Como Esta Cidade dos EUA Virou Imã de Bilionários Há Um Século
Newport, em Rhode Island (EUA), não é apenas um destino de verão. É um lugar onde poder e legado americanos criaram uma composição harmoniosa de história e culturas. Desde suas origens — construídas à custa do trabalho escravizado e do esforço contínuo de imigrantes irlandeses — até as opulentas mansões da Era Dourada erguidas pelos magnatas industriais do século 19, não há destino de luxo no mundo exatamente igual a Newport.
Para entender por que os ultrarricos continuam vivendo e passando férias ali, enquanto turistas e navegadores chegam em busca de um vislumbre desse estilo de vida singular, é preciso compreender o tecido econômico, cultural e histórico da cidade.
Entre os ultrarricos, Newport não conhece tranquilidade há mais de um século. Diferentemente de Hamptons, Martha’s Vineyard, Cape Cod e Nantucket, Newport prospera também fora da alta temporada, o que a distingue claramente desses destinos. Segundo o VisitNewportRI.org, a demanda ao longo do ano continua crescendo, inclusive durante os meses de inverno.
Discover Newport
O Salão Dourado da Marble House deslumbra como um dos interiores mais opulentos da Era Dourada, com suas paredes douradas e design de inspiração francesa concebidos como uma vitrine da riqueza da era Vanderbilt
Sob seu charme náutico e despretensioso, está um destino definido pelo legado: da arquitetura da Era Dourada e das raízes imigrantes aos portfólios imobiliários contemporâneos e clubes com acesso restrito. O old money encontra uma cultura duradoura — e um lobster roll nunca está longe.
Onde vivem os bilionários em Newport, Rhode Island
Além da famosa Bellevue Avenue, fica uma grande residência privada originalmente conhecida como On The Rocks, hoje chamada Misty Gray. A história por trás da casa nunca foi totalmente contada. Ela foi construída pelo cirurgião, advogado e general da Força Aérea Don S. Wenger e sua esposa, Mary. Entre muitos feitos, Wenger foi o médico militar de voo dos sete primeiros astronautas. O casal era membro da Bailey’s Beach e parte do tecido social de elite de Newport no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980.
A residência privada inaugurou uma tendência ainda rara: casas construídas diretamente sobre as rochas. A decisão transformou para sempre o mercado imobiliário à beira-mar de Newport. Os Wenger construíram diretamente nos penhascos ao longo da Ocean Drive, estabelecendo um novo padrão de ousadia arquitetônica e engenharia costeira. Hoje, a casa fica ao lado da Seafair — antes pertencente à herdeira bancária Verna Cook Salmons e atualmente parte do mercado imobiliário ultraluxuoso — atraindo investidores de grande porte para a costa sul de Newport.
Newport abriga ao menos três bilionários conhecidos:
Larry Ellison
Desde 2010, o cofundador da Oracle, Larry Ellison, é proprietário da Beechwood Mansion. Antes pertencente à família Astor e aberta para visitas privadas nos anos 1980, a propriedade foi ampliada por Ellison com a compra de imóveis contíguos no mesmo complexo — incluindo a casa conhecida como Seacliff, adquirida em 2019 por cerca de US$ 11 milhões — consolidando o que havia sido uma propriedade de nove acres da família Astor.
Uma entidade ligada a Ellison também apresentou planos para uma nova mansão de 15 mil pés quadrados no histórico terreno Summerwind, com custo estimado em US$ 39,5 milhões. Ex-sede da America’s Cup, Newport também atende ao principal hobby esportivo de Ellison: a vela.

