, simbolizado pelas grandes árvores — Foto: Carolina Mossin/Divulgação
Concebido como um refúgio de reconexão com o essencial, ‘Clareira na mata’ convida o visitante a desacelerar, observar e respirar, promovendo uma conexão mais profunda consigo mesmo, com a natureza e com o tempo, simbolizado pelas grandes árvores — Foto: Carolina Mossin/Divulgação

A inspiração para o jardim do paisagista Alexandre Galhego surgiu do próprio Parque da Água Branca, mais especificamente, de uma figueira quase centenária que já habitava o espaço. Em vez de contorná-la, o paisagista a elegeu protagonista e construiu o conceito a partir dela ao recriar sensação de uma clareira em meio à mata. Os percursos e as praças de convívio foram desenhados para destacar sua presença e permitir que os visitantes vivenciem sua imponência.

A seleção vegetal privilegiou espécies nativas brasileiras, com destaque para o pau-brasil — árvore-símbolo do país —, além de sibipirunas, abius, mirindibas, ipês, capororocas e diferentes espécies de eugênia. Nos estratos inferiores, filodendros, clúsias, costelas-de-adão e neomaricas contribuem com diferentes texturas e formas.

“A intenção foi demonstrar como a biodiversidade brasileira pode ser traduzida em uma linguagem contemporânea, sofisticada e profundamente conectada à natureza”, afirma Alexandre.

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