É possível zerar o consumo de combustíveis fósseis?

Em seu documento final, a COP-28 (28ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), que aconteceu em Dubai ao final de 2023, estabeleceu 2050 como ano-limite para que o mundo zere as emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEEs).

Isso significa acelerar a transição energética ainda nesta década e reduzir substancialmente o consumo dos combustíveis fósseis, principais responsáveis pela liberação de gases poluentes na atmosfera.

O objetivo final é limitar o aquecimento da atmosfera a, no máximo, 1,5 °C em comparação aos níveis pré-industriais – o que poderia evitar muitas das consequências que podem alterar a nossa vida e estão associadas às mudanças do clima.

Mas será que é realmente possível eliminar os combustíveis fósseis do nosso dia a dia? Conversamos com diferentes especialistas para entender o que as metas da COP-28 significam na prática e o papel do Brasil no que tange à transição energética.

O que são combustíveis fósseis?

Os combustíveis fósseis são aqueles formados através da decomposição da matéria orgânica, cuja queima é usada para a geração de energia – seja para transporte, para eletricidade, seja para aquecimento, entre outros fins.

Danosa, essa combustão é a principal responsável pelo aumento contínuo dos gases de efeito estufa na atmosfera, cuja presença descontrolada contribui para o aquecimento global. Este, por sua vez, gera efeitos climáticos adversos, que ameaçam significativamente os ecossistemas e a saúde humana.

A queima dos combustíveis é a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa relacionados ao uso de energia, segundo o Energy Institute — Foto: Flickr / Gerry Machen / Creative Commons
A queima dos combustíveis é a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa relacionados ao uso de energia, segundo o Energy Institute — Foto: Flickr / Gerry Machen / Creative Commons

Segundo o 73º relatório de Revisão Estatística da Energia Mundial, publicado pelo Energy Institute, a queima dos combustíveis é a maior fonte de emissões de GEEs relacionados ao uso de energia, correspondendo a 87% do total.

Além disso, o consumo global de petróleo, carvão e gás se intensificou: em 2023, registrou-se um aumento de 1,5% no número em relação ao ano anterior. Isso levou as emissões associadas à energia a atingirem um recorde e ultrapassarem os 40 bilhões de toneladas pela primeira vez na história.

Ou seja, embora a adoção de energias renováveis esteja crescendo globalmente e o tema da transição energética tenha ganhado importância na esfera pública, continuamos a jogar mais carbono na atmosfera e a caminhar na direção contrária do que propõem as metas globais para o meio ambiente.

O consumo de combustíveis fósseis aumentou em 2023, muito devido à demanda por petróleo — Foto: Flickr / Eduardo Otubo / Creative Commons
O consumo de combustíveis fósseis aumentou em 2023, muito devido à demanda por petróleo — Foto: Flickr / Eduardo Otubo / Creative Commons

“Esse é um problema difícil de ser resolvido, mas precisamos endereçá-lo se quisermos ter uma chance de viver em um mundo mais equilibrado climaticamente”, defende Stela Herschmann, advogada mestre em Direito Ambiental e especialista em Política Climática no Observatório do Clima.

E essa abordagem precisa ser rápida, segundo Alberto José Fossa, engenheiro mestre em Energia e doutor em Ciências pela USP:

“Os cenários de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) demonstram que quanto mais rapidamente as reduções de emissões ocorrerem, menor será o aquecimento de pico e menor será a probabilidade de exceder os limites de aquecimento desejáveis para o planeta”, explica ele, que também é coordenador de projetos de pesquisa em Mudanças Climáticas no âmbito do Research Centre for Gas Innovation.

Onde o Brasil se encontra na problemática?

Hoje, o Brasil tem uma matriz energética considerada mais limpa do que a média global – isto é, polui menos e depende menos da queima dos combustíveis fósseis para gerar energia.

No Brasil, a emissão de GEEs está mais relacionada ao desmatamento do que à produção de energia — Foto: Flickr / flyingfabi / Creative Commons
No Brasil, a emissão de GEEs está mais relacionada ao desmatamento do que à produção de energia — Foto: Flickr / flyingfabi / Creative Commons

Diferente do resto do mundo, os principais fontes de emissão de gases de efeito estufa no país são o desmatamento e a agropecuária.

