Como é a vida no povoado mais remoto do mundo

Se a sorte estiver ao seu lado, leva de 7 a 10 dias para chegar a Tristan da Cunha, uma ilha vulcânica de 38 milhas quadradas localizada no Oceano Atlântico Sul. No entanto, se o tempo estiver ruim, esse prazo pode se estender significativamente, às vezes chegando a várias semanas. E mesmo quando você chega a Tristan, como é coloquialmente chamado, não há garantia de que conseguirá desembarcar. “Nosso porto é muito pequeno para acomodar embarcações oceânicas, então os mares precisam estar calmos o suficiente para que nossas balsas e barcos venham buscá-lo no navio”, explica Kelly Green, chefe de turismo da ilha. Condições calmas como essas “ocorrem cerca de 70 dias por ano”.

Tristan da Cunha, parte integrante do território ultramarino britânico de Santa Helena, Ascensão e Tristan da Cunha, abriga o assentamento humano mais remoto do mundo, oficialmente chamado de Edimburgo dos Sete Mares. (O nome é uma homenagem à visita em 1867 do Duque de Edimburgo, Sua Alteza Real Príncipe Alfredo, segundo filho da Rainha Vitória). Localizada aproximadamente entre a África do Sul e a América do Sul, o local habitado mais próximo — Santa Helena — fica a 1.514 milhas ao norte. Ao sul, há apenas o oceano entre a ilha e a Antártica, enquanto Montevidéu, no Uruguai, está a cerca de 2.434 milhas a oeste, e a Cidade do Cabo a 1.732 milhas a leste.

Tristan da Cunha, no Oceano Atlântico Sul — Foto: Getty Images/Peter Schaefer
Tristan da Cunha, no Oceano Atlântico Sul — Foto: Getty Images/Peter Schaefer

Devido à sua localização remota, os moradores da ilha desenvolveram um histórico de autossuficiência em diversos aspectos, desde a criação de ovelhas e gado até a construção das casas. “Não há empresas de construção aqui, então toda a infraestrutura é erguida pelos moradores da ilha ou, ocasionalmente, por empreiteiros que vêm para projetos específicos”, explica Kelly. As habilidades são transmitidas de geração em geração, e muitas das técnicas de construção têm décadas — ou até mais — de tradição.

No entanto, alguns casais jovens na ilha começaram recentemente a experimentar novos materiais e abordagens de construção, o que pode ter impactos duradouros no assentamento e em seus futuros moradores. “Isso não é algo que teria sido transmitido pelas gerações mais antigas”, explica Kelly. “Esperamos que agora eles possam transmitir essas novas habilidades aos seus filhos.”

Edimburgo dos Sete Mares, o nome oficial do assentamento — Foto: Getty Images/David Forman
Edimburgo dos Sete Mares, o nome oficial do assentamento — Foto: Getty Images/David Forman

Uma história de construção de casas

Kelly é uma das 238 moradoras de Tristan (sim, todos se conhecem) e mora lá há 12 anos. “Raramente sinto a sensação de distância; na verdade, quando estou na ilha, me sinto menos ‘distante’ aqui do que em qualquer outro lugar do mundo”, ela diz. Treze anos atrás, ela visitou seus pais quando seu pai foi nomeado administrador da ilha, um cargo do Ministério das Relações Exteriores, Comunidade e Desenvolvimento do Reino Unido, que atua como presidente do conselho da ilha e lidera a reunião dos chefes de departamento. “Conheci meu atual marido durante essas férias decisivas, o que me levou a fixar residência permanente”, explica Kelly.

Uma placa dá as boas-vindas aos visitantes do lugar habitado mais remoto do mundo — Foto: Getty Images/David Forman
Uma placa dá as boas-vindas aos visitantes do lugar habitado mais remoto do mundo — Foto: Getty Images/David Forman

Hoje, o assentamento é em grande parte uma comunidade agrícola e pesqueira, com a maior fonte de renda proveniente da concessão de lagosta da ilha. A ilha principal é parte de um arquipélago (também chamado Tristan da Cunha), composto por quatro ilhas principais e foi descoberta em 1506 pelo explorador português Tristan da Cunha. Apesar do mar agitado ter impedido seu desembarque, ele nomeou a ilha principal com seu próprio nome.

Uma tripulação holandesa foi a primeira a desembarcar nas ilhas desabitadas em 1643, mas o assentamento permanente só ocorreu em 1817, quando três membros de uma guarnição britânica — William Glass (o fundador), Samuel Burnell e John Nankivel — ficaram para trás após o retorno do restante da tripulação ao continente. A esposa de Glass, Maria, e seus filhos também faziam parte desse grupo fundador.

Os colonos originais estabeleceram um contrato social único, chamado The Firm (A Firma), que era “um acordo voluntário de vida comunitária, que incluía: partes iguais de ações e mercadorias; lucros divididos igualmente; contribuições iguais para pagamentos; e ninguém superior ao outro”, como explica o site de Tristan.

