O que deveria custar mais, materiais ou mão de obra?

A arquitetura pode ser uma profissão ambiciosa, com muitos arquitetos esperando contribuir positivamente para a vida social das comunidades, além criar respostas emocionais e adicionar momentos de prazer e alívio diante de nossas experiências diárias.

No entanto, as forças do mercado têm uma maneira de pressionar constantemente este campo, muitas vezes sendo o fator decisivo nas escolhas de design.

Os custos e o valor econômico geralmente são um bom indicador de como, quando e em que medida certos materiais estão sendo usados: a regra padrão é quanto mais barato, melhor. 

Los Manantiales por Felix Candela. Imagem cortesia de Alexander Eisenschmid

Mas os materiais são apenas parte da equação.

Os custos de mão de obra, gerenciamento e projeto do local também são considerados, representando um quadro complexo do equilíbrio entre o custo dos materiais e o custo da mão de obra e seu efeito no produto arquitetônico.

Da forma como a indústria é moldada hoje na maioria dos países desenvolvidos, o trabalho, em todas as suas formas, é fortemente tributado.

Já os materiais não.

Segundo o engenheiro Steve Webb, essa distorção leva a uma tendência que minimiza o trabalho, tanto físico, no local, quanto intelectual, nos estúdios de design.

Em vez de otimizar o uso de material para criar estruturas mais leves e com melhor desempenho, o trabalho intelectual colocado no projeto é minimizado, ao mesmo tempo em que o número de pessoas que trabalham no canteiro de obras é limitado.

Saddle Test Gridshell for The Arc at Green School by IBUKU. Imagem cortesia de IBUKU

Ao tornar as estruturas mais pesadas, se fazem necessárias tolerâncias mais significativas para compensar o prazo limitado, as formas simples são preferidas e a padronização e o uso da máquina são sempre as primeiras escolhas nesse empreendimento.

Materiais e acabamentos extras são usados para tornar o produto final esteticamente atraente.

Essa abordagem pesada aumenta a quantidade de materiais desnecessários usados em até 30%. Como Steve Webb coloca eloquentemente:

“Quando você olha para um edifício, você não vê o desperdício, mas deveria”.

Essa abordagem traz consequências significativas.

A corrida para aumentar o capital, ou seja, aumentar a utilização de materiais e diminuir a mão de obra, traduz-se num uso abusivo de recursos limitados, área em que a construção civil já se destaca.

Para dar uma noção do escopo do problema, algumas estimativas atribuem 38% das emissões globais de CO² à arquitetura, construção e indústrias relacionadas.

O outro lado da moeda mostra o aumento do desemprego devido à automatização, a redistribuição deficiente do lucro e, neste campo, especificamente, a diminuição da demanda por artesãos.

Esses são sinais claros de uma perda de equilíbrio entre a facilidade com que abusamos dos recursos materiais e subutilizamos nosso intelecto e engenhosidade.

As consequências também são visíveis na imagem dos ambientes urbanos e rurais.

Eladio Dieste – SAMAN Silo S.A. Imagem cortesia de Servicio de Medios Audiovisuales de la Facultad de Arquitectura, Diseño y Urbanismo de la Universidad de la República. Image © Estudio Dieste & Montañez

Embora possa ser aplicada nas circunstâncias atuais, essa narrativa ainda não é universal.

Diferentes restrições em outras épocas ou lugares podem dar noções de como seria a inversão do equilíbrio de custos.

No caso de muitas áreas subdesenvolvidas, os materiais de construção não estão disponíveis localmente, e o transporte torna este recurso um dos aspectos mais custosos do projeto.

Em contrapartida, as mesmas áreas se beneficiam de uma grande força de trabalho a um custo relativamente baixo, mesmo considerando a necessidade de capacitação.

Essa dinâmica gerou inovações estruturais e arquitetônicas que foram além da redução de custos.

Felix Candela – Los Manantiales. Imagem via www.rkett.com

Um exemplo é o trabalho do arquiteto e engenheiro Felix Candela, que atuou nos anos 40, 50 e 60 no México e na América Latina.