“Nos últimos anos, a derrubada de florestas tem respondido por, em média, 50% das emissões [de GEEs] no Brasil. Quando falamos que o mundo precisa eliminar os combustíveis fósseis, isso é muito mais direcionado a países do Norte Global, mas isso não significa que possamos cruzar os braços”, afirma Stela.

Do contrário, há de se ter cuidado para não regredirmos no tema. Segundo a advogada, nos últimos anos, tem havido incentivos para exploração de carvão e abertura de novas frentes de produção de petróleo no país, o que vai na contramão dos esforços globais para mitigação.

Em comparação a outros países, principalmente ao Norte Global, o Brasil tem uma matriz energética considerada limpa — Foto: Unsplash / Tyler Casey / Creative Commons
Em comparação a outros países, principalmente ao Norte Global, o Brasil tem uma matriz energética considerada limpa — Foto: Unsplash / Tyler Casey / Creative Commons

Além disso, embora tenhamos uma matriz energética mais limpa que outras nações, as emissões do setor de energia também são significativas e contribuem para o cenário de agravamento das mudanças climáticas no mundo.

“O Brasil é um dos maiores emissores históricos e atuais dos GEEs – estaríamos entre o 5º e o 7º lugar, dependendo da base de dados consultada, ainda que grande parte disso esteja vinculada ao desmatamento e não necessariamente à queima dos combustíveis fósseis”, destaca Stela.

Para ela, portanto, não podemos nos colocar em uma posição de “somos a solução”, mas devemos entender que contribuímos para o problema e temos que encontrar políticas públicas que o resolvam – como zerar o desmatamento até 2030.

É possível reduzir a zero o consumo de fósseis?

A demanda por combustíveis fósseis deve cair 1/4 até o final desta década a fim de atingirmos o limite de aquecimento de 1,5 °C acima do patamar do período pré-industrial — Foto: Unsplash / Brian Garrity / Creative Commons
A demanda por combustíveis fósseis deve cair 1/4 até o final desta década a fim de atingirmos o limite de aquecimento de 1,5 °C acima do patamar do período pré-industrial — Foto: Unsplash / Brian Garrity / Creative Commons

Já vimos que é urgente atingir uma situação de neutralidade de emissões de GEEs para preservar a vida na Terra como hoje a conhecemos.

Isso está intimamente ligado à exploração dos combustíveis fósseis: segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda por combustíveis fósseis deve cair 1/4 até o final desta década se os governos desejam limitar o aquecimento global em 1,5 °C acima do patamar do período pré-industrial.

O documento final da COP-28 reforça a demanda, estabelecendo uma “transição para longe dos combustíveis fósseis nos sistemas de energia de maneira justa, ordenada e equitativa”.

O consumo de energia per capita no mundo tem crescido e não aponta para nenhum tipo de declínio — Foto: Unsplash / Viktor Kiryanov / Creative Commons
O consumo de energia per capita no mundo tem crescido e não aponta para nenhum tipo de declínio — Foto: Unsplash / Viktor Kiryanov / Creative Commons

Por outro lado, o consumo de energia per capita no mundo tem crescido e uma visão geral do consumo de energia futuro não aponta para nenhum tipo de declínio. Soma-se ao fato a grande pressão econômica a favor da exploração dos combustíveis fósseis, que são a principal fonte de energia em todo o mundo.

Portanto, segundo Alberto, não se imagina uma transição energética que venha a simplesmente “banir” uma ou outra alternativa: “O cenário de futuro deve ser composto com um portfólio inteligente de insumos energéticos, aprimorando-se e incentivando a eficiência nos usos de todos os recursos energéticos, e trabalhando também nas possibilidades conjuntas de mitigação de emissões associadas”, defende.

Ele explica que ainda se fala pouco sobre processos de remoção das emissões como realidade viável, mas que métodos de captura e armazenamento de carbono ou captura e uso de CO2 avançam significativamente em todo o mundo.

Embora a eletrificação seja um horizonte para carros, ainda é um desafio para caminhões e frotas, por exemplo — Foto: Unsplash / Ernest Ojeh / Creative Commons
Embora a eletrificação seja um horizonte para carros, ainda é um desafio para caminhões e frotas, por exemplo — Foto: Unsplash / Ernest Ojeh / Creative Commons

Assim, a combinação entre mecanismos já disponíveis e inovações tecnológicas podem ser capazes de equacionar o problema das emissões, viabilizando soluções de balanço zero – mesmo quando observada a manutenção do uso de combustíveis fósseis em alguns cenários.