Stephen Schwarzman
Stephen Schwarzman, presidente e CEO do fundo de private equity Blackstone, é dono da Miramar Mansion, uma residência neoclássica francesa de 30 mil pés quadrados, situada em um terreno de 7,8 acres na Bellevue Avenue.
Mark Walter
CEO da Guggenheim Partners, Mark Walter é coproprietário do Los Angeles Dodgers e do Los Angeles Lakers. Quando não está na Costa Oeste, ele pode ser encontrado em uma de suas duas mansões na Bellevue Avenue — localizadas em ambos os lados da propriedade de Schwarzman.
Mansões históricas
Muitos moradores locais conseguem rastrear sua linhagem até períodos específicos da história de Newport, que remonta ao século 18. A escravidão não foi legalmente proibida em Rhode Island até 1843. Ondas de imigrantes irlandeses chegaram em meados do século 19, muitos deles responsáveis pela construção das mansões opulentas que ainda hoje definem a paisagem da cidade. O Naval War College, fundado em 1884, trouxe gerações de militares a Newport. Essas camadas históricas seguem vivas por meio de seus descendentes.
O capítulo da história de Newport que mais atrai turistas é a Era Dourada, quando fortunas industriais se encontraram com gostos aristocráticos de inspiração europeia, criando um legado cultural duradouro. Algumas das famílias mais ricas dos Estados Unidos — como Vanderbilt, Astor, Berwind e Wetmore — passaram a frequentar Newport no fim do século 19, transformando a tranquila cidade litorânea em um playground de opulência inimaginável.
Algumas dessas residências permanecem de pé como cápsulas do tempo, oferecendo um olhar íntimo sobre a vida do primeiro “1%” americano.
The Breakers – Newport, RI

O The Breakers, “cottage” de verão da família Vanderbilt em estilo renascentista italiano, foi encomendado por Cornelius Vanderbilt II em 1893. Por dentro, os salões brilham com folhas de ouro, mármore e vidro de Murano. Do lado de fora, 70 acres à beira-mar criam o cenário ideal para festas no jardim e eventos privados. Visitas privadas estão disponíveis diariamente, das 8h às 17h, a partir de US$ 1.500 por uma hora (duas horas são o ideal para apreciar plenamente a história e os detalhes arquitetônicos).
O tour The Breakers Third Floor Preservation in Progress oferece acesso raro às áreas onde viviam funcionários durante o auge da Era Dourada. “É uma experiência guiada e limitada, que inclui quartos, banheiros e espaços de lazer usados pela família Vanderbilt e pela equipe doméstica por mais de um século”, afirmou Bill Tavares, gerente de comunicação da Preservation Society of Newport, em e-mail. “É uma experiência muito diferente do tour padrão”, acrescentou.
The Elms – Newport, RI

O The Elms foi a residência de verão de Edward Julius Berwind, magnata do carvão conhecido por seu espírito empreendedor. Inspirada em um castelo francês do século XVIII, a mansão foi equipada com um dos primeiros sistemas elétricos residenciais durante sua construção (1898–1901). Cercada por jardins formais, terraços e fontes, abriga uma impressionante coleção de pinturas, esculturas e tapeçarias.
Rosecliff – Newport, RI

Com vista para o Oceano Atlântico, a Rosecliff foi encomendada em 1899 pela herdeira da prata Theresa Fair Oelrichs e inspirada no Grand Trianon, retiro de jardim dos reis franceses em Versalhes. O filme O Grande Gatsby (1974) teve várias cenas gravadas ali.
Bilionários, clubes exclusivos e círculos sociais
Apesar da democratização das viagens, Newport mantém hierarquias sociais bem definidas. Embora acessível, seus círculos mais exclusivos continuam restritos. As profundas camadas culturais acumuladas ao longo dos séculos ainda estão presentes.
Famílias tradicionais como Rooney, O’Brien e Barrett — ligadas à política local e ao desenvolvimento inicial da cidade — seguem influentes, seja como proprietárias de terrenos valiosos, seja à frente de negócios históricos.

Gooseberry Beach
O terreno que hoje abriga a Gooseberry Beach foi doado em 1880 por John Alfred Hazard ao Newport Hospital. Nos anos 1950, moradores locais compraram a área e a transformaram em um clube de praia privado. Ainda funciona por associação, mas oferece passes diários para não membros.
The Reading Room
Fundado em 1854, o The Reading Room é um dos clubes masculinos mais tradicionais da cidade, preservando silenciosamente a hierarquia social dos verões da Era Dourada.
Bailey’s Beach (Spouting Rock Beach Association)
Ainda hoje um clube privado e exclusivo, com acesso hereditário e raramente transferido. Vanderbilts e Astors estiveram entre seus membros.
The Clambake Club
Fundado em 1895, celebra tradições costeiras em encontros longe do olhar público. Entre seus primeiros membros estavam Oliver Belmont e William Kissam Vanderbilt. Em 1995, foi incluído no Registro Nacional de Lugares Históricos.
expresso.arq com informações de Paula Conway


