Vale a pena participar de concursos de projetos de arquitetura?
A eficácia dos concursos de arquitetura no Brasil costuma ser questionada por vários profissionais, desde titulares de escritórios e dirigentes de entidades, passando por professores, historiadores até os jovens que ingressam na profissão.
Se, por um lado, é considerado o instrumento mais justo e democrático de escolha do melhor projeto, de outro, apresenta problemas de ordem prática que acabam afastando potenciais interessados.
Premiações de baixos valores, não-contratação plena dos arquitetos vencedores, alto percentual de projetos não construídos e os gastos incorridos pelos participantes durante o processo são algumas das críticas.
Aprimorar os concursos e torná-los mais seguros para todos os envolvidos – promotores, organizadores e participantes – são, portanto, demandas justas para valorizar a profissão do arquiteto e proporcionar melhores soluções urbanas e arquitetônicas para a sociedade.
Enquanto isso não ocorre, entretanto, várias gerações ingressam na profissão, se sentem atraídas pelos eventuais benefícios dos concursos e acabam ficando na dúvida: vale a pena?
“É um caminho sofrido, exaustivo e a concorrência é muito grande”, afirma o arquiteto Mario Biselli, sócio-diretor da Biselli Katchborian Arquitetos Associados.
“Mas se você quiser trabalhar com projetos de uma determinada escala e complexidade, os concursos serão importantes nessa trajetória”.
Vencedor do concurso nacional para o Terminal Internacional de Passageiros do Aeroporto de Florianópolis, organizado pela Infraero e pelo IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), em 2006, o escritório de Biselli só conseguiu atuar posteriormente na área por conta dessa experiência inicial.
“Sem os atestados e a comprovação de currículo não conseguiríamos trabalhar em outro projeto aeroportuário”, explica o arquiteto.
“O concurso público sigiloso é uma maneira interessante de jovens arquitetos conseguirem um contrato de um projeto de maior porte e expressão”, acrescenta o Arq. Gilberto Belleza, sócio-diretor do escritório Belleza & Batalha C. do Lago Arquitetos Associados e ex-presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil.
“Não se conhecem os concorrentes e, portanto, não há chance de diferenciação entre um profissional de grande ou pouca experiência”, completa.
Mas, afinal, o que os jovens profissionais de arquitetura e urbanismo devem levar em consideração ao avaliarem a possibilidade de participação em concursos?
Confira 6 recomendações para ajudar na tomada de decisão.
1) DEFINA SEU OBJETIVO NESTE MOMENTO DA CARREIRA
Não existe receita de bolo para ser um arquiteto reconhecido e bem-sucedido.
Há vários caminhos para se chegar lá.
Não são poucos os profissionais de sucesso que jamais se inscreveram em um concurso.
Outros participaram de vários no início da carreira e depois pararam ou se tornaram mais seletivos.
Como veremos nos itens a seguir, há tempo, gastos e riscos a serem calculados nesse processo.
Dependendo do seu objetivo, entretanto, isso pode ser encarado como um investimento.
Para exemplificar: se a ideia é trabalhar com grandes obras e projetos institucionais, como museus, centros culturais, teatros, parques etc., você deve olhar para os concursos com maior atenção.
De outro lado, se o objetivo, no momento, é batalhar por projetos de residências e edificações de pequeno porte – o que não é nada fácil hoje em dia – ou atuar em nichos específicos da arquitetura, buscando mais segurança e menos risco, talvez seja o caso de deixar passar.
Pelo menos por um tempo. E reavaliar depois.
2) AVALIE AS NECESSIDADES DE TEMPO, RECURSOS E GASTOS
Esse é um ponto importante.
Muitos escritórios possuem uma base de custos apertada, gastos com computadores e sistemas, aluguel, impostos e, em alguns casos, funcionários e estagiários.
Participar de concursos, sem nenhuma garantia de retorno, caberia no orçamento?