Nos 150 anos seguintes, os residentes foram chegando e saindo, mas, em 1942, o assentamento se tornou um próspero posto colonial. Nem mesmo uma erupção vulcânica em 1961 conseguiu deter a comunidade — a ilha teve que ser evacuada por um ano, mas quase todas as famílias retornaram entre 1962 e 1963. Embora o número exato de habitantes tenha oscilado, ele se manteve entre 150 e 250 pessoas nos últimos 70 anos.

Para os primeiros colonos, construir abrigos estava entre as tarefas mais importantes ao chegar à ilha remota e desabitada. “O assentamento original de Tristan da Cunha continha casas de pedra robustas, projetadas por Nankivel e Burnell, dois pedreiros de Devon”, conta Kelly. “Eles estabeleceram uma tradição de construção de casas usando materiais locais para proporcionar moradias resistentes ao vento e às intempéries.”

Uma foto histórica mostra os primeiros colonos em frente à sua casa — Foto: Getty Images/Hulton-Deutsch Collection/CORBIS
Uma foto histórica mostra os primeiros colonos em frente à sua casa — Foto: Getty Images/Hulton-Deutsch Collection/CORBIS

As casas originais, todas em formato de bangalô para proteção contra ventos fortes, eram feitas de tufo vulcânico, uma “cinza consolidada de cor arenosa, conhecida pelos ilhéus como ‘pedra macia’”, explica Kelly. O material era facilmente cortado em blocos de construção, usados para formar as extremidades das casas. “Essas pedras ainda estão presentes em muitas das casas da ilha, incluindo a minha”, acrescenta ela.

A ilha é uma comunidade agrícola, embora dependa de remessas para algumas coisas que não podem ser cultivadas — Foto: Getty Images/Peter Schaefer
A ilha é uma comunidade agrícola, embora dependa de remessas para algumas coisas que não podem ser cultivadas — Foto: Getty Images/Peter Schaefer

Algumas residências foram finalizadas com painéis de madeira, mas a falta de material significava que muitas tinham apenas paredes de pedra, telhados de palha e pisos de terra. Os interiores foram sendo completados lentamente ao longo do tempo, quando navios que passavam — e às vezes naufrágios — traziam materiais adicionais. “Algumas casas tiveram a sorte de ter até papel de parede, embora fosse apenas feito de recortes de jornais antigos”, relata Kelly.

Hoje, a maioria das casas da ilha é feita de concreto ou tijolos, cobertas com telhados de zinco e com acabamentos internos de fibra. Outras infraestruturas da ilha incluem uma escola, um hospital, duas igrejas, uma pequena loja chamada Island Store e um café no Post Office & Tourism Center. “A construção é realmente um esforço comunitário”, comenta Kelly. “Todos contribuem e ajudam.”

No entanto, o clima do assentamento — que pode ser úmido e frio — levou alguns casais a considerar um novo material para um melhor isolamento: o drywall.

Novos materiais

“Construir uma casa na ilha mais remota do mundo definitivamente tem seus altos e baixos”, afirma Rachel Green, que está construindo uma nova casa com seu parceiro, Leo Glass. (Há sete sobrenomes principais no assentamento, e Kelly e Rachel são parentes distantes pela família do marido de Kelly). Rachel e Leo, na casa dos 20 anos, já construíram uma casa de hóspedes, mas agora estão trabalhando em sua residência definitiva. “Nossa casa de hóspedes foi feita com materiais tradicionais usados na ilha, que chamamos de Masonite ou hardboard”, conta Rachel. “Mas, para nossa casa, queríamos tentar algo diferente e optamos pelo drywall.”

Rachel Green e Leo Glass em frente à sua casa — Foto: Divulgação/Julia Gunther
Rachel Green e Leo Glass em frente à sua casa — Foto: Divulgação/Julia Gunther

O casal escolheu o drywall pelo apelo estético e para melhorar o isolamento. “Como ninguém na ilha possui aquecimento central, procurávamos maneiras de isolar nossa casa ao máximo”, explica Rachel. Embora houvesse outros materiais que também poderiam ser eficazes, ela e Leo não tinham experiência com eles, mas já havia outra casa na ilha construída com drywall. “Nossos amigos usaram gesso e fibra de vidro e disseram que a casa deles não tinha problemas com mofo ou umidade e, no inverno, era bem aquecida, então decidimos tentar”, conta ela. “Gosto de construção e trabalho criativo, então poder construir minha própria casa com meu parceiro é muito empolgante.”

