Por dentro da tendência de escritórios com ‘cara de hotel’ da Faria Lima

Logo após a entrada, à direita, fica a sala com mesa de sinuca, pebolim, arquibancada e cozinha aberta com lanches e bebidas liberados.

Poucos passos adiante, uma arte do  artista em spray, Kobra ocupa a parede ao lado das mesas compartilhadas.

Quase em frente, uma sala menor abriga manicure e massagista que se revezam em uma agenda quase sempre lotada.

Mais adiante, uma ampla área coletiva de trabalho, sem baias ou mesas fixas, com cabines individuais e mesa automática para fazer reuniões em pé.

Este é o escritório da Databricks, startup de dados e inteligência artificial que inaugurou o escritório próprio em julho deste ano na avenida Faria Lima, um dos endereços comerciais mais caros da capital paulista.

Sem política global de retorno, a empresa mantém um modelo flexível com os quase 200 funcionários no Brasil que vão ao menos dois ou três dias por semana à Sede.

O projeto foi pensado para reduzir hierarquias, não há salas individuais e qualquer colaborador pode reservar uma das 11 salas de reunião disponíveis.

“A localização é fácil para os colaboradores, isso foi levado em consideração”, afirma Marcos Grilanda, vice-presidente e gerente-geral da Databricks para a América Latina.

“O nosso objetivo principal era ter um lugar em que as pessoas quisessem estar”.

Segundo especialistas, o espaço também traduz um movimento global que ganhou força após a pandemia com o retorno ao presencial: menos salas privadas, mais áreas de descompressão e serviços incorporados da hotelaria, como massagem, meditação, manicure, sala de jogos e cinema.

“É como a lógica de um hotel, o que não tenho em casa que me faria querer ir para lá? O escritório precisa oferecer essa atratividade, seja em infraestrutura ou em experiências” explica Fernanda Mourão Arquiteta especializada em espaços corporativos.

A arquiteta afirma que, após a pandemia, aumentou a busca por plantas mais flexíveis, fáceis de serem adaptadas sem necessidade de grandes reformas, desafio enfrentado atualmente em prédios antigos da Faria Lima, que dependem de retrofit para se alinharem aos novos hábitos dos trabalhadores.

A rteportagem visitou quatro empresas na região da Faria Lima que reformaram ou inauguraram seus escritórios nos últimos anos para entender como esses espaços vêm sendo adaptados às novas formas de trabalho, ainda marcadas por profissionais que não querem trocar a flexibilidade do home office pelo escritório.

Neste cenário, todas as companhias visitadas seguem o regime híbrido e não há planos de mudança.

Algumas nem exigem presença obrigatória no escritório.

Em São Paulo, esse é o modelo mais utilizado, segundo dados da consultoria imobiliária global CBRE.

A lógica entre casa e escritório também acompanha o design dos novos espaços, que agora adotam um estilo menos hierarquizado: as baias exclusivas foram substituídas por mesas compartilhadas e não há salas individuais para o alto escalão.

A estratégia das empresas para atrair funcionários para o escritório inclui serviços de bem-estar que uma pessoa poderia ter acesso em um hotel.

O uso da tecnologia também foi ampliado, a exemplo de salas adaptadas para reuniões híbridas.

Na Heineken, o bar com torneiras de chope à vontade ganha dupla função, além de ser usado para happy hour, também recebe eventos e palestras.

Para quem quer mais privacidade, há algumas mesas com capacidade para até quatro pessoas.

A maioria das salas coletivas tem recursos para reunião híbrida.

Algumas têm um tom mais sóbrio, outras são mais coloridas, com puffs e até banheira decorativa.

“Quem chega aqui consegue entender um pouco da nossa informalidade. É uma empresa mais ‘cool’ e que tenta criar espaços para que as pessoas sejam livres e se conectem com as outras”, afirma Marília Padovani, gerente de cultura e desenvolvimento organizacional da Heineken.

Na Shopee, o café é a área mais utilizada pelos funcionários.

Segundo Karina Hartung, líder de pessoas na companhia, o design do escritório foi planejado para oferecer bem-estar, comodidade e ambientes que estimulam tanto o foco quanto a colaboração.

“No caso das salas, por exemplo, pensamos no tamanho ideal para comportar treinamentos e reuniões de times maiores”, conta.

No dia da visita, a reportagem encontrou colaboradores aproveitando o serviço de manicure, algumas cabines telefônicas estavam ocupadas e muitas mesas compartilhadas estavam vazias.

Outros serviços, no entanto, não vingaram e acabaram descontinuados, como a sala de meditação e a barbearia.

Já na Databricks, a preferência recai sobre a área que reúne jogos, arquibancada e cozinha aberta.

No dia da visita, todas as cabines telefônicas estavam livres. Segundo a arquiteta Fernanda Mourão, o uso de espaços privados diminuiu após a pandemia.

“Se a pessoa vai ao escritório apenas para uma reunião virtual, não há necessidade de tantas cabines”, afirma.

No escritório de advocacia KLA, o cenário é diferente. O ambiente é mais silencioso e até mesmo os espaços de convivência têm pouca circulação.

As salas de reunião são os locais mais usados no dia a dia. A grande virada no design do local veio com a reforma de 2022, que deu fim às salas privadas.

 “Acabamos com esse modelo. Hoje, na mesma mesa, sentam-se desde o estagiário até o sócio fundador”, revela Mário Fioratti, sócio de direito societário e fusões do KLA.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.
Ops! Captcha inválido, por favor verifique se o captcha está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.