Cidade regenerativa: o que significa esse conceito para o urbanismo

Regeneração significa, pela etimologia, dar nova vida. Para estudiosos da sustentabilidade, é fomentar ações positivas para a saúde do planeta, incluindo toda a sua biodiversidade. Não apenas preservar a natureza que ainda existe, mas regenerar a que foi destruída.

É uma mudança de visão do mundo, com a ruptura do antropocentrismo e a regeneração dos ecossistemas. O conceito tem sido aplicado a diversas áreas, como turismo, agricultura, design e também urbanismo, com a cidade regenerativa.

Segundo a pesquisadora Coral Michelin, designer, professora no Istituto Europeo di Design (IED-SP) e autora de Design Ecossistêmico, publicado pela editora Bambual, no conceito de cidade regenerativa, saímos da visão antropocêntrica e percebemos que outros seres vivos, não humanos, compartilham a cidade conosco.

“Um ecossistema, por mais degradado que esteja, segue sendo um ecossistema”, constata a professora. Ainda que boa parte da fauna original não habite as cidades, ainda há ali insetos, pássaros e plantas.

Calçadas não cimentadas, com a presença de gramíneas nativas, trariam permeabilidade ao solo da cidade regenerativa — Foto: Freepik/Gerada por IA/Creative Commons
Calçadas não cimentadas, com a presença de gramíneas nativas, trariam permeabilidade ao solo da cidade regenerativa — Foto: Freepik/Gerada por IA/Creative Commons

Na cidade regenerativa, é restaurado o ecossistema natural, com atenção a seres não humanos. Por exemplo, é privilegiar espécies nativas em projetos de paisagismo, para o retorno da flora e fauna original daquele ecossistema ao ambiente urbano. Ou ter solos permeáveis, acessíveis às águas da chuva. “Uma calçada verde seria de terra com gramíneas nativas, com trilha para os pedestres”, propõe Coral.

Mas também é restaurado o tecido social das cidades, fomentando conexões entre as pessoas. “O capitalismo e as grandes cidades nos empurram para o individualismo. Temos dificuldade em criar relações sociais genuínas próximas”, diz Coral. No conceito de cidade regenerativa, a cidade é feita pelo ser humano, para o ser humano.

Imagine como seria São Paulo com o rio Tietê despoluído, com margens verdes — Foto: Freepik/Gerada por IA/Creative Commons
Imagine como seria São Paulo com o rio Tietê despoluído, com margens verdes — Foto: Freepik/Gerada por IA/Creative Commons

Unir a regeneração dos ecossistemas naturais com a das comunidades pode parecer um sonho distante, ou uma utopia. “E é bom ser uma utopia, utopias são necessárias”, afirma Coral. Para ela, a cidade regenerativa é uma visão de futuro desejável, diferente das ruínas do capitalismo, que são as metrópoles de hoje.

É imaginar, tomando São Paulo como exemplo, o Minhocão transformado em parque e os rios Tietê e Pinheiros despoluídos. “Já provamos que a distopia é possível. A utopia também é”, conclui Coral.

Exemplos reais de projetos de cidade regenerativa

Se a cidade regenerativa parece longe da realidade, especialmente em grandes centros urbanos, como São Paulo, alguns projetos já implantados aqui provam que essa utopia é, sim, possível. Ainda que o impacto seja local, eles são exemplos de ativismo ambiental que poderiam ser replicados em mais lugares, transformando positivamente a paisagem urbana.

  • Horta das Corujas
A Horta das Corujas, na zona oeste de São Paulo, é um exemplo real de projeto de cidade regenerativa — Foto: Reprodução/Facebook
A Horta das Corujas, na zona oeste de São Paulo, é um exemplo real de projeto de cidade regenerativa — Foto: Reprodução/Facebook

É uma horta comunitária na Praça das Corujas, na zona oeste de São Paulo. Existe desde 2012, com autorização e apoio da prefeitura. São realizados mutirões semanais de plantio e manutenção da horta, abertos ao público. As colheitas são oferecidas aos voluntários e frequentadores. O grupo se mobiliza através de uma página no Facebook. A horta regenerou a natureza da praça, evitando erosão e garantindo permeabilidade do solo e até restaurando nascentes de água.

  • Praça da Nascente
A Praça da Nascente, na zona oeste de São Paulo, é fruto da mobilização da população por uma cidade regenerativa — Foto: Reprodução/Facebook
A Praça da Nascente, na zona oeste de São Paulo, é fruto da mobilização da população por uma cidade regenerativa — Foto: Reprodução/Facebook

Até 2013, essa área de 12 mil m² na Pompeia era abandonada e tomada por mato e lixo. Mas essa história mudou quando o coletivo Ocupe & Abrace se mobilizou e passou a cuidar da praça de maneira independente, recolhendo o lixo, plantando mudas e instalando bancos e balanços. Assim, descobriram uma enorme riqueza natural: nascentes do Córrego Água Preta, o que levou a praça a ser rebatizada extra-oficialmente como Praça da Nascente.

Em 2015, um estudo do Instituto Geográfico e Cartográfico (IGC) identificou 13 nascentes na área da praça e em seu entorno. Em 2016, obras maiores foram realizadas pela prefeitura, melhorando a estrutura da praça. Atualmente, o coletivo segue lutando para impedir a construção de um empreendimento imobiliário ali, o que destruiria as nascentes. Hoje, a praça é frequentada por famílias e é um refúgio verde no bairro.

Qual a diferença entre cidade sustentável e cidade regenerativa?

A regeneração pode ser entendida como um passo além da sustentabilidade. Enquanto essa última é pautada nos sistemas de produção e de consumo, propondo o desenvolvimento sustentável, e, portanto, com uma visão antropocêntrica, a regeneração olha para os ecossistemas como um local onde os humanos também habitam. Assim, a cidade regenerativa considera não somente os seres humanos, mas todas as espécies vivas.

Leituras para se aprofundar no tema de cidade regenerativa

expresso.arq sobre artigo de Maria Silvia Ferraz

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