Cannabis na moda? Entenda o potencial do cânhamo na produção de fibras têxteis

O cânhamo industrial, uma variedade da planta cannabis sativa, é uma alternativa agrícola promissora e inovadora. 

Pode ser usado em mais de 25 mil produtos – desde a indústria da moda a bioplásticos, cosméticos e materiais de construção.

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Historicamente, a cannabis tem sido utilizada por milênios em diversas formas, incluindo a produção de roupas, com o tecido de cânhamo sendo um dos mais antigos da humanidade. 

Contudo, falar sobre a planta ainda gera estranhamento na sociedade, carregada de estigmas que exigem desmistificação. 

O cânhamo é uma planta sem propriedades psicoativas e oferece um caminho para a sustentabilidade no campo e na indústria da moda, como mostra o relatório Modefica – Fios da Moda do Instituto Modefica.

Desmistificando a cannabis: cânhamo industrial versus outras variedades

É fundamental para o público rural compreender a diferença clara entre o cânhamo industrial e outras variedades da planta cannabis.

O cânhamo industrial contém menos de 0,3% de THC (delta-9-tetrahidrocanabidiol), o principal composto psicoativo. 

Produtores cultivam o cânhamo industrial com foco em suas fibras robustas, sementes nutritivas e óleos.

Ele serve para fabricação de suplementos nutricionais, produtos têxteis e até biodiesel. 

Esta baixa concentração o torna inviável para uso recreativo, distinguindo-o de outras variações da cannabis.

O assunto já foi alvo de debate na justiça federal, quando o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu a baixa concentração de THC no cânhamo industrial.

Órgãos como a Embrapa e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) têm participado das discussões sobre sua regulamentação e cultivo no Brasil.

Por que investir na produção de cannabis para fibras?

O cultivo de cânhamo oferece notáveis benefícios ambientais. Considerado uma cultura regenerativa, não demanda agrotóxicos e utiliza poucos herbicidas e água.

Sua produção de fibra por hectare (cerca de 10t/ha) é maior em comparação com o algodão (média de 4t/ha). 

O cânhamo também economiza cerca de 75% de água por quilo de produção em relação ao algodão, com um consumo médio de 2.401 a 3.401 quilos de água por quilo, frente aos 9.758 quilos do algodão.

Um fator importante na questão climática é a alta capacidade da cultura de capturar dióxido de carbono, emitindo poucos gases de efeito estufa. 

Enquanto o algodão sequestra até 1,5 toneladas de CO² por hectare em sistema de plantio direto, o cânhamo pode sequestrar de 1,62 a 15 toneladas por hectare. 

Além disso, a planta melhora a saúde do solo através da fitorremediação e da adição de matéria orgânica, e seu sistema radicular, que se aprofunda até 140 centímetros, permite extrair água eficientemente, tornando a irrigação pouco necessária. 

O cânhamo suprime ervas daninhas, alivia o estresse de nematoides e melhora a microfauna do solo quando utilizado em rotação com outras culturas.

Retorno econômico da cannabis para fibras

O cânhamo para fibras possui um potencial de mercado crescente. A indústria da moda busca alternativas têxteis sustentáveis e o cânhamo entrega um valor agregado superior devido às suas qualidades. 

Além da fibra, a planta gera subprodutos valiosos que criam múltiplas fontes de renda para o produtor.

As sementes podem ser utilizadas para alimentação e produção de óleo, enquanto a biomassa serve para combustível, materiais de construção, papel, cordas, resinas, cosméticos e até cerveja. 

Apesar de seu potencial, o cânhamo representava apenas 0,2% do mercado total de fibras em 2020, com uma produção global de fibra e estopa de 174 mil toneladas, muito inferior aos quase 24,5 milhões de toneladas de algodão mundial na safra 2020/2021. 

De acordo com a Febratex, o preço do cânhamo pode ser de 1,5 a 10 vezes mais elevado que o do algodão, e a oferta de fibra ainda é insuficiente para a demanda crescente do mercado.

A Embrapa desenvolveu um programa de pesquisa voltado ao melhoramento genético, manejo e rastreabilidade.

De acordo com levantamentos da estatal, o Brasil possui cerca de 28 milhões de hectares de pastagens degradadas.

Para a pesquisadora Daniela Bittencourt, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, essas áreas poderiam ser aproveitadas para o cultivo de cânhamo, favorecendo a recuperação dos solos e fortalecendo a agricultura sustentável sem competir com terras destinadas à produção de alimentos.

“A criação de um marco regulatório claro, baseado em critérios científicos, é essencial para atrair investimentos e garantir segurança jurídica aos produtores”, afirmou Daniela em audiência pública, organizada pela Frente Parlamentar da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial, realizada em 27 de março.

A fibra de cannabis no setor têxtil

A fibra de cânhamo apresenta propriedades superiores que a tornam uma escolha de excelência no setor têxtil.

Ela possui fibras longas e resistentes, resultando em um tecido macio com durabilidade superior à do algodão, podendo durar o dobro ou triplo do tempo. 

Este tecido não é suscetível ao encolhimento, é altamente respirável, com propriedades higiênicas positivas, resistente a mofo, bolor e micróbios. 

O cânhamo também é mais resistente aos raios ultravioletas do que o algodão. Essas características permitem que a fibra de cânhamo seja utilizada em uma vasta gama de produtos têxteis.

Desde roupas casuais como camisetas e jeans, roupas esportivas, até sapatos, acessórios como bolsas e chapéus e artigos de decoração como tapetes e móveis.

A mistura do cânhamo com outras fibras, como o algodão, pode gerar peças ainda mais macias.

O cenário regulatório da cannabis no Brasil

O status da legislação brasileira em relação ao cânhamo industrial está em constante evolução, porém, em passos lentos.

Atualmente, o plantio de cânhamo é proibido no Brasil, e seu uso na indústria está em um limbo regulamentar. 

A importação de produtos derivados de cannabis é legal no país desde 2015. No entanto, a decisão sobre o cultivo para fins medicinais e a comercialização de medicamentos à base da planta segue em debate na Câmara dos Deputados. 

O Projeto de Lei 399/15, que visa a regulamentação para fins medicinais, enfrenta dificuldades de aprovação devido à influência de grupos conservadores e, mesmo se aprovado, não contempla o cânhamo industrial. 

A Associação Nacional do Cânhamo Industrial mantém uma lista de propostas legislativas em trâmite no Congresso Nacional.

Iniciativas estaduais, como a Frente Parlamentar em Defesa da Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), buscam fomentar pesquisas e diálogos com diversos atores da sociedade para avançar na discussão. 

Como solução para o impasse regulatório, a Embrapa “propõe a criação da Comissão Técnica Nacional da Cannabis, nos moldes da CTNBio, para classificar cultivos conforme teor de THC e risco.

Variedades industriais teriam regras simplificadas, enquanto as destinadas à medicina passariam por controles mais rigorosos”.

O caminho trilhado por outros países latinoamericanos sugere que a regulamentação do uso medicinal da cannabis precede geralmente a liberação para uso próprio, alimentar e, posteriormente, têxtil.

É fundamental que produtores rurais e interessados acompanhem as atualizações legais por meio de fontes oficiais como os sites da Embrapa, Mapa e Anvisa, para entender as diretrizes e necessidades de licenças específicas.

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