As tendências de decoração e design para 2026
O que esperar de 2026 no segmento de arquitetura e design? Para responder a essa pergunta, ouvimos trend forecasters, pesquisadores, arquitetos e designers que ajudaram a mapear alguns dos movimentos mais fortes para os próximos anos. Avistar o futuro não é tarefa simples — principalmente considerando um cenário marcado por crises políticas, econômicas e culturais, somado à emergência climática e à transição tecnológica.
Diante desse desafio, os especialistas entrevistados por Casa Vogue apontaram três grandes direções: as casas devem ganhar interiores mais personalizados e afetivos; a tecnologia deve operar de forma sutil e quase invisível; e devemos esperar projetos de arquitetura e design com uma materialidade guiada pela descarbonização e pelos materiais biobaseados e biofabricados.
Casas com identidade
Ao longo de 2025, os projetos de interiores se afastaram do minimalismo e deram lugar a casas mais expressivas e ligadas à história pessoal de quem vive ali. Esse movimento simboliza um desejo de expressão de identidade. Monica Levandoski, consultora sênior da WGSN Mindset, comenta: “Períodos de crise e incerteza geralmente impulsionam uma resposta dupla: uma busca por simplicidade e segurança, mas também por ambientes expressivos, capazes de gerar emoção”.
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Segundo a pesquisadora, as previsões da WGSN para 2025–2027 mostram “um aumento no maximalismo, no artesanato e nas referências nostálgicas”, acompanhados de uma busca por espaços que despertam sensações. Devemos esperar, portanto, o aumento de texturas, tecidos diversos e materiais naturais na decoração. “Nós mapeamos uma tendência chamada Reset Sensorial: despertar os sentidos é uma forma de nos resgatar e nos trazer de volta para o presente.”
O arquiteto Alexandre Salles, professor universitário e titular do Estúdio Tarimba, se refere a essa macrotendência como “lar com identidade”. Para ele, hoje mais do que nunca, há um desejo de viver em interiores que dialoguem com narrativas pessoais e referências locais. “Deveríamos olhar para a casa como um espaço de restauração”, comenta. Ele observa que, diante de um mundo caótico, as pessoas buscam “um lar mais biográfico, um lar com alma, com memória e objetos que contam histórias. As pessoas querem sentir que moram em uma casa com narrativa, não em um catálogo”.
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Essa busca por autenticidade também se manifesta quase como um posicionamento cultural. O WGSN, por exemplo, apelidou de hiperlocalidade o movimento de incorporar referências regionais ao décor. “Mas é algo que precisa ser feito com sensibilidade e legitimidade, respeitando as histórias e saberes sem se apropriar deles”, afirma Monica. “Eu acho que estamos querendo fugir desse design pasteurizado”, diz Alexandre. “Eu estudo a ancestralidade e acho importante cultivarmos uma visão mais autoral, mais autêntica dentro das nossas casas”, completa o arquiteto.
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No Brasil, essa tendência encontra um terreno muito fértil. O arquiteto Guto Requena, que lidera seu próprio estúdio, pondera que “temos um saber artesanal muito ímpar no contexto global”. Para ele, a casa brasileira é maximalista por natureza. “Eu acredito no minimalismo como um conceito, uma proposta de consumir menos. Mas as casas brasileiras não são minimalistas — são casas que misturam cores, texturas, referências… O nosso luxo é carregado de memória”, comenta.
Graziela Nivoloni, coordenadora da Graduação de Design de Produto e Serviços no IED São Paulo, pondera que a artesania também vem recuperando protagonismo no mundo do design. “Acho que estamos vendo uma revalorização dos fazeres manuais e dos saberes tradicionais”, diz. “Podemos criar novas possibilidades de colaboração com o feito à mão e a tecnologia.”
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A rede social Pinterest, que produz anualmente seu relatório de tendências, também percebe a materialização desse desejo de dizer adeus aos ambientes clean e abraçar as texturas, o artesanato e a decoração afetiva. No estudo Pinterest Predicts 2026, eles apontam três tendências que seguem essa diretriz: afrodecor, com ambientes que dialogam com a ancestralidade, trazendo materiais naturais, tecidos diversos e memórias; casa lúdica, com mais cores e estampas; e neo déco, estética que celebra o vintage e o maximalista.
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Tecnologia silenciosa ou Quiet Technology
De acordo com os entrevistados, a segunda macrotendência para 2026 e adiante é a presença da tecnologia de forma discreta, integrada e quase imperceptível nos projetos de arquitetura e interiores.
