Por que a exploração da Margem Equatorial é fundamental para a Petrobras no longo prazo?

Após 11 anos de espera, o Ibama concedeu no último dia 20/10, a licença de operação para a Petrobras perfurar um poço na bacia da Foz do Amazonas – uma das cinco bacias da Margem Equatorial brasileira -, onde é estimada a presença de 30 bilhões de barris de petróleo, segundo estimativas da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

A confirmação da existência de petróleo na nova fronteira será um alívio para a Petrobras, que precisa recompor suas reservas, além de sinalizar uma injeção de investimentos em uma das regiões mais pobres do País.

Atualmente o Brasil produz 4 milhões de barris de petróleo por dia, com reservas provadas de 16,8 bilhões de barris.

Nesse ritmo, sem novas reservas, o petróleo nacional acabaria em cerca de 12 anos.

Ou seja, há a necessidade de o País buscar novas fontes se não quiser se tornar importador de petróleo no longo prazo.

O poço pioneiro Morpho, no bloco FZA-M-59, que será explorado pela estatal, fica a 175 km da costa do Amapá, Estado vizinho à Guiana e ao Suriname, países que encontraram reservatórios gigantes na Margem Equatorial.

O primeiro pedido para explorar o bloco foi feita pela BP, em 2014 – a empresa abandonou o projeto em 2021, que passou a ser comandado pela Petrobrás.

A previsão da estatal é de que a perfuração, iniciada imediatamente após a concessão da licença, dure cerca de cinco meses.

Se confirmada a existência dos reservatórios, a produção poderia ser iniciada em seis anos, quando está previsto o declínio dos poços do pré-sal – que hoje sustentam a produção da Petrobras, após o declínio da bacia de Campos.

“Esperamos obter excelentes resultados nessa pesquisa e comprovar a existência de petróleo na porção brasileira dessa nova fronteira energética mundial”, afirmou a presidente da Petrobras, Magda Chambriard.

A executiva ressaltou recentemente que nem sempre a descoberta ocorre no primeiro poço, por isso mais três perfurações estão programadas.

Para o professor e pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar Almeida, a concessão da licença foi um passo importante para o País ter o direito de verificar se existe potencial petrolífero significativo na parte brasileira da Margem Equatorial.

“A gente tem as descobertas na Guiana e Suriname de classe mundial em reservas gigantes, e não seria justo para o Brasil não poder nem saber se existe ou não essa riqueza. A partir dessas descobertas, o Brasil saberá se é conveniente desenvolver essas reservas, e isso vai depender do volume dessas descobertas”, explicou Almeida.

Incerteza

A notícia da concessão da licença retirou a incerteza regulatória que pairava sobre a estatal, avaliou o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman.

As ações da empresa chegaram a virar do negativo para o positivo, mas cederam ao longo do dia por conta da queda do preço do petróleo.

Segundo Arbetman, o impacto só não foi maior porque os ganhos no caixa da empresa virão apenas no longo prazo.

“Embora o evento ainda não implique mudanças de curto prazo em produção ou fluxo de caixa, é positivo para as ações da Petrobras, pois marca o início de uma nova fase de exploração em uma das últimas fronteiras geológicas inexploradas do País”, disse em nota, ressaltando que as reservas provadas da companhia atualmente têm horizonte estimado de pouco mais de 10 anos, tornando a abertura dessa nova frente estratégica para o longo prazo.

Já a analista Monique Greco, do Itaú BBA, observou que, apesar de a concessão da licença ser positiva, “continua sendo um desafio avaliar sua relevância para a tese de investimento de longo prazo da Petrobras”.

Ainda segundo ela, “exemplos históricos como Tupi e Búzios (no pré-sal) demonstram que, mesmo após as descobertas iniciais, podem ser necessários anos de avaliação, testes e investimentos significativos para confirmar o potencial do reservatório e declarar a comercialidade”, alertou Greco.

Mas, para o presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo e Gás Natural (IBP), Roberto Ardenghy, a exploração da Margem Equatorial pode trazer benefícios socioeconômicos para o País.

Ele projeta um aumento significativo da arrecadação de royalties, participações especiais e tributos, hoje na ordem de R$ 300 bilhões por ano, e que poderão ser investidos em políticas públicas essenciais para o Brasil.

“Esta é uma decisão importante que permitirá ao País conhecer melhor o potencial de suas reservas, apoiando a segurança energética e o desenvolvimento socioeconômico da Região Norte”, disse Ardenghy.

Da mesma tese compartilha o coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, que vê nas atividades da Petrobras no Amapá uma oportunidade para desenvolver a região.

Porém, ele destacou que a riqueza gerada precisa ajudar na proteção da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica, da Caatinga, projetos de fato socioambientais, que sejam feitos em parceria e diálogo com as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, dos povos originários e com os trabalhadores.

Às vésperas da COP-30, em Belém, no Pará, Bacelar avaliou que os recursos da produção na Margem Equatorial serão fundamentais para financiar a transição energética.

Opinião que diverge das organizações ambientais, que já programam uma ação civil pública na Justiça Federal contra a concessão da licença, que está sendo chamada pelo Greenpeace de “um boicote contra a COP-30”.

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