“Adicionalmente, o desenvolvimento cada vez mais amplo dos combustíveis sintéticos ou renováveis apresenta solução criativa para a manutenção de vários dos processos existentes no nosso dia a dia, combinados com a possibilidade de mitigação efetiva dos efeitos vinculados às mudanças climáticas”, acrescenta.

Em outras palavras, para ele, a saída pode ser investir em estratégias de neutralidade e não precisamente na simples e definitiva eliminação dos combustíveis fósseis. Estamos falando de um balanço de emissões nulo – ou seja, um equilíbrio entre a remoção e a emissão dos gases de efeito estufa. Mas há muito pela frente.

“Os desafios são enormes, incluindo até mesmo os mecanismos de contabilização e relato dessas emissões que precisam ser validados e verificados, e que representam desafios metodológicos a cada análise mais apurada das diferentes nuances de cada processo, produto ou atividade responsável por emitir e remover gases de efeito estufa”, destaca José Jorge Chaguri Jr, engenheiro civil mestre em Energia pela USP.

Para Ricardo Baitelo, engenheiro mestre em Física e doutor em Planejamento Energético pela Poli-USP, os desafios incluem também as abordagens para os setores de indústria e transportes.

“Por exemplo, os carros têm a eletrificação como horizonte, mas caminhões e cargas de porte um pouco maior ainda estão tendo esse desafio sendo equacionado. Na indústria também existe um grau de descarbonização que ainda precisa ser completado para que não tenhamos combustíveis fósseis nos processos e nas caldeiras, e para que possamos contar com energia 100% renovável”, explica.

Como reduzir o consumo de combustíveis fósseis

Quem quer reduzir o consumo de combustíveis fósseis no dia a dia tem algumas opções. Mas vamos começar com um porém importante: recentemente, a eletrificação tem sido destacada como elemento fundamental no processo de descarbonização, apontando os combustíveis fósseis como protagonistas no aumento do aquecimento global.

Em casa, por exemplo, processos de eletrificação incluem o aquecimento da água e a implementação de pontos de recarga para veículos elétricos.

A água residencial pode ser aquecida através da eletrificação, embora talvez esse não seja o melhor caminho se considerarmos a redução de emissão de CO2 — Foto: Unsplash / Ginger Hendee / Creative Commons
A água residencial pode ser aquecida através da eletrificação, embora talvez esse não seja o melhor caminho se considerarmos a redução de emissão de CO2 — Foto: Unsplash / Ginger Hendee / Creative Commons

Mas José Jorge lembra que uma parcela da geração de eletricidade também provém de fontes fósseis, como termelétricas (carvão, óleo combustível e gás natural) ou de fontes que historicamente geraram impactos ambientais e sociais – a exemplo das grandes usinas hidroelétricas.

Vamos tomar o exemplo da geração de água quente nas casas, que é responsável por aproximadamente 40% do consumo da energia residencial. Neste caso, a eletrificação pode intensificar a demanda por usinas termelétricas para suprir a necessidade.

Isso porque, hoje em dia, a água costuma ser aquecida através da queima de combustíveis fósseis de maneira individual a partir de botijões de aquecimento. Ao optar por aquecedores elétricos que puxam energia da rede, podemos pressionar por uma demanda geral por energia – o que acaba exigindo também das termelétricas.

E acionar as termelétricas para gerar energia de aquecimento de água residencial é pior do que queimar fósseis diretamente através dos chamados “aquecedores de passagem”. A explicação está na eficiência dos processos: há muito mais perda de energia na geração, transmissão e distribuição de energia gerada em termelétricas do que aquela gerada pelos aquecedores em casa.

Em outras palavras, usar eletricidade para o aquecimento de água residencial pode acarretar em uma queima maior de combustíveis fósseis quando comparado ao uso direto desses combustíveis em sistemas individuais.

Assim, de acordo com José Jorge, o uso direto de combustíveis fósseis (como o gás natural) em sistemas de aquecimento de água representa uma abordagem mais benéfica para a redução das emissões de carbono em comparação com o uso direto de eletricidade nas edificações.