Alexandre Salles chama esse movimento de “tecnologia silenciosa”, quase como uma referência ao quiet luxury. Para ele, a tecnologia amparada pela inteligência artificial propõe uma verdadeira simbiose com a casa. Ou seja, não será preciso programá-la, e sim deixá-la entender e se adaptar ao dia a dia dos usuários.
O arquiteto Guto Requena, por sua vez, chama esse aspecto de “tecnologia ubíqua” — algo difuso, presente em todas as partes. “É uma tecnologia que você não vê. A casa em si se torna uma interface comunicante”, explica.
Monica Levandoski reforça essa proposta e comenta que a expectativa do consumidor é que a tecnologia seja incorporada cada vez mais à rotina. “O principal desejo dos consumidores é usar a Inteligência Artificial como uma facilitadora, e não como mais um entrave. Personalização inteligente, eficiência, sustentabilidade e autonomia são as principais formas da influência da IA no ambiente da casa”, afirma.
No mundo acadêmico, a inteligência artificial já aparece nos processos criativos e de aprendizagem – algo fundamental no trabalho de arquitetos e designers. Embora muitas instituições ainda debatam seu uso nas metodologias de ensino, Graziela Nivoloni observa que ela já funciona como ferramenta auxiliar, acelerando etapas e permitindo que estudantes se dediquem mais ao fazer manual. “Discussões sobre limites, responsabilidade e integração da IA fazem parte da formação desses profissionais na sala de aula”, afirma.
Materiais de baixo carbono
A terceira tendência está vinculada às recentes discussões ambientais e aborda principalmente o uso e a popularização de materiais de baixo carbono e biodegradáveis. Graziela Nivoloni explica que, hoje, o design discute especialmente os materiais biobaseados e biofabricados: “Biobaseados são compostos por elementos orgânicos, de maneira simplificada. Já os biofabricados envolvem bactérias, micélio — ou seja, uma criação em colaboração com a natureza”.
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Ela observa que existem “estratégias muito sofisticadas na natureza”, e que aprender com elas será central nos próximos anos. No IED-SP, inclusive, Graziela conta que os alunos de graduação já vem fazendo experimentos: há projetos de tecidos criados a partir de casca de ovo, de algas e outros materiais naturais.
Para Guto Requena, fazer escolhas pautadas pela sustentabilidade já é uma realidade em seu escritório e orienta 100% das decisões de sua equipe. “O mundo mudou, e isso impacta nossas escolhas como arquitetos e também as escolhas dos clientes. Hoje, projetar espaços descarbonizados é um valor agregado.”
Nos últimos anos, ele vem consolidando seu trabalho com materiais biobaseados e impressão 3D. Revisitar saberes ancestrais também é uma forma de lidar com a emergência climática, segundo Guto. “Se olharmos para as construções indígenas, percebemos que elas eram biodegradáveis e biobaseadas. Nossos povos originários não deixaram rastros. Isso é especial no Brasil”, diz.
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Alexandre Salles também reforça a importância dos materiais biobaseados e biofabricados — algo que já é realidade no mercado de luxo. Marcas como Stella McCartney já possuem criações com couro de uva, por exemplo, enquanto designers de renome internacional, como Patricia Urquiola, vêm experimentando novos compostos.
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Na Bienal de Arquitetura de Veneza, por exemplo, Urquiola apresentou uma instalação feita a partir de um cimento especial feito com aglomerantes hidráulicos, agregados minerais, vidro reciclado, espirulina e elementos orgânicos provenientes da lagoa veneziana (incluindo juncos de pântano, conchas, redes de pesca e filamentos de algas).
Para o arquiteto, trabalhar com essas soluções e resíduos naturais permite um controle maior da cadeia de produção. “Quando você faz isso, você entende melhor o território, tem rastreabilidade e enxerga o ciclo completo”, comenta. “Eu aposto muito nesses novos materiais, que têm outro ciclo e podem ser melhor descartados no meio ambiente”, diz.
Segundo o profissional, estes estudos sobre materialidade apontam um caminho possível diante da necessidade de mudança de comportamento por conta das atuais tensões geoambientais. “Não dá mais para gerar projetos sem responsabilidade socioambiental. Isso impacta diretamente o que nós vemos como globo”.
expresso.arq com informações de Vanessa D’Amaro


