IA ouve consulta, sugere tratamento e melhora ‘olho no olho’ entre médicos e pacientes
Seja qual for o primeiro assunto da consulta (onde dói, qual remédio acabou, exercício físico está em dia ou o tempo lá fora), Sofya ouve tudo.
Anota tudo também (sua letra é mais bonita que a do médico) e, ao mesmo tempo, consulta 38 milhões de artigos científicos e o histórico daquele paciente.
A inteligência artificial então checa protocolos de saúde, oferece ao médico hipóteses diagnósticas e uma conduta a ser seguida, com sugestão de medicamentos e exames.
Esse “segundo cérebro médico” desenvolvido pelo carioca Igor Couto, 41, processa quase cem mil consultas via telemedicina todo mês. A perspectiva é de que, em um ano, ela alcance um milhão de atendimentos.
“Olha a responsabilidade: estou lidando com saúde humana. Se a inteligência artificial errar 3%, a gente fica desesperado. Mas o médico, às vezes, erra 15%, 20%”, diz o CEO da startup, que é especialista em deeptech, IA cognitiva e bioinformática.
Sofya nasceu em berço de ouro —em 2022, dentro do programa de inovação aberta do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. A ideia era reduzir a burocracia médica com o preenchimento de prontuários.
Dois anos depois, Couto mudou-se para Miami (EUA) na expectativa de qualificar a tecnologia, em parceria com Meta e Oracle, e acelerar o negócio.
Deixou aqui uma equipe de 14 pessoas, entre elas Marcelo Mearim, ex-Dasa, novo CEO da startup no Brasil.
“A gente não podia ficar confinado no Sírio-Libanês. Vamos colocar a Sofya em redes hospitalares e clínicas privadas”, diz Couto, que aposta em uma revolução na saúde nos próximos anos com essa espécie de copiloto do médico.
A começar pela relação de planos de saúde com profissionais e hospitais. Nos Estados Unidos, relata, a medicina já é bastante judicializada (“cada médico tem seu advogado”), enquanto o Brasil começa uma busca pela adequação a protocolos de saúde —documentos que estabelecem critérios e recomendações em saúde.
“A IA pode ser mediadora dessa relação, pois ela chega mais próximo ao que seria o cuidado ideal”, afirma ele, acrescentando que apenas metade dos pacientes aderem a tratamentos de saúde. “Dá para melhorar.”
O médico Gabriel Garcez, 35, VP de saúde física da Conexa Saúde, define a ferramenta como “fazer o correto pelo correto”.
E explica na prática: “o paciente entra na consulta com dor de cabeça. Só que ele tem pressão alta. Se o médico não escrever isso no prontuário, ele provavelmente não passará com um cardiologista. E é isso que ajuda de fato no cuidado do paciente, não só na resolução de problemas agudos”.
Com 25 mil vidas, 6.000 profissionais de saúde e 115 seguradoras em seu ecossistema de saúde digital, a Conexa passou a utilizar a Sofya há 7 meses.
A ideia era usar IA para padronizar o atendimento via telemedicina, que escalou na pandemia de Covid-19.
A cada dez consultas na plataforma, 9 usam a Sofya, oferecida de maneira opcional.
“O médico precisa fazer perguntas corretas, criar hipóteses diagnósticas, adotar uma conduta e ainda registrar tudo. Tiramos esse tempo de burocracia e aumentamos a produtividade”, afirma Garcez.
A endocrinologista mineira Rachel Cardoso, 33, está sempre na companhia da Sofya nos atendimentos virtuais —e não vê a hora de poder estar com ela em seu consultório. A previsão é de que a IA chegue ao presencial ainda neste ano.
“A gente tem aquele atendimento mais humanizado, aquele olho no olho, sem ficar preocupado o tempo todo em anotar”, diz ela.
“A IA sugere pedidos de exames, prescrições, diagnósticos, ajuda com o raciocínio clínico e tira dúvidas. Mas cabe a nós, que estudamos, ter senso crítico”.
Ainda que não concorde que a IA possa fazer o papel de um segundo cérebro médico (“está mais para um assistente”), Cardoso acredita na adoção da tecnologia pela categoria, muitas vezes considerada conservadora.
Ela dá como exemplo o pai, também médico, que custou a aderir aos prontuários digitais.
“Hoje ele não fica sem, e quando soube que a IA pode transcrever consultas, disse ‘Meu Deus, eu quero isso’.”
Outro desafio cultural se impõe à classe —em breve IAs devem poder fazer auditorias médicas a partir dessas escutas.
Na prática, empresas poderão saber se profissionais de saúde seguiram protocolos ou tomaram decisões que colocam pacientes em risco.
“Estamos entrando em qualidade clínica e, em um ou dois anos, com validação médica, teremos raciocínio clínico para personalizar ainda mais o tratamento”, diz o CEO da Sofya.
Nascido no complexo do Muquiço, no Rio de Janeiro, Igor Couto foi um dos fundadores do Vai na Web, projeto que ajudou a democratizar a internet, e hoje prepara jovens para a economia digital.
“Sou filho de mecânico, morei em um barraco na favela, estudei em escola pública e comecei a trabalhar aos 13 anos”, lembra ele que, em Miami, não cansa de dizer que vai colocar a “bandeirinha brasileira” na produção científica mundial.
“A saúde pública do Brasil é um orgulho. Por que a IA de saúde brasileira não pode ser um orgulho também?”, diz ele.
expresso.arq sobre artigo de Gabriela Caseff / Estadão Saúde


