A Casa do Futuro: como a arquitetura dos anos 1980 imaginava a evolução da moradia
Ninguém pode prever o futuro com exatidão. No máximo, fazemos palpites racionais de como alguns aspectos evoluirão, com base nas experiências do presente. Assim, pode soar audacioso batizar um projeto de arquitetura como A Casa do Futuro.
Por isso, em 1980, o arquiteto Charles Robert Schiffner (1948-2023) insistia em chamar seu projeto de “showcase of ideias”, ou mostra de ideias. Ainda assim, o nome The House of the Future acabou pegando, pela residência reunir as tendências da época em tecnologia, materiais e estilo de vida.
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A Casa do Futuro foi construída em Phoenix, no Arizona, sudoeste dos Estados Unidos, como a casa decorada para o bairro Ahwatukee, que foi loteado na virada entre as décadas de 1970 e 1980. Ahwatukee significa “casa dos sonhos” na língua nativa americana crow.
Na época, era comum que novos loteamentos investissem em obras de arquitetura curiosas e chamativas para atrair visitas de potenciais compradores. Um deles construiu a fonte mais alta do mundo, outro criou uma réplica da London Bridge sobre o rio Colorado. Já o Ahwatukee veio com uma proposta mais significativa: uma casa do futuro, que estimulasse reflexões sobre como seria a moradia em um mundo sustentável.
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Para projetar a Casa do Futuro, o investidor imobiliário Randall Presley procurou o escritório de Frank Lloyd Wright (1867-1959), considerado um dos maiores arquitetos do século 20. Lloyd Wright já havia falecido, mas o seu escritório, o Taliesin Associated Architects, continuava operando em Phoenix, com os arquitetos que haviam sido seus discípulos. Charles R. Schiffner era um deles e acabou assumindo o projeto.
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A inspiração para a arquitetura de Schiffner foi um projeto de seu mentor Lloyd Wright, uma residência com cômodos individuais em formato circular, espalhados ao redor de um terraço. A ideia era eliminar o corredor, considerado um espaço desperdiçado.
A Casa do Futuro também não tinha corredores, porém assumiu o formato triangular, com os ambientes distribuídos nas pontas do triângulo, e o atrium, um grande ambiente social de pé-direito duplo, no centro.
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O resultado estético é uma arrojada pirâmide, forma escolhida para impressionar o público. Um design mais simples, com cobertura reta, como eram os projetos de Lloyd Wright, não parecia espetacular o suficiente para a divulgação da Casa do Futuro, segundo o Organic Architecture and Design Archives (OA+D), organização que preserva os arquivos do Taliesin Architects.
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Apesar de seu objetivo comercial, a Casa do Futuro foi além da extravagância estética e abordou aspectos substanciais e inovadores para a arquitetura da década de 1980 – alguns deles consideradas novidades até hoje. Descubra abaixo o que fez do projeto de Schiffner ser considerado a Casa do Futuro:
Integração de ambientes
Nos anos 1980, a questão da família nuclear estava sendo discutida na sociedade. Enquanto nas casas tradicionais os quartos são separados por paredes e dispostos ao longo de corredores, na Casa do Futuro eles são fechados apenas por portas de correr de vidro, diretamente do atrium. A privacidade se dá por uma dupla de cortinas: uma leve, permitindo a passagem de luz natural, e outra mais pesada, bloqueando completamente a vista. A ideia é incentivar a convivência familiar removendo as barreiras das paredes.
Computador em casa
Em 1978, ainda havia pouquíssimos computadores para o uso do público, a maioria em universidades ou edifícios do governo. Eles eram enormes, ocupando uma sala inteira. A ideia de integrar um computador à decoração veio do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, que estava passando nos cinemas da época do projeto. O filme levou Schiffner a pensar que o computador poderia ter impacto na arquitetura de interiores residencial no futuro – o que, com certeza, tornou-se realidade.
Adaptação à temperatura
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O clima do deserto do Arizona oferece temperaturas extremamente quentes e frias, além de períodos de seca e umidade. A Casa do Futuro foi projetada para responder a essas variações. Na primavera e no outono, o atrium é refrescado por um climatizador evaporativo e também por sprays de água ao lado do sofá. As aletas ventiladas permitem que o ar quente saia e o ar frio da noite entre para refrescar a residência – a abertura delas pode ser ativada automaticamente por sensores de temperatura ou manualmente.
Automação residencial
A Casa do Futuro já contava com um sistema computadorizado de automação. Através dele, é possível pré-programar funções, como a abertura das cortinas com o nascer do sol e o acender das luzes ao pôr do sol.
Blocos de concreto
A Casa do Futuro foi construída com blocos de concreto, por motivações de custo e sustentabilidade. Mas não concreto comum, e, sim, um produzido a partir de cimento, cinzas residuais da queima de carvão para produção de energia e um agente químico que cria pequenos bolsões de ar, para isolamento e leveza. Os blocos têm um sistema de encaixe que dispensa o uso de argamassa. A construção foi simples, sem a exigência de mão de obra especializada. Um sistema construtivo precursor dos atuais pré-fabricados.
Painéis solares
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O telhado da Casa do Futuro conta com painéis solares que fornecem 95% do aquecimento dos ambientes internos e 100% do aquecimento de água, além de poderem aquecer também a piscina. Uma autonomia energética que até hoje ainda não se popularizou.
Marcenaria em aglomerado de madeira
Toda a marcenaria da Casa do Futuro foi executada em aglomerado de madeira, material que era novidade na época e tem apelo sustentável, por ser fabricado com fibras de madeira recicladas.
expresso.arq com informações de Maria Silvia Ferraz