Aqui, as condições de baixo custo de material e mão de obra prontamente disponível permitiram que ele seguisse seu fascínio por estruturas de concreto de casca fina.

Ele trabalhou em centenas de projetos como arquiteto, engenheiro e empreiteiro.

Os edifícios que ele projetou eram tão estreitos que foram chamados de “fantasias estruturais ousadas” por Ada Louise Huxtable. 

Felix Candela viu o potencial da forma paraboloide hiperbólica não apenas por suas qualidades artísticas, mas também como uma solução econômica.

O perfil em forma de sela distribui o peso de forma eficiente, exigindo menos material, e pode ser construído usando andaimes em linha reta, um método simples que resulta em uma forma complexa.

Eladio Dieste Julio Herrera y Obes Warehouse. Imagem cortesia de Servicio de Medios Audiovisuales de la Facultad de Arquitectura, Diseño y Urbanismo de la Universidad de la República. Image © Andrea Sellanes

Na mesma época, o engenheiro uruguaio Eladio Dieste marcava sua reputação construindo estruturas cobertas com abóbadas de casca fina construídas de tijolo e telhas cerâmicas.

Os tijolos eram mais baratos e mais fáceis de se obter no Uruguai em comparação com o concreto armado.

Outra vantagem é que esses projetos eram estruturalmente resistentes devido a sua forma, eliminando a necessidade de vigas.

“Os métodos de construção que estou descrevendo permitem uma velocidade de construção semelhante à da pré-fabricação, exigindo menos equipamentos e mão de obra semelhante. A simplicidade dos equipamentos necessários e o fato de estarmos usando os menores e mais antigos elementos pré-fabricados levam as pessoas a acreditar que estamos empregando métodos artesanais, associados a uma vaga conotação de subdesenvolvimento e a uma falha na aplicação do que a ciência colocou ao alcance da tecnologia. Isso não é verdade!”, exclama  Eladio Dieste

Biblioteca Maya Somaiya, Escola Sharda por Sameep Padora & Associates. Imagem cortesia de Sameep Padora & Associates

Esses edifícios continuam inspirando arquitetos contemporâneos que trabalham em condições semelhantes.

Para criar a Biblioteca Maya Somaiya em Kopargaon, na Índia, o escritório de arquitetura Sameep Padora & Associates utilizou o sistema Catalan Tile Vaulting em tijolo e o detalhe do anel de compressão do trabalho de Eladio Dieste, aliado a um software especializado.

A estrutura eficiente em materiais gera um espaço envolvente que atrai estudantes e residentes, ao mesmo tempo que se adapta às oportunidades e restrições regionais.

O arco na Green School por IBUKU. Imagem © Tommaso RIva
O arco na Green School por IBUKU. Imagem © Tommaso RIva

O escritório indonésio IBUKU usa bambu, um dos materiais mais disponíveis na Ásia, para criar estruturas impressionantes com a ajuda das comunidades locais.

Os arquitetos se envolvem com profissionais locais para entender a disponibilidade de materiais, o nível de mão de obra e as técnicas de construção locais.

O projeto esquemático é elaborado enfatizando aspectos técnicos, de custo e construção, uma abordagem holística que traz resultados impressionantes.

O arco na Green School por IBUKU. Imagem cortesia de IBUKU

Considerar os materiais e suas qualidades e características intrínsecas, não apenas seus custos, pode elevar o nível de um projeto arquitetônico, mantendo-o alicerçado na identidade local.

Limitar a exploração de materiais de construção e substituí-la por mais atividade humana, tanto no local quanto em estúdios de design, traz benefícios que vão além da sustentabilidade.

Além de limitar a poluição envolvida na criação de materiais, também promove o envolvimento da comunidade, desenvolve a economia local e pode beneficiar toda a indústria da construção.

expresso.arq  Maria-Cristina Florian | Traduzido porDiogo Simões

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