Como o serviço de transporte por aplicativo impacta na mobilidade urbana nas cidades dos EUA?

A mobilidade urbana nos Estados Unidos passou por uma transformação radical com a introdução dos serviços de transporte por aplicativos no final dos anos 2000. A adoção generalizada de serviços como Uber e Lyft alterou a forma como os cidadãos se movimentam pelas cidades, oferecendo conveniência, flexibilidade e acessibilidade como nunca antes.

O inovador modelo de negócios que se destaca ao auxiliar os usuários individuais falhou em prever as maiores implicações na escala da cidade – congestionamento, sistemas de transporte público e aquisição de carros. Enquanto cidades europeias como Bruxelas se comprometeram a incentivar o transporte público para reduzir problemas de congestionamento, cidades americanas buscam soluções próprias.

Plataformas de compartilhamento de carros, como Uber e Lyft, ganharam popularidade em grande parte do mundo, especialmente nos Estados Unidos, onde foram lançadas pela primeira vez. Esses serviços conectam passageiros e motoristas por meio de aplicativos móveis, possibilitando serviços de transporte sob demanda e reduzindo a necessidade de possuir um carro em uma nação onde essa dependência prevalece fortemente.

Chicago Riverwalk / Chicago Department of Transportation. Imagem © Kate Joyce Studios

Embora esses serviços tenham melhorado a conectividade entre as cidades, eles vêm sendo cada vez mais criticados por causar congestionamento urbano em cidades como Nova York, e impactar negativamente o setor de transporte público.

O serviço de transporte por aplicativos alterou a mobilidade urbana nos Estados Unidos, introduzindo uma variedade de impactos, tanto vantajosos quanto desafiadores:

Mobilidade Sustentável

Los Angeles, Tráfego e pedestres no Hollywood Boulevard. Imagem © Sean Pavone via Shutterstock. Image © John Durant

O setor de transporte é a maior fonte de poluição do país, com carros de passeio sendo responsáveis por 58% dessas emissões. Os serviços por aplicativos ajudam a mitigar o impacto ambiental do transporte, oferecendo aos americanos uma alternativa à posse de carros, ao mesmo tempo que proporcionam a conveniência do transporte sob demanda.

Embora inicialmente tenham sido considerados uma opção mais ecológica em comparação com táxis tradicionais e veículos particulares, o transporte por aplicativos também foi incluído na contribuição das emissões. No entanto, há iniciativas em andamento para abordar essas preocupações. 

A Lyft introduziu um “Green Mood” em cidades selecionadas como Seattle e Portland, permitindo que os passageiros solicitem carros não poluentes e incentivando práticas de direção ambientalmente conscientes entre os motoristas. Além disso, Uber e Lyft se comprometeram a eletrificar mais suas frotas nos próximos anos.

Apesar de seu potencial para melhorar a qualidade do ar, os serviços de transporte por aplicativos também têm sido associados ao aumento do congestionamento e a outros desafios relacionados ao tráfego.

Enquanto o compartilhamento de carros pode oferecer uma alternativa mais limpa aos veículos pessoais, a condução adicional para buscar e deixar passageiros pode exacerbar o congestionamento e os custos ambientais gerais.

Congestionamento Urbano

Engarrafamento nos Estados Unidos. Imagem © Aaron Kohr

Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts descobriu que o congestionamento aumentou 0,9% e a duração dos engarrafamentos aumentou 4,5% desde a introdução dos serviços de transporte de passageiros por aplicativos nos Estados Unidos. Como resultado, Nova York implementou uma política de precificação de congestionamento para o problemático sistema de metrô da cidade.

Cidades como Boston, São Francisco, Washington, D.C. e Orlando, bem como muitos investidores privados, estão estudando a introdução de espaços nas calçadas para áreas de embarque e desembarque de passageiros com o objetivo de reduzir esse impacto sobre outros usuários da via.

Embora os serviços de transporte de passageiros por aplicativos desempenhem um papel no congestionamento, é importante notar que veículos privados e comerciais, táxis e limusines ainda representam a maioria do congestionamento nos centros urbanos. Isso destaca a complexa interação entre esses serviços, o transporte público e as estratégias de gerenciamento de congestionamento urbano.

