Conforto térmico: como a temperatura da casa pode afetar sua saúde?

Ser um espaço de habitação, no qual as pessoas se sintam protegidas, é uma das primeiras definições de casa que vem à mente. Mas, o papel da casa no dia a dia vai além e, dependendo das escolhas, ela pode até impactar na saúde.

Uma casa muito fria, ou muito quente, por exemplo, pode trazer consequências físicas e emocionais. Do ponto de vista fisiológico, temperaturas muito quentes ou muito frias obrigam o corpo a despender mais energia para manter a temperatura interna, podendo resultar em problemas como asma, rinites e quenas no frio; ou desidratação, fadiga e, em casos extremos, complicações cardiovasculares, no calor.

“Sob a ótica da neuroarquitetura, a ambientação exerce papel crucial na forma como o cérebro processa sinais de conforto e bem-estar. Quando a casa não oferece uma temperatura agradável, cria-se um estímulo contínuo de desconforto que eleva o nível de estresse e dificulta a sensação de segurança e acolhimento”, comenta o arquiteto e urbanista Lorí Crízel, especialista em neuroarquitetura e comportamento humano.

A temperatura ideal de uma casa fica em torno de 24º C. Acima, casa na Costa Verde, no litoral do Rio de Janeiro, assinada pelo Estúdio Orth — Foto: Fran Parente
A temperatura ideal de uma casa fica em torno de 24º C. Acima, casa na Costa Verde, no litoral do Rio de Janeiro, assinada pelo Estúdio Orth — Foto: Fran Parente

Mofos e animais indesejados

Além do impacto na saúde, a temperatura da casa também pode deixar o lar mais vulnerável a situações desagradáveis. No frio, as casas ficam mais sujeitas ao mofo, enquanto que o calor intenso pode atrair pragas, como moscas, baratas e roedores.

“Quando o calor se soma a altos níveis de umidade, frequentemente observados em construções sem ventilação adequada, o risco de infestações cresce ainda mais. Além do desconforto físico, essa situação pode trazer implicações para a saúde, como alergias e doenças transmitidas pelos insetos e roedores. Nesse sentido, pesquisas referentes a controle de pragas e conforto ambiental mostram a importância de um projeto integrado que leve em conta a circulação de ar, o sombreamento e a gestão eficiente de resíduos”, diz Lorí.

A temperatura ideal nas habitações

Segundo a arquiteta Loyde Vieira de Abreu Harbich, professora de conforto ambiental da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em ambientes internos, o ideal é que a temperatura fique em torno de 24º C, com umidade em cerca de 60%, e ventilação de até 0,5 m/s. Porém, isso pode variar, de acordo com diversas variáveis.

“Em uma pesquisa que realizei em 2018 em Goiânia, as pessoas se sentiam confortáveis com temperaturas em torno de 26 ou 27º C. Em algumas cidades do Nordeste, os banheiros dos restaurantes são climatizados com uma temperatura próxima de 24º C para que não haja odor excessivo. Já em outros lugares, climatiza-se também as cozinhas, para que a comida fique mais tempo conservada”, exemplifica a professora.

Loyde lembra que as normas sugerem que os ambientes climatizados tenham temperaturas de 20 a 26º C, mas ressalta que depende da finalidade do ambiente e do clima local. “Em ambientes naturalmente ventilados, essa temperatura pode mudar, caso haja aumento da velocidade do vento. Em ambientes de permanência maior, como sala e quartos, também é natural preferirmos ambientes mais frescos para relaxar e até dormir bem.”

Vale prestar atenção em cortinas, persianas e venezianas para driblar o calor. Acima, sala de estar em projeto de Claudia Haguiara — Foto: Christian Maldonado
Vale prestar atenção em cortinas, persianas e venezianas para driblar o calor. Acima, sala de estar em projeto de Claudia Haguiara — Foto: Christian Maldonado

Como driblar as altas temperaturas

Em tempos de dias com temperaturas mais altas do que o normal, é natural pensar em alternativas para resfriar a casa. Dessa forma, para Fabricio Lucchesi, diretor Comercial e Co-fundador da Hygge Engenharia, vale prestar atenção no que já está no local.

“Quem tem venezianas por fora, vale deixá-las mais abaixadas durante o dia para não ter os ganhos térmicos dentro. O mesmo vale para persianas e cortinas. Outra alternativa, para quem não tem ar-condicionado, por exemplo, e precisa economizar, é colocar um pano molhado junto com o ventilador, para gerar resfriamento”, diz Fabricio.

Casa de campo com projeto arquitetônico de Antonio Scarpa e interiores de Detinha Nascimento — Foto: Wesley Diego Emes
Casa de campo com projeto arquitetônico de Antonio Scarpa e interiores de Detinha Nascimento — Foto: Wesley Diego Emes

Pensando em soluções mais definitivas, em reformas ou construções, os profissionais são unânimes ao indicarem o investimento em isolamento térmico.

“O ponto de partida é um bom isolamento térmico, tanto em paredes quanto em tetos, com materiais como lã de rocha, poliestireno extrudado (XPS) ou fibras naturais (lã de PET), que ajudam a manter a temperatura interna estável, reduzindo o calor excessivo no verão e a perda de calor no inverno. As esquadrias também merecem atenção, pois janelas com vidros duplos ou películas de controle solar podem reduzir significativamente o aquecimento exagerado em dias quentes e minimizar as perdas térmicas em dias frios”, diz Lorí.

As estratégias bioclimáticas passivas também são indicadas pelos profissionais. “Buscar incluir na reforma as estratégias bioclimáticas passivas, como incluir um jardim de inverno, paredes verdes dentro ou fora da casa, telhado verde para promover o resfriamento evaporativo; instalação de cobogós, venezianas, muxarabis, marquises, brises para promover um sombreamento das paredes e janelas externas”, completa Loyde.

Cuidado com as altas temperaturas

Desidratação, insolação, problemas cardíacos e distúrbios do sono são algumas das consequências das altas temperaturas no corpo humano. Idosos, crianças, gestantes, pessoas com mobilidade reduzida ou deficiência, com doenças crônicas, que trabalham ao ar livre e aqueles que vivem em áreas com menos infraestrutura são as mais vulneráveis.

Para reduzir os riscos de ter problemas, é importante manter-se bem hidratado, como explica o médico Clóvis Galvão, professor do curso de Medicina da Universidade Cidade de S. Paulo – UNICID.

“É essencial a ingestão frequente de líquidos e de alimentos ricos em água, bem como evitar a exposição direta ao sol, dando preferência por ficar em locais frescos. Também é importante, evitar atividades ao ar livre nas horas mais quentes do dia, usar roupas adequadas e buscar ambientes frescos sempre que possível. E, se sentir qualquer desconforto mais sério, vale buscar um médico”, sugere Clóvis.

expresso.arq com informações de Gladys Magalhães

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