Conhecendo procedimentos que revelam o potencial das estruturas existentes e que podem salvar um edifício e demolição

O século XX marcou uma mudança definitiva no campo da arquitetura, à medida que o movimento modernista rompeu com os estilos tradicionais de construção e encorajou a experimentação e inovação.

Com a ajuda de novos materiais e tecnologias, essa época representa um momento crucial na história da arquitetura, já que tanto as cidades quanto as técnicas de construção evoluíram em um ritmo sem precedentes.

No entanto, muitas estruturas – que até hoje permanecem como testemunho – estão perto de completar cem anos de idade.

O design austero dessas estruturas nem sempre são acolhidas pelo público, enquanto os princípios funcionalistas muitas vezes dificultam a adaptabilidade dos seus espaços interiores.

Considerando que muitas vezes ocupam posições centrais dentro da cidade, há uma pressão crescente para demolir essas estruturas e reconstruir essas áreas completamente. 

Estruturas modernistas são frequentemente vistas como rígidas, ao mesmo tempo futuristas e ultrapassadas, e não estão de acordo com os padrões modernos de eficiência energética e conforto.

Além disso, estão em uma posição intermediária: muitas vezes não são antigas o suficiente para serem consideradas monumentos, mas também não são novas o suficiente para serem vistas como úteis para a cidade.

Todos esses argumentos contribuem para a pressão em favor da demolição, apesar do entendimento intrínseco de que ‘o edifício mais sustentável é aquele que já existe’.

Demolição de prédio fabril. Imagem © Dietrich Leppert via Shutterstock

O processo comum de preparação para a demolição não faz muito para mudar essa mentalidade.

Com o principal propósito de assegurar a segurança da demolição, ele geralmente se concentra em aspectos superficiais, como a condição física do edifício, enquanto negligência o valor intrínseco, qualidades intangíveis e as histórias que estão enraizadas na estrutura desses prédios.

A possibilidade e viabilidade de reformar e adaptar essas estruturas para padrões modernos raramente são consideradas, já que a documentação está focada em preparar a demolição e não em questioná-la.

No entanto, tanto arquitetos quanto uma parte do público estão em busca de um processo de seleção mais criterioso.

Salvando Mäusebunker: um novo procedimento modelo

Os laboratórios de animais da Universidade Livre de Berlim, também conhecidos como Mäusebunker, seriam demolidos em 2020.

Construído entre 1971 e 1981 pelos arquitetos Gerd und Magdalena Hänska, essa impressionante estrutura brutalista serviu como centro de pesquisa para medicina experimental até 2010.

No entanto, a proposta de demolição do prédio foi feita como parte de uma tentativa de renovar e modernizar o campus.

Essa decisão enfrentou resistência de arquitetos e do público em geral, pois dois outros edifícios brutalistas dentro do mesmo complexo, o hospital e o Instituto de Higiene e Microbiologia, já eram considerados monumentos modernos.

O Escritório Estadual de Monumentos de Berlim contribuiu para os debates ao tornar público o resultado de uma nova análise, denominada “Modellverfahren Mäusebunker”.

A pesquisa foi conduzida em colaboração com a Charité University Medicine e o Departamento de Desenvolvimento Urbano, Construção e Habitação do Senado, com o objetivo de avaliar o prédio em termos de sua utilidade e potencial futuro.

Essa abordagem interdisciplinar representa uma mudança em relação ao processo típico de preparação para a demolição.

Ela destaca a importância histórica dos elementos únicos do edifício, como o complexo sistema de ventilação visível do lado de fora, enquanto também considera a imagem do prédio, uma vez que um edifício altamente reconhecível pode tornar os usos futuros mais atraentes para o público.

Esse processo enfatizou a importância do Mäusebunker em seu contexto mais amplo, como um símbolo do compromisso com o progresso científico que moldou a arquitetura pós-guerra e o planejamento urbano na Alemanha.

A arquitetura experimental brutalista agora é vista como parte de uma identidade cultural específica.

Além disso, especialistas exploraram o potencial do “retrofitting” como uma alternativa sustentável para conservar recursos.

