Qual é a diferença entre ponte e passarela?
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Em uma cidade, há muitas estruturas construídas para estabelecer a comunicação entre duas partes, muitas vezes separadas por obstáculos naturais. Esse é o caso, por exemplo, das pontes e passarelas, que buscam viabilizar o caminho entre pontos homólogos.
Algumas pessoas, contudo, não sabem a real diferença entre os dois termos, e a verdade é que ela é bem sutil. Para acabar com a dúvida de uma vez por todas, conversamos sobre o assunto com dois urbanistas. Confira:
Ponte ou passarela?
Segundo Léa Japur, arquiteta e urbanista, mestre em design e professora do Departamento de Design e Expressão Gráfica da UFRGS, pontes e passarelas compartilham a função de vencer um obstáculo, oferecendo um caminho sobre ele. “A diferença básica entre os dois é quanto a quem ele se destina, prioritariamente: as pontes para veículos, e as passarelas para pedestres ou, no máximo, bicicletas”, diz.
O arquiteto e urbanista Milton Braga, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP e diretor de Arquitetura do URBEM (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole), completa: “A passarela é uma ponte delicada e, na concepção mais comum, é uma ponte para pedestres. Tanto que agora existe a palavra ‘ciclopassarela’ para se referir a pontes delicadas de pedestres e bicicletas”.
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Milton, que é também sócio do escritório MMBB Arquitetos, acrescenta que a passarela serve à mobilidade ativa – o transporte em que se usa o próprio corpo, seja andando, pedalando, seja usando patinetes, etc.
Qual é a importância dessas estruturas?
De uma forma geral, segundo Lea, pontes e passarelas evitam acidentes e fazem as pessoas – motorizadas ou não – terem mais liberdade para circular.
Em São Paulo, por exemplo, lugares como os rios Pinheiros e Tietê se beneficiariam de passarelas interligando as margens e tornando os espaços mais frequentáveis a partir da facilitação de seu uso.
“Imaginando, obviamente, os rios limpos e as margens tratadas como parques fluviais. Outra razão para se construir passarelas seria, no mesmo caso dos rios de São Paulo e sobretudo no Pinheiros, levar o benefício das estações de transporte para outra margem”, diz Milton.
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Segundo ele, se em cada estação da linha 9 da CPTM houvesse uma passarela interligando as duas margens, o lado que não tem a linha teria quase o mesmo benefício do outro lado. “É uma forma de chegar muito agradável, vendo o rio e a paisagem”, diz.
Contudo, parece haver uma insatisfação entre alguns urbanistas em relação à forma com que passarelas são distribuídas nas cidades, principalmente no caso de transposição de avenidas. O entendimento é de que, aqui, privilegia-se o fluxo de carros, em vez de pessoas – o que vai à contramão de alguns preceitos do urbanismo.
“Nesses casos, eu concordo que há uma inversão de valores. O correto seria privilegiar o pedestre e dar um jeito do carro passar por baixo ou por cima do pedestre, e não contrário”, afirma Milton.
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Melhor ainda, segundo ele, seria fazer o carro parar para o pedestre cruzar – ou seja, diminuir o paradigma de que o veículo tem que andar da melhor forma ao custo de não promover qualidade urbana para os espaços da cidade, além de gerar muita poluição e não estimular a caminhada ou o uso de transporte público.
“É uma inversão. O correto seria estimular o transporte público e a mobilidade ativa e desestimular o carro”, completa o arquiteto e urbanista.
A solução, para ele, pode estar na diminuição da velocidade nas avenidas e introdução de semaforização, além de garantir belas travessias para pedestres, priorizando aquelas de nível.
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Um exemplo positivo seria a avenida Paulista – “a melhor avenida de São Paulo, do ponto de vista do espaço público”, segundo Milton.
Design destacável
Unindo funcionalidade à estética, há algumas passarelas e pontes espalhadas pelo mundo que figuram como exemplos de um bom design.
Lea, por exemplo, cita a Ponte Sant’Angelo, em Roma; a Puente de la Mujer, em Buenos Aires; a Pont Neuf, em Paris; a Golden State Bridge, em São Francisco; e a Ponte de Pedra, em Porto Alegre.
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“Infinitas são as pontes que, desde muito tempo, foram feitas e se transformaram em exemplo estético aliado ao funcional, chegando mesmo a serem ponto obrigatório de visitação nas cidades”, diz a arquiteta e urbanista.
Já Milton destaca as pontes da cidade do Porto, em Portugal, que permitem o cruzamento da cidade alta, de um lado do Rio Douro, para o outro lado.
“Há muitas passarelas importantes para a qualificação da paisagem, como a Millenium Bridge, em Londres, desenhada com uma super tecnologia de materiais. Mas não faria sentido em uma cidade brasileira, por exemplo, onde a demanda é muito maior. Aqui, é melhor construir muitas passarelas em vez de investir muito em uma apenas”, diz.
Como exemplo de projeto virtuoso, ele cita também o sistema de passarelas de Salvador, assinado pelo arquiteto João Filgueiras Lima.
“Elas foram pré-fabricadas e são extremamente delicadas e econômicas, não apenas no sentido financeiro, mas também no sentido estético. São muito precisas, muito leves e produzem esse efeito maravilhoso de transposição quando há uma obstrução ou obstáculo”, comenta.
Ele diz que a capital baiana ainda requer passarelas para aliviar o trânsito em avenidas, mas que, pouco a pouco, deveríamos pensar nas estruturas para cruzar vales e rios – que são naturais, e não um resultado de políticas equivocadas.
expresso.arq sobre artigo de Yara Guerra


