Canetas para obesidade 2.0: o que está a caminho pode ser ainda mais transformador
O Ozempic e a classe de medicamentos para perda de peso que ele representa, deixaram sua marca em praticamente todos os lugares: na vida de milhões de pacientes que perderam peso de uma maneira sem precedentes; nas prateleiras dos supermercados, com novos produtos voltados especificamente para quem usa os remédios; e até mesmo nos cálculos das seguradoras que estudam os efeitos das canetas na mortalidade.
Apesar de todas as mudanças sociais trazidas pelos medicamentos GLP-1, seu alto preço limita o acesso.
Muitos pacientes interrompem o tratamento após apresentarem efeitos colaterais indesejáveis. Outros permanecem à margem por não quererem se submeter às injeções.
Mas uma nova onda da medicina está chegando e poderá ser ainda mais transformadora para a saúde humana: comprimidos, medicamentos injetáveis mais potentes e novos compostos que podem ter menos efeitos colaterais ou que podem ser tomados apenas uma vez por mês.
“Com essa nova geração de medicamentos não estamos focando apenas na perda de peso”, diz David Lau, endocrinologista e professor emérito da Faculdade de Medicina Cumming da Universidade de Calgary.
“Estamos falando de mudanças que vão além do que se vê na balança.”
Não há garantia de que esses tratamentos de última geração cumprirão essa promessa.
Eles ainda não foram aprovados pela Food and Drug Administration (FDA, agência semelhante à Anvisa), que alertou os consumidores sobre versões não autorizadas anunciadas na internet.
Além disso, é comum a FDA identificar novos riscos após a aprovação de medicamentos, como ocorreu nos últimos anos com os agonistas de GLP-1.
O potencial dessas ofertas futuras é tão grande que a Eli Lilly, em alguns aspectos a empresa dominante no campo da perda de peso, atingiu um valor de mercado superior a US$ 1 trilhão — é a primeira empresa do setor de saúde a alcançar esse marco.
Aqui está uma visão do que esperar, com análises de pesquisadores da área de obesidade que lideraram importantes ensaios clínicos e que também receberam honorários de empresas farmacêuticas relacionados ao seu trabalho.
Comprimidos de próxima geração
Tanto a Novo Nordisk quanto a Eli Lilly estão se preparando para lançar no ano que vem — caso sejam aprovados pelo FDA, como é amplamente esperado — comprimidos para perda de peso de uso diário. Isso permitiria que os pacientes evitassem a injeção atual com as canetas.
“Algumas pessoas têm medo de usar agulhas e de aplicar injeções em si mesmas”, disse Lau.
Os comprimidos não precisam de refrigeração — o que aumenta o custo e a complexidade do transporte e armazenamento de medicamentos injetáveis — e há indícios de que seus preços serão mais baixos.
“O que Henry Ford fez com o carro não foi criar um carro melhor. Ele simplesmente fabricou mais carros e os tornou mais acessíveis”, diz o médico Sean Wharton, pesquisador em Toronto e autor principal de dois artigos publicados recentemente no The New England Journal of Medicine sobre versões orais de GLP-1.
Ao oferecer mais praticidade a um custo menor, ele afirma, esses comprimidos poderiam ter um efeito semelhante na perda de peso.
A desvantagem é que os comprimidos que estão sendo testados até agora não são tão eficazes.
Em ensaios clínicos que duraram mais de um ano, os participantes perderam, em média, de 11% a 14% de seu peso corporal.
Com os medicamentos injetáveis, a perda de peso é de cerca de 15% a 20%.
O comprimido Wegovy, da Novo Nordisk, provavelmente será o primeiro a chegar aos pacientes norte-americanos.
A empresa espera uma decisão da FDA antes do fim do ano e poderá lançar a versão no início de 2026.
A Eli Lilly apresenta seu comprimido de GLP-1, a orforgliprona, como mais conveniente por não ter restrições quanto à alimentação e ingestão de líquidos.
A expectativa em relação aos comprimidos é tão grande que eles já estão incluídos nas negociações de preços de medicamentos com a Casa Branca.
A Novo Nordisk e a Eli Lilly fecharam acordos com o governo Trump no início de novembro para oferecer certos medicamentos com desconto em troca do acesso ao Medicare, que até então era proibido de cobrir medicamentos para perda de peso.
As farmacêuticas afirmaram que ofereceriam a menor dose de seus novos comprimidos, caso aprovados, diretamente aos consumidores por US$ 150 por mês.
Mais perda de peso, menos efeitos colaterais?
Os medicamentos para perda de peso atuais funcionam como chaves que destravam os processos naturais do corpo, enviando instruções para produzir mais hormônios intestinais que sinalizam ao cérebro quando parar de comer.
Os medicamentos existentes atuam em um ou dois desses hormônios.
A Eli Lilly está desenvolvendo um que atua em três, com potencial para reduções de peso ainda maiores.