O investimento é viável?
É preciso fazer as contar, avaliar os potenciais benefícios e tomar a decisão.
Agora, se a ideia for reunir colegas mais próximos, dispostos a entrar no risco, a análise é diferente e pode ser uma saída econômica para todos.
“Muitos jovens acabam se juntando e trabalhando em equipes, o que elimina a despesa com pessoal”, afirma Belleza.
3) SELECIONE UM PROGRAMA COM O QUAL SE IDENTIFICA
“O jovem deve olhar para os temas que mais o atraem”, recomenda Biselli.
Se o atendimento do projeto ao programa proposto pelo concurso é um elemento essencial para aumentar as chances de sucesso, o ideal é que haja uma identificação dos arquitetos com o assunto.
Lembrando que o concurso também servirá como aprendizado para o profissional.
“Um dos meus mestres na profissão, o arquiteto Héctor Vigliecca, diz que os concursos funcionam como uma escola, que nos ensina a sermos mais concentrados, sintéticos, objetivos e impactantes”, revela o sócio da Biselli Katchborian Arquitetos Associados.
4) DECIDIU CONCORRER? HORA DE SE ATIRAR
Essa é a parte divertida da história.
Mesmo que seja cansativo e arriscado, participar de um concurso de projeto de arquitetura, a despeito do profissionalismo envolvido, pode ser também uma boa aventura – no melhor sentido da palavra.
“Veja o que lhe interessa e vá com tudo. O resultado você entrega para a providência divina, mas tem que fazer a sua parte e se jogar com paixão e muita energia. Abraçar o risco mesmo!”, afirma Biselli.
Belleza também participou de concursos, principalmente quando era mais jovem e se lembra da correria e das ‘viradas de noite’ para atender aos prazos exíguos.
“Um aspecto interessante no passado, hoje mais raro com as entregas online, era correr com a pranchas debaixo do braço, muitas vezes até viajar para entregá-las pessoalmente”, recorda o arquiteto.
Uma dica óbvia, mas importante, para ter sucesso nos concursos: caprichar na apresentação.
De nada adiantará se o projeto não tiver um diferencial, as soluções não forem boas ou não atenderem ao programa, mas o cuidado com a forma e a aparência ajudam a chamar a atenção dos jurados.
5) ESTUDE O REGULAMENTO A FUNDO
Conhecer bem as regras não ajuda apenas a ter sucesso nos concursos e evitar eventuais desclassificações.
Auxilia a identificar também ‘roubadas’, ou seja, iniciativas sem credibilidade ou, o que é pior, de caráter meramente arrecadatório.
“Cientes de que os concursos atraem muito os jovens arquitetos, algumas empresas têm promovido iniciativas de olho apenas na taxa de inscrição” alerta Belleza.
O arquiteto chama a atenção também para concursos ruins, sem entidade organizadora, muitas vezes até direcionados e com regras irregulares.
“Importante verificar, por exemplo, se a obrigatoriedade da contratação do vencedor consta das regras. Infelizmente, temos visto muitos casos de serem promovidos concursos, o vencedor ser declarado e, simplesmente, a contratação não ocorrer”, conclui Belleza.
6) A HORA DE SER MAIS SELETIVO
Assim como é importante tomar a decisão de começar, ou não, a participar, também é recomendável saber o momento de ser mais seletivo nos concursos ou, se for o caso, até parar.
É a hora de avaliar se os objetivos iniciais foram alcançados e se há algo mais a ser atingido.
“Tem uma época certa na vida para aceitar esse tipo de risco”, afirma Biselli.
“Chega um momento no qual você tem que selecionar bem o concurso que pretende participar, sob o risco de ficar a vida inteira ganhando menções honrosas, segundo ou terceiro lugar e nunca fazer um projeto grande. Os arquitetos têm que conhecer e avaliar esse risco”, conclui o arquiteto.
expresso.arq com informações de Cozza Comunicação