A análise também considerou a viabilidade da estrutura e possíveis usos futuros, procurando entender como uma nova função poderia ser compatível com as estruturas existentes.

Instituto de Higiene e Microbiologia de Fehling+Gogel, 1969-74, vista externa, 2021. Imagem © Kay Fingerle

“ O Mäusebunker nos faz questionar: como devemos lidar com edifícios altamente especializados dessa época, considerando que anteriormente presumimos, de forma equivocada, que energia e recursos eram abundantes? “ questiona  Christoph Rauhut, chefe do Escritório Estadual de Monumentos de Berlim.

Mouse Bunker, da série Out of Homestories, 2020. Imagem © Kay Fingerle

No planejamento urbano, estudos de viabilidade são frequentemente empregados para analisar uma proposta e determinar a viabilidade real da implementação do projeto, levando em consideração aspectos técnicos, administrativos, legais e financeiros.

Esse novo método segue a mesma lógica, mas o aplica à viabilidade de reutilização de uma estrutura já existente.

Graças a esses esforços conjuntos, o Mäusebunker agora recebeu o status de monumento protegido.

O Escritório Estadual de Monumentos de Berlim determinou que os antigos laboratórios poderiam ser transformados em um espaço cultural de uso diversificado, incluindo cafés, salas de eventos e várias atividades comerciais, mantendo sua identidade cultural.

Contribuindo para essa discussão, a ERA Architects mostrou como é possível adaptar edifícios para atender aos modernos padrões de eficiência energética sem realizar alterações significativas em sua estrutura externa de concreto.

Mäusebunker 2023. Imagem © bullahuth

Além do resultado positivo relacionado ao Mäusebunker, todo esse capítulo demonstra a viabilidade do procedimento modelo experimental, que foi planejado para se tornar o procedimento padrão do Escritório de Monumentos.

Esperamos que ele sirva de exemplo para outras administrações locais responsáveis pela preservação do patrimônio.

Compreendendo o potencial das estruturas existentes

A opção de reutilizar e adaptar edifícios tem múltiplas vantagens.

Além de garantir a continuidade da identidade cultural do local, também conserva a energia e os materiais já utilizados e limita a necessidade de consumir novos recursos, tornando-se a opção mais sustentável na maioria dos casos.

Esse conceito é conhecido como “energia cinza”, um termo que se refere à soma de toda a energia necessária para produzir um produto.

A energia primária utilizada durante a construção representa uma grande parte do consumo total de energia do edifício ao longo de seu ciclo de vida, com materiais como o concreto contribuindo com quantidades significativas de CO² necessárias para a produção.

“No entanto, as estruturas de concreto sólido têm vantagens para a reutilização, já que suas estruturas podem suportar grandes intervenções.

Os edifícios existentes são o material de construção de amanhã. Valorizar o que existe não é uma atitude conservadora, mas sim um método (muitas vezes esquecido) de continuidade e enriquecimento. Baseia-se numa filosofia de cuidados e muitas vezes é muito mais responsável economicamente”, explica -Anne Lacaton

Museu de Arte Contemporânea Zeitz na Africa / Heatherwick Studio. Imagem © Iwan Baan

Exemplos de silos e bunkers de concreto reformados demonstram que a criatividade e a liberdade de design podem surgir a partir de estruturas existentes.

Entre 1973 e 1975, Ricardo Bofill transformou uma antiga fábrica de cimento em La Fàbrica, um complexo de moradia e trabalho que se tornou um de seus projetos mais conhecidos.

Um projeto de conversão semelhante foi realizado entre 1977 e 1986 em São Paulo pela arquiteta Lina Bo Bardi, resultando na Fábrica da Pompeia, um grande exemplo de conversão pós-industrial e um modelo de arquitetura brutalista.

Recentemente, a transformação do Studio Thomas Heatherwick do Complexo de Silos da Cidade do Cabo no Museu de Arte Contemporânea Zeitz demonstra mais uma vez a qualidade e complexidade dos espaços que

podem resultar da integração e reutilização de estruturas existentes.

SESC Pompéia / Lina Bo Bardi. Imagem © María González

expresso.arq sobre artigo de Maria-Cristina Florian | Traduzido por Diogo Simões

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