Torre Mata Atlântica é candidata a novo cartão-postal de São Paulo
Conhecido por desafiar normas e padrões da arquitetura moderna, o francês Jean Nouvel, 76 anos, ganhou fama internacional com os projetos do Instituto do Mundo Árabe (1987) e da Fundação Cartier para Arte Contemporânea (1994), em Paris.
Também são dele a alta Torre Agbar (2005), em Barcelona, e o Teatro Guthrie (2006), em Minneapolis. Premiado com o prestigioso Pritzker e com o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, Nouvel passou perto de deixar sua marca no Brasil em 2003, com o controvertido Guggenheim Rio, a filial brasileira do museu americano de arte contemporânea.

A ideia, contudo, não vingou. Atribuiu-se a desistência de erguer o edifício à Guerra do Iraque. Passados quase vinte anos, Nouvel não desperdiçou a segunda chance: é dele a assinatura da exuberante Torre Mata Atlântica, parte do hotel de luxo Rosewood São Paulo, no centro da capital paulista. A inauguração está prevista para junho.
O prédio faz parte do complexo Cidade Matarazzo, onde funcionaram durante quase todo o século XX o Hospital Umberto I, conhecido popularmente como Hospital Matarazzo, e a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo.
A construção tem 22 andares e 100 metros de altura. Nouvel a envolveu com mais de 200 árvores, algumas com até 14 metros de altura, criando uma grande floresta vertical em sintonia com a mata nativa da região, um resgate que mantém diálogo com o zelo pelo meio ambiente.
A estrutura singular da obra e o verde das folhas se destacam na linha do horizonte.
Não há dúvida: é candidata a se transformar em marco de uma metrópole de urbanismo caótico, em busca de novidades, carente de novos “cartões-postais” além dos já consagrados Edifício Copan, de Oscar Niemeyer (1907-2012), do Masp, de Lina Bo Bardi (1914-1992), e do Edifício Itália, de Franz Heep (1902-1978).

A Torre Mata Atlântica é capítulo relevante da ambiciosa ideia do empresário francês Alexandre Allard de entregar a São Paulo um conjunto que conterá, além do Rosewood, um centro cultural, um shopping com mais de setenta marcas exclusivas e 34 pontos de gastronomia.
Tudo isso no terreno de 30 000 metros quadrados próximo à Avenida Paulista adquirido em 2011 pelo empresário. Outro francês, o designer Philippe Starck, ficou responsável pelos interiores. Starck, ficou responsável pelos interiores. Starck selecionou 57 artistas brasileiros para produzir uma coleção de esculturas, pinturas, azulejos, desenhos, tecidos e tapetes.
Nouvel e Starck procuraram preservar a memória dos antigos edifícios ao mesmo tempo que resgataram elementos originários da região. “Construções do passado podem estabelecer uma relação e criar um diálogo com as árvores”, disse Nouvel a VEJA.
“Assim, nós reforçamos a presença na natureza, em vez de ocultá-la ou calá-la.” Trata-se de alinhavar o que a arquitetura tem de mais extraordinário: contar a história dos humores de determinado tempo histórico.
Ou, como disse o alemão Mies van der Rohe (1886-1969) em uma máxima celebrada: “A arquitetura é a vontade de uma época traduzida em espaço”.
expresso.arq sobre artigo publicado em VEJA de 25 de maio de 2022, edição nº 2790