Morar em Tristan oferece vistas deslumbrantes do Oceano Atlântico — Foto: Divulgação/Julia Gunther
Morar em Tristan oferece vistas deslumbrantes do Oceano Atlântico — Foto: Divulgação/Julia Gunther
Os amigos de Rachel e Leo usaram gesso em sua casa, o que levou o casal a considerá-lo também em seu projeto — Foto: Divulgação/Julia Gunther
Os amigos de Rachel e Leo usaram gesso em sua casa, o que levou o casal a considerá-lo também em seu projeto — Foto: Divulgação/Julia Gunther

Entretanto, essa escolha não vem sem desafios. O casal precisou aprender grande parte da técnica usando o Google e tutoriais online, além de buscar conselhos com amigos que já haviam construído casas com drywall. A maioria dos materiais precisa ser encomendada com meses de antecedência e pode ser extremamente cara, considerando o custo base, taxas de transporte e frete. “Se você esquecer de encomendar algo, terá que esperar mais dois meses, o que atrasa a construção”, explica ela.

A construção leva tempo, tanto pela espera das remessas quanto pelo trabalho, que muitas vezes é feito apenas por ela e Leo, com amigos e familiares ajudando ocasionalmente. Também é desafiador encomendar a maioria dos materiais sem vê-los pessoalmente. “As fotos online podem ser enganosas”, alerta Rachel.

Os desafios, no entanto, só tornarão o resultado final ainda mais recompensador. “A satisfação de poder dizer ‘Sim, eu fiz isso’ depois de todas as dificuldades que enfrentamos ao viver em uma ilha tão remota é muito gratificante”, diz ela. “Mal posso esperar até que finalmente terminemos a construção, o que pretendemos fazer em meados de 2025.”

Impactos futuros

Em Tristan da Cunha, as casas representam abrigo e conforto em seu sentido mais puro — raramente são vistas como ativos financeiros ou investimentos. Como explica Kelly: “Não há casas para vender. Quando você constrói, não está pensando em revender, pois você não vai vendê-la.” Diferentemente de muitas outras partes do mundo, a propriedade de uma casa em Tristan não é apenas uma meta alcançável, mas uma parte fundamental e comum da vida comunitária. Seguindo os princípios estabelecidos por William Glass para uma sociedade igualitária, as terras são de posse comunal, e, conforme indica o site oficial de Tristan, “o número de cabeças de gado é estritamente controlado para preservar as pastagens e evitar que famílias mais ricas acumulem riqueza”. (Estrangeiros não podem adquirir terras na ilha, e a imigração para Tristan só é permitida para quem possui vínculo familiar com a comunidade local).

Rachel trabalhando no interior de sua casa — Foto: Divulgação/Julia Gunther
Rachel trabalhando no interior de sua casa — Foto: Divulgação/Julia Gunther

Kelly também destaca: “Não há casas ou apartamentos disponíveis para alugar na ilha, então você constrói ou mora com seus pais.” Quando um casal começa um relacionamento e decide morar junto, é comum que eles se mudem para a casa dos pais de um dos dois (geralmente da mulher, mas isso pode variar) e comecem a construção de sua própria casa. Tradicionalmente, o casal se casa logo após a conclusão da residência, e “passam a primeira noite de casados na nova casa”, comenta Kelly. No entanto, isso não ocorre sempre, pois alguns casais optam por se mudar assim que a casa fica pronta. Além disso, há casos em que os casais reformam propriedades herdadas dos pais ou avós, mantendo a tradição familiar.

A casa de Rachel e Leo é um exemplo de como um desafio pode ser encarado não para ganho material, mas para realização pessoal. Porém, considerando a importância duradoura da construção em Tristan, seus esforços têm o potencial de impactar significativamente a comunidade. “Acredito que outras pessoas usarão placas de gesso quando virem o acabamento da casa de Rachel”, afirma Kelly. Alguns moradores podem preferir materiais mais rápidos de instalar, mas a introdução dessas novas habilidades e conhecimentos cria novas possibilidades para outras famílias e gerações futuras.

Em termos mais amplos, essas transformações também refletem a crescente conexão de Tristan com o mundo exterior. “Hoje, Tristan está muito mais conectada, e as pessoas têm acesso a conteúdos no YouTube ou TikTok, de onde tiram ideias”, explica Kelly. Ela relembra: “Há 12 anos, quando cheguei aqui, não havia Wi-Fi, e as pessoas ainda faziam compras através de catálogos.”

O casal espera terminar a construção até meados de 2025 — Foto: Divulgação/Julia Gunther
O casal espera terminar a construção até meados de 2025 — Foto: Divulgação/Julia Gunther

Apesar da maior conexão com o mundo, a ilha mantém seu charme e oferece experiências únicas que não podem ser encontradas em outros lugares. “A segurança aqui é incomparável”, ressalta Kelly, completando: “Adoro a liberdade que sinto quando estou aqui, a paz e o cuidado com meus animais.” Embora existam desafios, como o tempo de espera prolongado para encomendas e as dificuldades de locomoção, Kelly acredita que os benefícios superam as desvantagens. “Como família, gostamos de passar tempo nas praias de areia preta e nadar nas piscinas naturais no verão”, conta ela. “E eu amo caminhar pelos campos e contemplar as vistas deslumbrantes.”

expreso.arq com informações de Katherine McLaughlin

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