De acordo com um artigo de 2023, os participantes de um ensaio clínico que usaram a dose mais alta desse medicamento perderam, em média, 24,2% do peso corporal ao longo de 48 semanas.
Os pesquisadores esperam que a magnitude dessa perda possa ser ainda maior em um período mais longo.
“Existem pacientes com obesidade grave que precisarão de medicamentos mais fortes”, afirma Ania Jastreboff, diretora do Centro de Pesquisa sobre Obesidade de Yale e principal autora do artigo de 2023.
Ela também está escrevendo, em parceria com Oprah Winfrey, um livro sobre obesidade que será lançado em breve.
Antes de solicitar a aprovação da FDA, a Eli Lilly aguarda os resultados de vários grandes ensaios clínicos com a retatrutida, previstos para o fim de 2026.
Os riscos potenciais para alguns pacientes incluem a possibilidade de perda excessiva de peso ou massa muscular.
As farmacêuticas também estão combinando moléculas conhecidas por suprimir o apetite em busca de um efeito mais potente.
O medicamento experimental CagriSema, da Novo Nordisk, combina a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, com um composto que imita outro hormônio intestinal chamado amilina.
Um ensaio clínico constatou que a combinação aumentou a perda de peso média para cerca de 20% do peso corporal, ou 5% a mais do que a semaglutida isoladamente.
A empresa espera solicitar a aprovação do FDA para o CagriSema no próximo ano. A Eli Lilly publicou, no início de novembro, dados de um ensaio clínico para um medicamento que estimula a amilina.
“Estudamos a amilina para perda de peso há mais de 20 anos”, afirma Louis Aronne, diretor do Centro de Controle de Peso da Weill Cornell Medicine.
“Em certos aspectos, pode ser um composto melhor”, diz ele, acrescentando que parece causar menos perda de massa magra e menos efeitos colaterais relacionados ao estômago.
Uma dose mensal?
Embora muitos considerem um comprimido diário mais conveniente do que uma injeção semanal, as farmacêuticas estão se aproximando de outra fronteira: um medicamento capaz de proporcionar perda de peso comparável aos melhores medicamentos existentes e que precisa ser injetado apenas uma vez por mês.
No início deste mês, a Pfizer venceu a Novo Nordisk em uma disputa acirrada e pagou até US$ 10 bilhões pela Metsera, uma empresa de biotecnologia cujos principais produtos para perda de peso estão sendo estudados para administração mensal.
O medicamento experimental MariTide, da Amgen, demonstrou uma perda média de até 16% do peso corporal ao longo de um ano, embora os dados dos ensaios clínicos sobre efeitos colaterais tenham gerado preocupação entre os especialistas.
Ania, autora principal do estudo MariTide, prevê um futuro em que injeções “mensais ou menos frequentes” serão uma opção para os pacientes.
Alguém ainda estará usando Ozempic daqui a 5 anos?
Os medicamentos à base de tirzepatida da Eli Lilly, Mounjaro e Zepbound, geraram juntos aproximadamente US$ 25 bilhões nos primeiros nove meses do ano, tornando-se os mais vendidos do mundo.
Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk, não ficam muito atrás, com o equivalente a US$ 23,5 bilhões no mesmo período.
Mas se os pacientes podem optar por tomar um comprimido para emagrecer, um injetável mais potente ou um medicamento com menos efeitos colaterais, qual o apelo dos atuais sucessos de vendas?
Esses medicamentos podem ter efeitos duradouros, dizem os pesquisadores. Já existem anos de dados sobre a segurança dos medicamentos GLP-1 fora dos ensaios clínicos. O FDA aprovou o Wegovy não apenas para perda de peso, mas também para reduzir o risco cardiovascular, enquanto a tirzepatida é aprovada para apneia do sono.
Não há garantia de que outros medicamentos que surgirem, por mais promissores que sejam, apresentarão os mesmos benefícios.
“Esse é o obstáculo que qualquer outra classe de medicamentos terá que superar para demonstrar que é possível reduzir o risco de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral e morte”, diz Aronne.
Uma combinação de concorrência de mercado e políticas governamentais também está começando a reduzir os preços, o que significa que qualquer novo medicamento terá que ser superior para justificar um valor mais alto do que os medicamentos GLP-1 atuais.
“Ter mais opções também cria um espaço em que há mais concorrência”, avalia Ania, na esperança de que isso reduza os custos e torne os medicamentos mais acessíveis.
Wharton afirma que a semaglutida é “uma molécula realmente incrível” que pode trazer benefícios no longo prazo para problemas como a doença arterial coronariana e a osteoartrite.
Ao refletir sobre os tratamentos de próxima geração, ele usa uma metáfora tecnológica.
“Ninguém mais usa o iPhone 1, né?”, diz. “Mas às vezes eu queria ter meu Blackberry de volta”.
expresso,arq sobre artigo de Daniel Gilbert / The Washington Post


