Para a presidente do CAU/BR, Nadia Somekh, arquitetura e urbanismo devem ser promotores de saúde e igualdade
Arquitetura significa “arte e técnica de organizar espaços e criar ambientes para abrigar diversos tipos de atividades humanas, visando determinada intenção plástica”.
Fora das páginas do dicionário, arquitetura significa criar ambientes onde as pessoas possam habitar com dignidade e viver bem.
Em um país onde 25 milhões de moradias são precarizadas, o trabalho do arquiteto ganha outro grande propósito: promover o desenvolvimento, a igualdade e o bem-estar.
Sob essa perspectiva, a presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), Nadia Somekh, afirma: “arquitetos são profissionais de saúde”.
Para ela, a casa e o espaço urbano podem adoecer ou curar uma pessoa, tanto que o poder de uma reforma é gigantesco, tanto para o indivíduo, quanto para a vizinhança.
Um ambiente interno insalubre, por exemplo, pode causar doenças, como pneumonia e alergias crônicas.
Combinado com um bairro sem infraestrutura de esgoto, há riscos de doenças ainda mais graves, como leptospirose ou hepatite A.
Por isso, explica Nadia, a arquitetura deve ser considerada uma área da saúde.
Reconhecer este fato é essencial para mudar a realidade brasileira, em que 82% das moradias são erguidas sem apoio de arquitetos ou engenheiros.
Outro dado importante – e desolador – das 25 milhões de moradias insalubres, 11 milhões têm problemas construtivos, como ausência de banheiro exclusivo, falta de revestimento em paredes, cômodos improvisados em dormitórios e falhas de coberturas e pisos.
“Precisamos aproximar o profissional de arquitetura da população. Não tem nem como discutir sustentabilidade quando ainda existem pessoas sem casa e pessoas morando em situações precárias”, destaca a presidente do CAU/BR.
Arquitetura contra “desurbanidade”
Nadia é professora emérita da Universidade Presbiteriana Mackenzie, foi diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e coordenadora da estruturação do programa de pós-graduação.
Também foi conselheira do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e da União Internacional de Arquitetos (UIA).
Como pesquisadora, a presidente do CAU/BR se debruçou sobre os efeitos da verticalização no urbanismo brasileiro e chegou a uma realidade incômoda: os mais pobres foram excluídos do crescimento vertical das cidades.
Os planos diretores, indica Nadia, pouco fizeram para apoiar a população mais vulnerável, que tem sido colocada cada vez mais às margens da cidade, excluídos também do espaço público, em uma situação que Nadia chama de “desurbanidade”.
A cidade sem humanidade, diz ela, nada mais é que uma cidade “desurbana”, que não agrega e nem acolhe as pessoas.
“Para resgatar a humanidade, precisamos pensar em ações de urbanidade”.
Ações como o programa “Nenhuma Casa sem Banheiro”, promovido pelo CAU no Rio Grande do Sul com objetivo de construir banheiros para moradias precarizadas para mais de 11 mil pessoas no Estado.

(Fotos: Guilherme Pereira | Prefeitura de Canoas)
“Arquitetura é melhorar a vida da população.
É uma missão através da poética, diferentemente do engenheiro, que traz a visão técnica, nós temos uma missão transcendente porque usa a arte e a nossa sensibilidade para projetar.
A arquitetura é a sensibilidade aplicada na melhoria das condições humanas”, fala Nadia.
Arquitetura, medicina e o início de um ciclo virtuoso de prosperidade

Como presidente do CAU/BR, Nadia apoia o projeto “Mais Médicos/Mais Arqutetos“, que colocaria arquitetos para apoiar os postos de saúde da família espalhados pelo País. “Seria uma forma de observar se a casa das pessoas que chegam com problemas crônicos de saúde nos postos estão ajudando ou piorando a condição delas”, comenta Nadia.
A partir dessas análises feitas na ventilação do lugar, na iluminação e até na condição dos cômodos, poderá existir um programa que ajude o financiamento de obras naquele ambiente, para torná-lo mais adequado para a saúde dos moradores.
Para Nadia, falar de moradia digna para todos não se trata de um programa de assistência social, e sim de geração de riqueza.
“Estamos falando de desenvolvimento de mão de obra local, de venda de material de construção, de promover saneamento, infraestrutura… A população com a moradia melhorada pode consumir mais, ter mais saúde, estudar mais”, fala Nadia.
expresso.arq com informações da assessoria de Imprensa CAU/BR