Aquisição de carros

Los Angeles, Tráfego e pedestres no Hollywood Boulevard. Imagem © Sean Pavone

O impacto de empresas como Uber e Lyft na posse de veículos pessoais varia entre diferentes tipos de cidades dos Estados Unidos. Enquanto algumas áreas urbanas experimentaram um leve declínio de apenas 1% na posse de veículos pessoais após a introdução dos serviços de transporte por aplicativo, essa diminuição não foi consistente em todas as regiões.

Uber e Lyft tiveram um impacto mínimo em relação ao número de veículos pessoais nas ruas. Em vez disso, os serviços se tornaram uma outra opção de deslocamento ou substituíram o transporte público.

Curiosamente, em cidades dependentes de carros e com crescimento lento, esses serviços levaram a um aumento na aquisição de carros. Além disso, eles substituíram mais significativamente o uso de transporte público em cidades caracterizadas por níveis de renda mais altos e com menos crianças.

A influência do Uber e Lyft nos hábitos de transporte, portanto, é sutil e depende das características socioeconômicas e demográficas específicas de cada cidade.

Transporte Público

Los Angeles, Tráfego e pedestres no Hollywood Boulevard. Imagem © Kevin Scott

Os serviços de transporte por aplicativo têm remodelado significativamente os hábitos de deslocamento, levantando preocupações sobre seu impacto na sustentabilidade e nos sistemas de transporte público. O fácil acesso aos serviços por aplicativo desencorajou os passageiros a optarem por alternativas mais sustentáveis como andar a pé ou usar transporte público.

Dados coletados em várias cidades dos EUA indicam que cerca de metade dos deslocamentos feitos por meio dos aplicativos de outra forma teriam sido feitos a pé, de bicicleta, usando transporte público, ou talvez nem teriam ocorrido. Essa mudança nas preferências de transporte levou a uma queda na utilização do transporte público, com uma diminuição relatada de 8,9%.

Enquanto alguns argumentam que esses serviços minam a viabilidade de sistemas de transporte como ônibus e metrô, a Uber afirma que isso melhora o acesso ao transporte público colaborando com autoridades ao oferecer deslocamentos com desconto para estações de transporte.

Argumenta-se também que os serviços por aplicativos conectam melhor os passageiros ao transporte público, desde sua origem até seu destino. Cidades como Nova York notaram que disrupções no metrô levaram a um aumento significativo no uso de serviços de transporte por aplicativo e táxis, em vez de compartilhamento de bicicletas, destacando a complexa relação entre transporte por aplicativo, transporte público e mobilidade verde.

Espaço de estacionamento

Estacionamento nos Estados Unidos. Imagem © Kelly via Pexels

Cidades americanas com populações superiores a um milhão testemunharam uma média de 22% da área dentro do centro da cidade sendo alocada para fins de estacionamento. Essa extensa dedicação de espaço urbano para estacionamentos pode afetar adversamente a paisagem urbana geral, enfraquecendo a capacidade de caminhar e a desejabilidade geral da cidade.

Em vez de promover ambientes vibrantes e amigáveis aos pedestres, as cidades americanas frequentemente priorizam a disponibilização de espaços urbanos para veículos particulares.

Os serviços de transporte por aplicativos possibilitam a redução da área destinada aos estacionamentos ou propõem a sua reutilização voltada para usos mais produtivos e que promovam a comunidade.

Os estacionamento podem então ser utilizados para o desenvolvimento de infraestrutura para bicicletas e pedestres, faixas de trânsito, áreas de lazer ou a integração de árvores nas ruas, todos os quais promovem de alguma forma deslocamentos multimodais. 

Terminal Rodoviário da Autoridade Portuária. Imagem © Ajay Suresh

À medida que os aplicativos de transporte continuam remodelando os padrões de mobilidade urbana, arquitetos e urbanistas desempenham um papel crucial no combate às implicações que eles induzem.

A adoção de uma abordagem holística que integra transporte multimodal, tecnologia inteligente, planejamento urbano amigável aos pedestres, políticas de zoneamento e iniciativas de mobilidade compartilhada cria cidades que abordam efetivamente os desafios apresentados pelos serviços de transporte por aplicativos.

Por meio de esforços colaborativos entre urbanistas, formuladores de políticas, arquitetos e designers, ambientes urbanos sustentáveis, livres de congestionamento e mobilidade urbana ecologicamente correta podem em breve ser concretizados.

expresso.arq sobre artigo de Ankitha Gattupalli | Traduzido por Camilla Ghisleni

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