COP-30: 4 sinais do risco de uma Cúpula do Clima esvaziada em Belém
O Brasil corre risco de sediar, em novembro, em Belém, uma Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30) esvaziada.
A lista de problemas inclui: crise da hospedagem, risco de votações travadas, atraso na entrega das metas climáticas pelos países e desinteresse de CEOs de empresas em ir ao Pará com o objetivo de discutir medidas contra o aquecimento global.
O governo federal, por sua vez, diz que as medidas tomadas – como criar uma plataforma de hospedagem, a oferta de dois navios para as delegações e a negociação com o setor hoteleiro local – estão dando certo.
“A COP-30 terá a participação de todos os países que assim o desejarem e também da sociedade civil”, disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
A grande ameaça de um possível esvaziamento da COP-30 é a perda de legitimidade da conferência climática.
Apesar dos apelos e convites públicos feitos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, outro desafio do Brasil é não perder uma oportunidade histórica de se firmar como liderança nas negociações climáticas.
Entre os temas que serão debatidos em Belém estão: corte de emissões de gases de efeito estufa; adaptação às mudanças climáticas; financiamento para países em desenvolvimento; tecnologias de energia renovável e soluções de baixo carbono; preservação de florestas e biodiversidade e justiça climática e os impactos sociais das mudanças climáticas.
Maioria dos países não entregou suas novas metas climáticas
Até agora, menos de 50 países entregaram suas metas de cortes de emissões do efeito estufa, conhecida como NDC (sigla em inglês para Contribuição Nacionalmente Determinada).
Dos países do G20 – que respondem por aproximadamente 80% das emissões globais – , somente Brasil, Reino Unido, Canadá, Japão, China e EUA (ainda na gestão Joe Biden) divulgaram suas metas.
No caso americano, porém, o novo presidente, Donald Trump, decidiu sair do Acordo de Paris, pacto global para frear o aquecimento do planeta.
Grandes emissores, como a União Europeia (terceiro maior emissor) ainda não apresentaram.
O presidente da China, Xi Jinping, discursa remotamente durante a “Cúpula do Clima 2025”, na Assembleia Geral das Nações Unidas. Charly Triballeau / AFP – 24/09/2025
“Faço um apelo aos países que ainda não apresentaram a NDC (sigla para a meta climática). O sucesso da COP-30 de Belém depende de vocês”, falou Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil
Só na última quarta-feira, 24, o presidente da China, Xi Jinping, anunciou a nova meta climática do país.
Os chineses se comprometeram em reduzir as emissões de gases estufa entre 7% e 10% até 2035.
Grande parte dos países não confirmou hospedagem
Pelas normas da ONU, para que qualquer reunião da conferência climática seja realizada é necessária a presença de ao menos um terço dos países.
E “a presença de dois terços das partes da convenção (130 nações) é requerida para a tomada de qualquer decisão”, prevê a regra 31 do órgão do Clima da ONU.
Mas, na COP-30, a primeira no Brasil, a adesão tem sido lenta por causa dos altíssimos preços de diárias de hotéis e imóveis alugados.
Muitos países já alegaram não ter verba suficiente para ficar no Pará de 10 a 21 de novembro.
Até o último dia 24, só 87 nações (menos da metade) confirmaram presença (e garantiram hospedagem) na reunião climática, que será em novembro.
Falta de estrutura de acomodações em Belém virou gargalo para a realização da conferência climática. Tiago Queiroz / Estadão
“O surreal é que, a essa altura, a gente não deveria discutir se terá quórum para decisões. Isso já deveria ter sido resolvido há muito tempo”, ressaltou Márcio Astrini, Secretário-executivo do Observatório do Clima
Segundo a Secretaria Extraordinária para a COP-30 (Secop), do governo federal, a expectativa é de que a grande maioria das 195 nações signatárias do Acordo de Paris, pacto global contra a crise climática, esteja representada. A pasta diz ter medidas em curso para resolver os gargalos.
Saída dos EUA do acordo de Paris e vácuo de liderança
No início do ano, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou para janeiro de 2026 a saída do país – segundo maior emissor de gases estufa, atrás apenas da China – do Acordo de Paris.
O tratado prevê limitar o aumento médio da temperatura global em 2ºC, idealmente a 1,5ºC.
A expectativa é de que, na COP-30, em Belém, os compromissos firmados há 15 anos sejam transformados em ações concretas.
Especialistas em energia consideraram o nível de pressão que Trump está exercendo sobre outros países preocupante.
“A pegada de carbono é uma farsa inventada por pessoas mal-intencionadas, e elas estão trilhando um caminho de destruição total”, afirmou Donald Trump, Presidente dos EUA, que tem adotado postura de negacionismo climático
Na terça-feira, 23, durante discurso na Assembleia Geral da ONU, Trump reafirmou teorias negacionistas sobre as mudanças climáticas e defendeu o uso de combustíveis fósseis.
Na análise de cientistas, qualquer acordo sem a participação dos EUA, os maiores emissores da história, é fadado ao fracasso.
Para especialistas, não há sucessor óbvio para liderar as negociações, em um mundo transformado por guerras e crises econômicas. Algumas apostas seriam União Europeia, G20, China e, até mesmo, Brasil.
Empresários desanimados
Apesar de a convocação do presidente da COP-30, o embaixador André Corrêa do Lago, para que o setor privado vá à conferência climática, os principais representantes desse segmento, os CEOs das grandes empresas, não devem ir ao Pará.
A avaliação dos executivos é de que há risco de se tornarem alvos de ataques de ativistas ambientais e que toda a questão logística – sobretudo a escassez de locais de hospedagem – dificulta a participação.

Parque da Cidade, em Belém, receberá eventos da COP-30. Raphael Luz / Ag. Pará
“Estamos convocando as empresas a comparecerem e se engajarem por meio de soluções, parcerias, investimentos e ideias” conclamou André Corrêa do Lago, Presidente da COP-30
Alguns executivos devem optar por eventos sobre sustentabilidade em São Paulo, na semana anterior à COP-30.
São Paulo receberá, por exemplo, o Climate Action Innovation Zone, evento de 6 a 9 de novembro, no qual serão apresentadas soluções e inovações de empresas para a questão climática.
Redação CNPL sobre artigo de Roberta Jansen / OESP