A opção por carros elétricos também diminui a demanda pela combustão dos combustíveis fósseis — Foto: Unsplash / Possessed Photography / Creative Commons
A opção por carros elétricos também diminui a demanda pela combustão dos combustíveis fósseis — Foto: Unsplash / Possessed Photography / Creative Commons

Já em relação à eletrificação dos transportes, o mestre em Energia explica que é essencial otimizar o consumo de energia elétrica em equipamentos facilmente adaptáveis a fontes mais limpas, evitando a necessidade de investimentos maciços em infraestruturas de transmissão e distribuição de energia.

Lembremos também dos biocombustíveis, que gradualmente reduzirão o consumo de combustíveis fósseis sem a necessidade de alterações nos equipamentos existentes; e do biogás, que junto ao gás natural deve desempenhar um papel fundamental na transição energética.

Ricardo acrescenta que a responsabilidade individual passa também pela preferência por equipamentos que sejam energéticamente eficientes e pelo transporte público e ativo – como ônibus, bicicletas, etc.

“Também sabemos que o Brasil tem uma eletricidade majoritariamente limpa, mas você pode optar por instalar placas solares em casa ou contratar geração solar remota por assinatura. Em vez de utilizar energia da concessionária, pode garantir que consumirá energia 100% limpa”, afirma.

A instalação de placas solares em casa é outra saída para tornar o consumo de energia mais limpo — Foto: Unsplash / Vivint Solar / Creative Commons
A instalação de placas solares em casa é outra saída para tornar o consumo de energia mais limpo — Foto: Unsplash / Vivint Solar / Creative Commons

Para Stela, porém, o tema da transição energética e da neutralidade de emissões não pode ser encarado sob uma perspectiva individual – mas deve ser incluído em sinalizações políticas e de mercado.

“Trata-se de algo mais sistêmico – eu sempre brinco que a maior contribuição individual que uma pessoa pode dar para o clima é escolhendo bem quem ela elege, tanto para o Executivo quanto para o Legislativo”, diz.

Segundo a advogada, de nada adianta diminuir o consumo de carne e usar bicicleta para se locomover se elegermos parlamentares que aprovem incentivos para uso de carvão ou novos projetos de extração de combustíveis fósseis.

A abertura de novas frentes de produção de petróleo contradiz os esforços globais para mitigação — Foto: Unsplash / Patrick Hendry / Creative Commons
A abertura de novas frentes de produção de petróleo contradiz os esforços globais para mitigação — Foto: Unsplash / Patrick Hendry / Creative Commons

“Acredito que um ponto de partida bem importante que foi dado na COP-28 de implementar e conseguir, até o fim desta década, aumentar as energias renováveis, mas precisamos continuar pressionando nas próximas COPs a respeito de datas concretas e planos específicos e segmentados para o fim de combustíveis fósseis em cada setor”, diz Ricardo.

“Essa é uma lição não só da conferência, mas principalmente dos países que dela participam, que voltam pra casa e têm que legislar e assumir esses compromissos domesticamente”, completa o doutor em Planejamento Energético.

As empresas também têm um papel primordial na discussão. Algumas estratégias de ESG adotadas ao redor do mundo incluem uso de energia renovável nos processos produtivos, investimento em eletrificação e biocombustível para carros e frota, eficiência energética e mitigação através de compra de créditos de carbono e plantio de árvores.

Compra de créditos de carbono e plantio de árvores têm sido exemplos de estratégias de ESG e mitigação de empresas — Foto: Unsplash / Casey Horner / Creative Commons
Compra de créditos de carbono e plantio de árvores têm sido exemplos de estratégias de ESG e mitigação de empresas — Foto: Unsplash / Casey Horner / Creative Commons

Por outro lado, embora muitas delas afirmem estar investindo na transição energética, continuam com planos de expansão da exploração de fósseis, usando a falácia do greenwashing. “Nenhuma nova exploração de petróleo é compatível com os limites de temperatura que precisamos alcançar – devemos cortar as emissões do setor, e não aumentar”, comenta Stela.

Por fim, ela lembra que a rapidez das tomadas de decisão para a transição energética determinará quem sobreviverá. “Quem paga o preço das mudanças climáticas são justamente as populações mais pobres, periféricas, os negros. Existe uma questão de justiça climática muito grande nesse debate”, finaliza.

expresso.arq com informações de Yara Guerra

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